Filmes com temas deprimentes ameaçam Oscar

Anthony Breznican

Que tal abrir o envelope com o vencedor? Se levarmos em conta os concorrentes desse ano, será mais como abrir, ou deixar, uma veia aberta. Vício em drogas, eutanásia, doença mental, genocídio, aborto, jovens mães doentes e o limiar do alcoolismo --esses são alguns dos temas favoritos do Oscar esse ano.

Hollywood freqüentemente se vale dos prêmios da Academia como forma de aumentar o interesse das platéias por filmes mais introspectivos. Mas a lista desse ano, composta por filmes com temas sombrios, realmente não teve campeões de bilheteria. Pela primeira vez desde que "Conduzindo Miss Daisy" venceu em 1990, nenhum dos filmes indicados terá cruzado a fronteira da arrecadação de US$ 100 milhões antes da transmissão da cerimônia de premiação.

Nos últimos 10 anos, os indicados a melhor filme faturaram uma média de US$ 545 milhões por ano, entre suas estréias nas telas e a cerimônia. Esse ano, o total antes da entrega dos prêmios chega a meros US$ 324 milhões, menos 41%.

Esse baixo rendimento pode ter sido causado por um excesso de lágrimas.

Esse ano, o Oscar é um homem que se queixa constantemente, da loucura obsessiva-compulsiva de Howard Hughes em "O Aviador" ao dilacerante uso de heroína por Ray Charles em "Ray", além da eutanásia em "Menina de Ouro" e dos meninos que cuidam, sem esperanças, da mãe agonizante no filme "Em Busca da Terra do Nunca". Até mesmo a solitária comédia que integra a disputa de melhor filme tem um lado obscuro, já que os camaradas de "Sideways, Entre umas e Outras" viajam pelos vinhedos do país anestesiando suas frustrações românticas com vinho pinot noir.

Esses são os filmes que dominam as principais categorias, e outras produções que aparecem em disputas importantes também apresentam temas dolorosos, incluindo "Hotel Rwanda", denúncia brutal sobre a indiferença mundial em relação ao genocídio que ocorreu no ano de 1994 em Rwanda, com indicações para o ator Don Cheadle, para a coadjuvante Sophie Okonedo e para o roteiro.

Na categoria para o prêmio de melhor atriz, especialmente, temos pouca leveza:

  • Hilary Swank é uma lutadora que recebe duro golpe em "Menina de Ouro".

  • Annette Bening é uma atriz auto-obcecada que vai envelhecendo em "Being Julia."

  • Imelda Staunton é uma desajeitada aborteira britânica em "Vera Drake."

  • Catalina Sandino Moreno é uma adolescente colombiana que esconde pacotes de heroína no estômago em "Maria Cheia de Graça".

  • Kate Winslet fica tão mal após terminar um relacionamento que tem a memória apagada em "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças."

    O fato de que essas histórias humanas e intimistas foram vistas por um número relativamente pequeno de espectadores poderá trazer problemas para os índices de audiência da transmissão nesse domingo --e para a reputação dos Oscars entre a média dos espectadores.

    A comunidade que elege os candidatos ao Oscar se orgulha de valorizar o talento, e não a margem de lucro. Mas a estatura da entrega dos prêmios depende da capacidade de atrair grandes audiências na TV e da capacidade de posteriormente influenciar as bilheterias.

    Ao desconsiderar os critérios do público médio, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas corre o risco de ser tachada de elitista ou talvez de eventualmente se tornar irrelevante para o grande público. Na disputa desse ano, esse dilema está bem acentuado.

    Tudo isso acontece durante um ano que já seria crítico para o show da entrega dos prêmios, que tenta reter seu status mitológico no meio de um verdadeiro exército de shows rivais que também entregam prêmios, sendo que a audiência de muitos deles despencou esse ano.

    Filmes menores, interesse menor?

