Cinco estrelas de Hollywood ficam perto dos 40

Donna Freydkin e
William Keck*

Quarenta.

Para cinco das principais atrizes de Hollywood - Halle Berry, 38 anos; Julia Roberts, 37; Nicole Kidman, 37; Naomi Watts, 36; e Catherine Zeta-Jones, 35 anos - esse número pode ter o efeito de um sinal vermelho.

A faixa dos quarenta é a idade em que, historicamente, começam a desaparecer os papéis desejáveis para as mulheres. É quando os bons roteiros param de chegar. E quando as novatas de vinte-e-poucos anos começam a beliscar os papéis mais cobiçados.

Para cada Katharine Hepburn, que conquistou seu quarto Oscar aos 74 anos com o filme "Num Lago Dourado", há muitas outras estrelas femininas que parecem ir sumindo, como se fossem pinturas a óleo que já tiveram valor e ficam abandonadas ao sol. É só pensar em Jessica Lange, 55; Melanie Griffith, 47; ou Michelle Pfeiffer, 46.

"Os papéis começam a escassear quando (as atrizes) chegam a uma certa idade", reconhece o diretor e ator indicado ao Oscar Clint Eastwood, que aos 74 anos ainda é talhado para papéis de protagonista. "Isso é um crime", resume o diretor.

Mas Kidman, Roberts, Berry, Zeta-Jones e Watts - todas elas vencedoras de Oscars ou indicadas ao prêmio da Academia - têm possibilidades de contrariar essa tendência de Hollywood por diversas razões, dizem os especialistas.

  • Elas não se desgastaram após seus lançamentos. "As carreiras dessas mulheres realmente floresceram quando elas já estavam nos seus 30 anos", diz o crítico e historiador de cinema Leonard Maltin, do programa de TV Entertainment Tonight. "Sendo assim, ninguém está cansado delas."

  • Elas souberam variar seus papéis. Todas essas atrizes trintonas souberam balancear a carreira, fazendo tanto filmes de grande orçamento e apelo popular - Halle Berry como Storm nos filmes "X-Men", Naomi Watts que vem aí mês que vem em "The Ring Two", Zeta-Jones em "Doze Homens e Outro Segredo-com também em filmes menores e mais intimistas. Isso inclui os trabalhos de Watts em "21 Gramas", de Julia Roberts em "Closer-Perto Demais" e de Nicole Kidman em "Birth."

  • Elas têm planos para o futuro. Todas essas cinco atrizes ou produzem filmes ou têm suas próprias produtoras, que servem para descobrir ou desenvolver roteiros.

    "Tudo isso depende da habilidade delas, agora que estão no topo, em se prepararem para os anos de vacas magras. E é melhor que elas se preparem mesmo, porque a longevidade de uma estrela feminina é baseada numa combinação de "bons papéis, bons genes e boa sorte", diz Jeanine Basinger, fundadora e curadora dos Arquivos de Cinema e diretora do Departamento de Estudos Cinematográficos, na Universidade Wesleyan, em Middletown, no Connecticut.

    "O homem pode ser o galã até os 101 anos. Mas há mesmo essa questão para a mulher que, se não pode mais ser a 'mocinha', será o quê então?"

    É por isso, segundo Basinger, que é fundamental, para as atrizes a partir da faixa dos trinta anos, preferir papéis de substância, em vez de meros brilharecos.

    Em-mulher de Eastwood, a atriz Frances Fisher, 52, que sustentou uma carreira estável interpretando papéis de coadjuvante, considera que Nicole Kidman é uma atriz que está seguindo bem o conselho de Jeanine Basinger.

    "Nicole é bem esperta em relação a carreira dela", diz Frances. "Ela vem pegando papéis bem densos, e mostrando sua versatilidade. Ela não se deixou aprisionar por um só tipo (de personagem)."

    Kidman ganhou seu Oscar não por ter vivido uma glamurosa dançarina de cancan em "Moulin Rouge", mas por ter interpretado uma pouco atraente Virginia Woolf em "As Horas", com prótese no nariz, cabelo estragado e tudo mais.

    Halle Berry se desglamurizou para interpretar uma garçonete amargurada (e ganhar seu Oscar de melhor atriz) em "A Última Ceia". Julia Roberts interpretou, indo contra seu próprio estilo, uma adúltera pouco simpática em "Closer". E Naomi Watts foi festejada ao interpretar uma viúva deprimida e desanimada em "21 Gramas".

    Mas, como sempre aconteceu, bons papéis não chegam com facilidade, e especialmente quando as mulheres vão ficando mais velhas. "É muito, muito difícil mudar a percepção dos estúdios, de que não é apenas o jovem e o belo que são aceitáveis para o público", diz Fisher.

