Atriz Imelda Staunton se expõe à poeira do Oscar

Claudia Puig

A época que vai até a entrega dos prêmios da academia cinematográfica, neste domingo (27/02), é um período excitante para qualquer indicado ao Oscar. E como é praticamente uma forasteira, basicamente desconhecida nesse continente, a indicada a melhor atriz Imelda Staunton está determinada a aproveitar toda a atenção e badalação do evento.

Evan Yee/Los Angeles Daily News

Imelda Staunton e o realizador de "Vera Drake", o inglês Mike Leigh
Staunton interpreta a personagem-título em "Vera Drake", uma decidida esposa e mãe na Inglaterra após a Segunda Guerra Mundial. Vera é como o sal da terra: uma alegre faxineira que encerra muitas de suas frases com a alegre expressão "love", algo como "meu bem". Mas Vera também tem uma vida secreta, como aborteira.

A interpretação de Staunton é sutilmente complexa e emocionante. Foi louvada por críticos no mundo inteiro, inclusive recebendo um prêmio no Festival de Cinema de Veneza e também um Bafta, equivalente britânico ao Oscar.

"Ter esse acontecimento na minha vida agora, no que eu espero que seja o meio da minha carreira, é como receber poeira dourada na cara", diz Imelda Staunton, 49 anos. "É das coisas que só acontecem uma vez na vida."

Há muitos atrativos: trajes de famosos estilistas feitos para ela, jóias elaboradas pelos mais consagrados joalheiros.

"Graças a Deus, as pessoas me levam para lá e para cá", ela diz. "Não preciso cuidar de nada. Só tenho que aproveitar."

Mas uma das razões pelas quais ela valoriza essa badalação não tem nada a ver com o glamour ou com prêmios.

"Se 'Vera Drake' já fez com que as pessoas discutam esse assunto, já contribuiu de alguma forma para um debate que precisa prosseguir", diz Imelda. "Isso porque, não importa o que venhamos a fazer, o aborto nunca irá desaparecer. Nós humanos inventamos esse fato há milhares de anos, estamos ligados ao aborto. E o que podemos fazer? Vamos torná-lo uma operação mais segura ou voltaremos ao tempo mais antigo?"

Embora ela já tenha dito que não quer "bater tambores", a atriz é uma defensora do direito da mulher ao aborto. "Eu mesma não me sinto politicamente habilitada para liderar qualquer movimento pró-escolha", diz Imelda. "Eu admiro muito pessoas como Susan Sarandon ou Tim Robbins. Aplaudo a determinação deles, a "pele resistente" que eles demonstram quando não ligam para o fator 'talvez ninguém mais queira me empregar'. Mas todos nós fazemos o que devemos fazer."

Política à parte, Imelda Staunton não poderia estar mais satisfeita por trabalhar com o personalíssimo diretor britânico Mike Leigh, que concorre ao Oscar de melhor diretor no domingo. "Mike faz você vir morar no personagem, porque ele convida o ator a criar o papel, junto com ele", diz a atriz.

Leigh diz que o filme dele "não confronta o espectador com propaganda em preto-e-branco. Ele lhe apresenta um dilema envolvendo personagens fictícios, criados após ampla pesquisa."

Imelda Staunton começou a criar o personagem dela estudando a época e o ambiente do filme --o mundo da classe trabalhadora britânica nos anos 50.

"Começamos "Vera" em 1905, quando ela nasceu, e aí desenvolvemos toda a vida dela a partir daquele momento", segundo a atriz. "Durante seis meses estivemos criando a vida de Vera. E louvado seja Deus, porque trabalhar com Mike é como ter alguma espécie de curso superior."

(Imelda Staunton já conta com um currículo impressionante. Depois de se formar na prestigiosa Royal Academy of Dramatic Arts de Londres, ela trabalhou em produções da Royal Shakespeare Company e teve uma festejada estréia na TV com a série "The Singing Detective", da BBC.)

Quanto aos diálogos do filme, Imelda Staunton diz que "não há nada que esteja propriamente escrito. Nós improvisamos. Depois então cabe a Mike fazer a sintonia fina."

Esse estilo pouco ortodoxo agradou tanto a Imelda, segundo a atriz, que ela até relevou problemas como na "penúltima semana de filmagens", quando a produção teve que ser interrompida e a equipe foi dispensada, para economizar dinheiro e poder então rodar as cenas finais.

Imelda também estudou a vida de mulheres como Vera Drake. "Eu li cartas de mulheres que estavam presas porque operaram abortos. 85% por cento delas eram mães e avós."

Imelda também é mãe. Ela e o marido, o ator britânico Jim Carter, com quem está casada há 20 anos, têm uma filha de 11 anos, Bess. Os três irão juntos ao Oscar.

Mas Imelda não leva tão a sério toda essas aclamação que recebeu esse ano. "Sou uma atriz de personagens característicos, que faz papéis diferentes e interessantes."

Vera Versátil

Os cinéfilos poderão conferir outro trabalho de Imelda Staunton ainda esse ano, em "Nanny McPhee", baseado na série de livros sobre a enfermeira Matilda.

A versatilidade da estrela de "Vera Drake" também pode ser conferida em filmes como "Shakespeare Apaixonado", "Bright Young Things", "Razão e Sensibilidade" e "Fuga das Galinhas".

Mas trabalhar com Mike Leigh foi um ponto alto que ela gostaria de repetir. "Acho que posso até virar uma obsessiva, do tipo capaz de acampar em frente à casa dele e perturbá-lo, até conseguir fazer outro trabalho com Mike." Inglesa disputa o prêmio de melhor atriz principal por "Vera Drake"

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