    Pessoas ligadas à entrega dos Oscars descrevem esse ano como uma espécie de acidente. "Temos decididamente um grupo de filmes menores", diz Bruce Davis, diretor executivo da Academia. "Mais ou menos nos últimos 20 anos, tivemos uma folha corrida bem respeitável. Em alguns anos há grandes campeões de bilheterias entre os melhores filmes, e às vezes são filmes menores que alcançam o reconhecimento."

    Davis se preocupa com o pequeno interesse pelos filmes, e que isso possa se traduzir em baixa audiência para a transmissão dos prêmios: "Acho que há problemas para o show nos anos em que isso acontece. Quando dois ou três ou quatro entre os maiores filmes ainda não chegaram à sua cidade, fica mais difícil se animar com o programa de TV."

    Esse é um sentimento que repercute em fãs do Oscar que vivem nas cidades médias e pequenas dos Estados Unidos. "Ainda não vi nenhum dos filmes", diz a fã de Oscars Amy Campbell, de Fayetteville, no Estado de Arkansas. "Parece que a maioria deles só estreou no grande circuito nacional quando foram anunciadas as indicações. Quem se importa sobre quem foi indicado por qual filme, se você ainda nem conseguiu ver os trailers de alguns deles?"

    Davis e outros organizadores do Oscar estão fazendo tudo o que podem para atrair mais pessoas. O show terá a presença de um insolente novo apresentador, o comediante Chris Rock, e os criadores do programa prometem uma transmissão mais dinâmica, com cenas de bastidores e alguns concorrentes se alinhando no palco para aguardar o anúncio do prêmio, no estilo dos concursos de misses. Além disso, estarão em cena músicos pop, de Beyoncé aos Counting Crows e Carlos Santana, interpretando as indicadas à melhor canção.

    Embora as grandes platéias não tenham se sentido atraídas para ver os filmes do ano, os atores consideram as atuais indicações um triunfo para a falange artística de Hollywood.

    "Nos filmes de hoje em dia, tudo é comercial, só querem saber de vender", diz Jamie Foxx, indicado a melhor ator por "Ray".

    O filme dele poderia ter sido mais leve, diz o ator, mas assim teria sido menos interessante. Graças ao financiamento independente, os cineastas puderam ser mais fiéis às suas próprias visões.

    "Não tivemos esse ano um diretorzão dos estúdios dizendo 'Não podemos mostrar Ray Charles se injetando drogas. Só queremos vê-lo cantando glória à América'", diz Jamie Foxx. "Se tivéssemos feito isso no filme, vocês teriam se entediado e diriam 'Esse não passa de outro filme autobiográfico'. E ninguém quer ver isso."

    Outros atores dizem que Hollywood já despeja entretenimento populista o ano inteiro, e que os eleitores do Oscar não devem ser criticados por premiar histórias mais intimistas --mesmo que sejam em filmes que alguns tradicionais espectadores prefiram não assistir.

    Morgan Freeman, que tem uma indicação para melhor coadjuvante por "Menina de Ouro", também defende o lado mais soturno de seu filme: "Desculpem se há algumas pessoas que se incomodam com essa temática. Mas acho que a maior parte do público consegue identificar o filme pelo que ele é na verdade, com uma história maravilhosa, sendo que às vezes há escolhas turbulentas na vida que nos obrigam a um confronto interior."

    Apesar disso, Freeman admite entender por que algumas pessoas evitam o filme devido ao seu ato final, que é emocionalmente extenuante: "Talvez alguns amigos seus tenham visto e lhe digam, balançando a cabeça, 'Não acho que esse seja o seu tipo de filme preferido'".

    Até mesmo a única comédia na turma da categoria de melhor filme tem mais a ver com arrependimento e compaixão do que com humor rasgado. "É um filme da vida comum... Como acontece na vida de todo mundo, a cada dia você pode ter períodos de empolgação, de alegria, de tragédia, de aspereza e de pura comédia", diz o astro de "Sideways, Entre Umas e Outras" Thomas Haden Church, cujo festeiro "gatão da meia-idade" lhe rendeu uma indicação para melhor ator coadjuvante.

