EUA assistem à especulação sobre Hillary e Rice

Chuck Raasch
Em Washington
Colunista político

Eis aqui duas observações a respeito desta rota repleta de neve que nos conduz à primavera. Primeiro, 2008 poderá ser o ano no qual a primeira mulher disputará a presidência concorrendo por um grande partido político.

Nunca antes na política norte-americana duas mulheres emergiram tão fortalecidas, e tão cedo, em lados opostos da cerca partidária. Sim, a especulação de hoje poderá ser risível em 2008. Lembram-se de toda a expectativa dos republicanos em torno de Colin Powell?

Mas a história pode ser diferente no caso de Hillary Rodham Clinton e de Condoleezza Rice. Cada uma delas conta com atributos que parecem se encaixar nos seus respectivos partidos, pelo menos neste momento. O fato de serem mulheres poderia ser um atributo do tipo "já era hora". Desde que Shirley Chisholm disputou as primárias democratas de 1972, houve uma lenta mas progressiva aceitação das mulheres como candidatas presidenciais.

A agitação em torno do nome de Hillary Clinton, senadora por Nova York, é tão forte entre os democratas que até um dos seus potenciais concorrentes a encara como a favorita para a indicação pelo partido em 2008.

O senador Joe Biden, democrata por Delaware, que também está pensando em concorrer à indicação do partido, disse no programa da NBC "Meet the Press" no último domingo que seria "incrivelmente difícil vencer Hillary" na convenção democrata.

"Creio que é provável que ela seja a escolhida", afirmou Biden. "Ela seria o nome mais forte. E creio que Hillary Clinton é capaz de ser eleita presidente dos Estados Unidos".

Nem todos os analistas concordam, devido à base nova-iorquina de Hillary e aos grandes problemas enfrentados pelos democratas no sul e no meio-oeste, uma região rural, onde o rótulo de liberal do nordeste é bastante negativo.

Mas dentro do próprio partido há uma nostalgia tão grande pela presidência do marido da senadora, marcada por superávits de orçamento, que basta esse legado para beneficiar Hillary. Ela é também uma das poucas figuras democratas proeminentes que poderiam superar a divisão entre os liberais do partido, membros do MoveOn.org, e os centristas do Conselho de Liderança Democrata.

Já as perspectivas para Rice são mais complicadas. Ela sequer indicou que deseja disputar a presidência e não é a favorita nas pesquisas. Além disso, certos membros do seu partido acham que ela deveria criar as suas credenciais presidenciais desafiando, primeiramente, uma das duas populares senadoras democratas da Califórnia, Dianne Feinstein ou Barbara Boxer. Mas o nome dela para a presidência agitou bastante a recente Conferência de Ação Política Conservadora.

Rice poderia desaparecer antes mesmo de entrar no páreo se, por exemplo, as suas idéias relativas a questões sociais como o aborto forem tidas como muito liberais pelos conservadores do partido. Foi isso que contribui para torpedear o nome de Powell para a presidência.

Mas os primeiros passos de Rice como secretária de Estado durante uma viagem de dez dias à Europa foram bem recebidos no continente cético. Comentaristas e políticos europeus elogiaram a sua confiança, segurança e vigor. "Os franceses se apaixonaram por Condi Rice", disse o embaixador francês nos Estados Unidos, Jean-David Levitte, ao USA Today.

Para um Partido Republicano que enfatizou a luta contra o terrorismo e a disseminação da liberdade pelo mundo como sendo fatores essenciais à segurança dos Estados Unidos, Rice causou uma forte primeira impressão na sua primeira viagem como principal diplomata do país.

Em segundo lugar, vale a pena prestar atenção em Howard Dean. Ele está em uma viagem "vermelha, branca e azul", visitando as bases em Estados que não são muito favoráveis ao seu partido. Em 23 de março, ele estará em Nashville, Tennessee, um Estado que rejeitou o nativo Al Gore na campanha presidencial de 2000.

Por ora, Dean despreza o circuito de fofocas para se concentrar na reconstrução do partido em Estados nos quais os democratas, segundo disse o seu predecessor, Terry McAuliffe, estão em um estado deplorável.

Mas os velhos hábitos --no caso de Dean, a retórica divisiva e provocativa-- dificilmente são erradicados. Ao viajar pelo Kansas nesta semana, Dean disse em uma campanha para arrecadação de verbas em Lawrence: "Esta é uma luta entre o bem e o mal. E nós somos o bem".

A declaração --feita poucas semanas após ele ter dito: "Eu detesto os republicanos e tudo o que defendem"-- motivou poucos comentários por parte dos analistas.

Um caso de dois pesos e duas medidas?

Quando os republicanos alcançavam o poder em meados dos anos 90, o presidente republicano da Câmara, Newt Gingrich, rotulou os democratas de Clinton de "inimigos das pessoas normais". Os analistas e adversários políticos o atacaram em peso, o que ajudou a criar uma imagem de intolerância para os ascendentes republicanos no congresso. Mais de dez anos depois, a declaração de Gingrich ainda vem à toma, conforme aconteceu em um especial de Tom Brokaw para a NBC em novembro passado.

"Você se arrepende de ter dito que o governo Clinton era o inimigo das pessoas normais", perguntou Brokaw.

"Sim", respondeu Gingrich. "A verdade é que de vez em quando não somos muito espertos". Mulher do ex-presidente é imbatível entre democratas, diz senador Danilo Fonseca

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