    A diretora e roteirista Nancy Meyers diz que foi por contar com Jack Nicholson a bordo que ela pôde fazer o sucesso de U$ 125 milhões "Alguém Tem que Ceder", de 2003, com Diane Keaton, que agora tem 59 anos, como protagonista. Um certo diretor de estúdio havia dito a Nancy que as platéias não queriam ver mulheres mais velhas sob os lençóis. A presença de Nicholson, segundo a diretora, "foi o que trouxe sossego (ao estúdio)".

    "O negócio cinematográfico é duro", reconhece Annette Bening, que aos 46 anos concorre ao prêmio da Academia esse ano pelo personagem de uma atriz decadente, em "Being Julia". "O cinema é regido pela economia, e o que a economia quer é colocar muitas pessoas numa sala. Essa é a realidade do negócio --da cultura em que estamos."

    Bons papéis ainda não aparecem com facilidade

    Essa realidade não é chocante para a diretora de casting (escalação de elenco) baseada em Los Angeles Jane Jenkins, que trabalhou em "Uma Mente Brilhante", "Friday Night Lights" e "Alguém Tem que Ceder".

    "Não consigo lhe dizer qual foi o último roteiro que li onde precisavam de mulheres na faixa dos quarenta-e-tal", diz a diretora de casting. "Não há muitos papéis assim. Desde 'Alguém Tem que Ceder', não consigo lembrar de um projeto em que estivesse trabalhando onde precisássemos de atrizes dessa faixa."

    Mas há muitos papéis onde as idades não são especificadas, e que podem ir para mulheres dos 30 em diante. E é aqui que Julia, Nicole e companhia podem se dar bem. Elas têm uma aparência jovem e vibrante, e ainda exalam uma feminilidade esperta e madura.

    "A carreira de Nicole está segura. Ela pode virar os 40 e ainda seguir incrivelmente bonita e talentosa", diz Jenkins.

    O mesmo vale para Julia Roberts, diz Basinger: "Ela tem uma dessas belezas únicas, de certa forma anticonvencionais, na tradição de uma Audrey Hepburn. Ela está com opções porque tem um look que não envelhece."

    E essas opções estão abertas para Halle Berry, Naomi Watts e Catherine Zeta-Jones.

    "Tradicionalmente as mulheres perdem a força aos 40, mas acho que sob alguns aspectos essas mulheres serão capazes de quebrar essa barreira", diz Mimi Leder, que dirigiu Nicole em "O Pacificador", de 1997.

    "Os cinqüenta são os novos quarenta; e os quarenta os novos trinta. As mulheres estão ficando mais belas. Veja só (a série de TV) "Desperate Housewives." Aquelas mulheres (em sua maioria) estão nos quarenta, e o programa é um grande sucesso. Talvez o mundo tenha se dado conta de que há mulheres além dos 20 anos."

    Julia Roberts, Kidman e suas colegas ainda são consideradas "mulheres sexy e sensuais", diz Maltin. "Eu não vejo diminuírem as capas de Julia Roberts na revista People. Nem as coberturas de Nicole no tapete vermelho. Nem diminuem as histórias sobre Halle Berry sendo substituída da função de porta-voz e modelo para a Revlon."

    Meyers diz que esse tipo de mulher provavelmente "irá durar um pouco mais, porque elas têm um relacionamento real com o público. As pessoas realmente querem ver Nicole Kidman e Julia Roberts."

    E embora Catherine Zeta-Jones ainda não tenha sido protagonista num filme de sucesso, "ela já se mostrou capaz de interpretar vários papéis diferentes. Ela pode fazer musicais, aventuras, histórias dramáticas e comédias. Isso aumenta suas chances", diz Jeanine Basinger.

    Quanto a Naomi Watts, os especialistas dizem que ela continua sendo uma "atriz de características" que poderá trabalhar por muitos anos, porque a carreira dela nunca se baseou no visual ou no sex appeal.

    Entre todas as mulheres, a situação poderá se complicar para Halle Berry, que recentemente fracassou em filmes como "Gothika/Na Companhia do Medo" e "Mulher Gato", de acordo com Jeanine Basinger. "Halle se retirou dos papéis em filmes sérios, e isso claramente tem sido o beijo da morte para ela."

    Mas não a descarte assim tão rápido, alerta Marc Forster, que levou Halle Berry à estatueta dourada em "A Última Ceia". "Halle é uma grande atriz", ele diz. "Mas ela precisa garantir trabalho com os diretores e projetos certos."

    Berry estará de volta aos papéis sérios, como uma mulher que sobrevive à pobreza, num novo telefilme para a rede ABC produzido por Oprah Winfrey, "Their Eyes Were Watching God", no ar dia 6 de março nos Estados Unidos.