    Alguns especialistas em Oscars dizem que os indicados desse ano refletem um estado geral circunspecto que envolve a produção de filmes em Hollywood.

    Robert Osborne, autor de "75 Years of the Oscar: The Official History of the Academy Awards" ("75 Anos do Oscar: A História Oficial dos Prêmios") diz que os eleitores do Oscar se voltaram para filmes pequenos e plenos de agonia porque 2004 teve poucos filmes "alto astral" e de grande orçamento.

    "Eles não tiveram muita escolha", diz Osborne. Até agora os indicados ao Oscar "não apresentam aquela característica do 'você tem que ver', que tantos esperam".

    Os dois filmes mais comentados do ano passado --"Fahrenheit 11 de Setembro" e "A Paixão de Cristo"-- foram duas batatas quentes em termos políticos. "Fahrenheit", que não concorreu na categoria de documentário devido a uma fracassada tentativa de alcançar a indicação à melhor filme, foi esnobado em outras categorias, e "A Paixão" teve apenas três indicações (fotografia, maquiagem e trilha sonora).

    Outros grandes sucessos do ano passado --"Van Helsing - O Caçador de
    Monstros", "Tróia" e "A Lenda do Tesouro Perdido"-- não têm o peso necessário para figurarem entre os Oscars, enquanto filmes de dimensões épicas bem colocados para os prêmios --"O Fantasma da Ópera" e "Alexandre"-- fracassaram, dividindo opiniões entre críticos e platéias.

    'Um ano bem ordinário para os filmes'

    "Os grandes campeões de bilheteria agora são feitos por garotos, para garotos", diz Osborne. "Eles são produzidos menos pelo mérito artístico e mais pelo que poderão vender entre os adolescentes. Já houve um tempo em que a indústria teve mais capacidade de combinar os dois aspectos: ganhar dinheiro e contar boas histórias. Daí vieram "Lawrence da Arábia", "E o Vento Levou" e "A Ponte do Rio Kwai". Já 2004 foi um ano bem ordinário. Se você ama os filmes, isso é meio doloroso."

    Embora os indicados a melhor filme tenham lá os seus apreciadores, pessoas que dizem querem assistir ao show dos Oscars também dizem que estão mais interessadas em outros prêmios específicos, onde filmes de alto faturamento concorrem nas chamadas categorias técnicas.

    "Acho que não estarei me mexendo muito na poltrona em relação aos indicados a melhor filme, mas ficarei mais animada quando aparecerem as categorias menores", diz a aficcionada Pam Rose, de Warwick, no Estado de Rhode Island.

    "Será que 'O Aviador' irá suplantar 'Menina de Ouro'? Quem se importa?", diz Rose. "Só quero saber se 'Os Incríveis' conseguirá vencer 'Shrek 2' na categoria de animação."

    A boa notícia para os Oscars é que a disputa de melhor filme de 2005 já vai tomando corpo para ser mais populista e substancial, com filmes que deverão ter prestígio, como o épico de cruzadas "Kingdom of Heaven", a adaptação do best-seller "Memórias de uma Gueixa", o novo "King Kong" (dirigido pelo "Senhor dos Anéis" Peter Jackson) e a saga de guerra inspirada pelas operações no Iraque, "Jarhead."

    Os donos de cinema, que sentiram a pobreza nessa atual temporada de Oscars, já estão de olho na próxima temporada.

    "Temporadas (de prêmios) vão e voltam, sendo que em algumas temos filmes como 'Senhor dos Anéis'", diz a porta-voz da rede de salas AMC Pam Blase. "Tenho certeza de que há alguns grandes campeões de bilheteria vindo por aí." Baixo astral e baixa bilheteria devem tirar o interesse na premiação Marcelo Godoy
  • UOL Cursos Online

    Todos os cursos