    Produzir filmes garante a vinda de novos papéis

    Para Halle Berry e suas colegas, o seguro para um bom futuro inclui planejamento. Isso pode acontecer se elas abrirem suas próprias produtoras, para buscar roteiros quentes e desenvolvê-los.

    Kidman, que produziu o suspense erótico "Em Carne Viva", não está muito preocupada com o envelhecimento, porque se imagina abandonando o cinema no futuro, para se dedicar mais à caridade e também para fazer teatro. "Não sei quando se dará o rompimento, mas esse negócio interpretação) não vai durar por muito mais tempo", diz a atriz.

    Quanto à Julia Roberts, lembrem-se que sua produtora Red Om Productions estava por trás do drama feminino movido-a-estrogênio "O Sorriso de Mona Lisa", de 2003. E Naomi Watts produziu no ano passado "We Don't Live Here Anymore", e agora também seu novo filme "Ellie Parker", que estreou no Festival de Sundance. Enquanto isso, Halle Berry foi produtora executiva de um elogiado drama para a HBO, "Lackawanna Blues", e está produzindo seus dois próximos filmes, "Foxy Brown" e "Nappily Ever After."

    "Se eu tiver que produzir ou dirigir filmes, para mudar o jeito com que Hollywood trata as mulheres mais velhas, eu farei o que for necessário", diz Naomi. "Se eu tiver que ser flexível, eu serei. Se precisar quebrar as regras, também o farei."

    Ela contará com o apoio de mulheres poderosas nos bastidores, como Elaine Goldsmith-Thomas. Empresária parceira dos Revolution Studios e ex-mega-agente para os estúdios ICM, ela diz que atualmente desenvolve uns 18 ou 19 projetos, todos eles com mulheres protagonistas.

    "Não estamos tentando marcar posição", diz Goldsmith-Thomas. "Fazemos filmes que queremos ver."

    Até Meryl Streep, tão reverenciada pela crítica, atribui sua longevidade ao fato de que mais mulheres estão mandando nos estúdios.

    "Alguém já disse que às vezes os diretores dos estúdios não querem escalar filmes com aquela imagem da primeira mulher deles se projetando sobre a personagem", disse Streep ao USA Today em julho passado. "Isso é meio desagradável para eles, e é por isso que gostam da idéia de ter jovens (no elenco)."

    Mas tudo isso está mudando lentamente, diz Annette Bening. "Acho que com o passar do tempo, e com as mulheres ocupando posições que determinam até o que será visto nas salas, talvez possamos expandir as imaginações das pessoas sobre o que o público gosta de ver."

    Talvez essa época já tenha realmente chegado. Anne Sweeney tem cargo de comando no estúdio ABC/Disney, Amy Pascal na Sony e Stacy Snider na Universal.

    E embora Sherry Lansing esteja saindo da Paramount (para ser substituída pelo produtor/gerente de talentos Brad Grey), ela já viu progressos nesse seu tempo de comando. Depois de notoriamente ter iniciado sua carreira declarando que em sua vida jamais chegaria a ver uma mulher como presidente de um estúdio, Lansing agora tem "certeza de que ter 40 já não é mais um problema, e eu acho que o poder das mulheres é responsável por isso.

    Com as mulheres controlando o "processo da luz verde", agora estamos procurando por mulheres de todas as idades, e por filmes sobre mulheres, tipos diferentes de mulheres. E não procurando apenas por meninas de 20 anos."

    Além disso, poucas atrizes na faixa dos 20 anos já se mostraram valiosas o bastante para o título de próxima "Pretty Woman"("Linda Mulher").

    Scarlett Johansson, Julia Stiles, Reese Witherspoon, Natalie Portman e Keira Knightley já impresionaram os críticos. Mas nenhuma delas, com a exceção do que Witherspoon mostrou na franquia de "Legalmente Loura", conseguiu render nas bilheterias os milhões de dólares que suas colegas mais velhas já faturaram. E nenhuma delas chega perto da devoção que Julia Roberts desperta no público.

    Roberts, que ainda é a estrela suprema de Hollywood e a mais bem paga, recebendo U$ 25 milhões por filme, talvez seja a que melhores apostas já fez em relação ao futuro.

    "Acho que é perigoso falar em termos bem gerais dessa coisa de ditadura do sexo, da idade ou da cirurgia plástica", diz a mamãe superstar. "Só é possível falar a partir de sua própria experiência. E a minha experiência até agora tem sido inacreditavelmente boa. Ah, os rapazes recebem mais? Sim, recebem. Mas todos nós não ganhamos um excesso de dinheiro? Sim, ganhamos demais. Confesso que estou confusa sobre qual deve ser o real motivo da minha queixa."

    * Contribuíram Scott Bowles e Claudia Puig. Para pesquisadora de cinema, o homem pode ser galã até os 101 anos, mas o mesmo não vale para as atrizes Marcelo Godoy
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