A série "24 Horas" realiza a apologia da tortura?

Bill Keveney

No mundo pós-11 de setembro, a questão da tortura é captada pelo radar público, em reportagens sobre a prisão de Abu Ghraib, pelos congressistas que questionam os olíticos indicados ao gabinete e, cada vez mais, pelas táticas de interrogação destacadas na série de suspense da Fox "24 Horas" [exibida no Brasil pelo canal pago Fox às 21h das segundas].

Isabella Vosmikova/Fox via NYT

A tortura praticada pelo mocinho seria um sinal de que os fins justificariam quaisquer meios?
Enquanto políticos, especialistas e o público debatem os métodos radicais de interrogatório que ocorrem na vida real, "24 Horas" está cada vez mais movimentada, aproveitando um momento de aclamação por parte da crítica e um aumento de 32% em sua audiência nessa temporada da televisão americana.

Para desbaratar um complô terrorista, o herói Jack Bauer (Kiefer Sutherland) e sua Unidade Anti-Terrorista já atiraram num suspeito enquanto o interrogavam; submeteram o filho do secretário de defesa a um processo de desorientação sensorial bem high-tech; usaram uma pistola com choques de alta voltagem num colega suspeito, porém inocente; e usaram fios elétricos para extrair informações de um empresário.

Para os produtores de "24 Horas", em sua quarta temporada de aventuras em que o mundo deve ser salvo numa situação que tem um dia de duração, o uso da tortura tem a ver com o drama "em tempo real", e não com a política.

"O próprio conceito de '24 Horas' envolve uma demanda por informações, sendo que não temos dias para desenvolver um personagem, às vezes não temos nem horas", afirma o produtor-executivo Howard Gordon.

Os roteiristas de "24 Horas" não assumem posições políticas, mas sabem que o debate presente no mundo real, com todos os seus prós e contras, está vivo na consciência do público, diz Gordon. O motivo principal de um dos próximos episódios está em saber se o presidente do país permite ou não a tortura de um suspeito, diz o produtor-executivo da série.

Longe dos bastidores da produção, observadores já estabeleceram conexões entre o que se passa no mundo real e a ficção de "24 Horas". O Conselho de Relações Americano-Islâmicas já criticou a caracterização dos terroristas muçulmanos.

Uma coluna do jornal "The New York Times" comparou a ênfase que "24 Horas" dá às ameaças do terror no front doméstico com a ênfase do governo Bush em relação ao Iraque.

Karen Greenberg, co-editora do livro "The Torture Papers: The Road to Abu Ghraib" ("Documentos sobre a Tortura: A Estrada para Abu Ghraib") mencionou a série de televisão numa coluna do jornal "Baltimore Sun", sobre a política de torturas praticada pelo Estados Unidos.

Alistair Hodgett, da Anistia Internacional, atribui à "24 Horas" e à série "MI-5", exibida pela rede a cabo A&E, que acompanha as atividades do serviço de segurança britânico, narrativas que dão "uma idéia mais clara dos aspectos da tortura (...) As series fazem mais educar do que endurecer a sensibilidade".

Gordon diz que "24 Horas" tem a ver com o preenchimento da necessidade, baseada no medo, de o público ter protetores como Bauer, que fará tudo o que for necessário para salvar a sociedade da destruição. Mas o produtor acha que a série tem também o seu lado obscuro.

"Jack Bauer é um personagem trágico. Ele não sai das experiências todo limpinho. Jack tem sangue nas mãos", diz Gordon. "De algumas maneiras, ele é um mal necessário."

"24 Horas": O caos no avanço das horas

A vida, como costumam dizer, não vale muito. Mas em "24 Horas" isso é levado ao extremo. Quando o relógio começa a correr no dia vivido pelo agente do contraterrorismo Jack Bauer, os corpos voam, em partes estraçalhadas, e com amigos e inimigos chorando de tanto sofrimento físico.

Já são mais de três anos de situação caótica, de mutilações e torturas vividos pelos agentes da Unidade, com vários personagens e, claro, principalmente com Jack, um homem decidido a salvar o mundo, mesmo que para isso tenha que matar todo mundo que vive nele.

O USA Today recupera a cronometragem dos momentos mais memoráveis:

Temporada 1: Começa à meia-noite

  • 0h28: Logo no começo da série, Jack dá o tom do que virá --ele atira no chefe com um revólver tranqüilizador. Apenas um aquecimento para a temporada.

  • 1h27: Jack mata dois atiradores e extrai um dos dedos das vítimas para recolher as impressões digitais. (É a amputação número 1)

  • 8h09: Jack manda um carro parar e seqüestra o motorista. E dane-se o engarrafamento.

  • 23h20: Jack mata os bandidos que detinham a filha dele, Kim. Quando o líder dos facínoras se rende, Jack o explode. Em algum lugar, Charles Bronson deve estar sorrindo.

  • 23h53: Jack aponta o revolver para a cabeça da agente-que virou amante-que virou traíra Nina, que acabou de matar a mulher dele, Teri. "Atração Fatal" perde.

    Temporada 2: Começa às 8h

  • 8h49: Precisando de um presentinho para se infiltrar numa gang terrorista, Jack mata uma testemunha, cortando a cabeça. A versão de Jack para os direitos de Miranda: "Me vê uma serra para metal!" (Amputação número 2)

  • 11h08: Jack mata os terroristas que bombardearam a Unidade CTU.

  • 11h30: Jack mata um cão pit bull. Aviso aos cachorros: Cuidado com Jack.

  • 13h09: Você sempre fere quem você amava: Jack empurra Nina contra a parede, ameaçando matá-la.

  • 13h59: Jack mais uma vez neutraliza com drogas um colega agente da CTU, mostrando que de vez em quando pega mais leve com os companheiros.

  • 16h31: Jack atira num inimigo com um sinalizador, antes de pegar um rifle e voltar às suas raízes.

  • 19h45: Jack usa de tortura mental, fingindo a execução do filho de um suspeito para extrair uma confissão.

  • 20h46 e 21h19: Jack atira mais duas vezes. Será que é uma competição entre beberrões da faculdade?

  • 23h59: Quando o colega de CTU Tony aponta uma arma para ele, Jack o apaga. O agente deve ser o terror do setor previdenciário da CTU.

  • 1h45: O namorado de Kim perde a perna direita, depois que ele e a namorada começam a incendiar um carro de polícia.(Amputação número 3, à moda familiar)

  • 1h55: Jack fatia o cadáver de um cara, só para retirar um microchip.

  • 2h29: Jack é torturado. É uma oportunidade de aprender novas técnicas.

  • 3h25 e 3h55: Jack mata seu torturador, um cúmplice dele e também o sequestrador de Kate, irmã de um suspeito que o agente havia matado antes. No relatório para a CTU, ele diz: precisa de clips para papéis, mais post-its e também mais balas.

  • 5h46: Aprendendo com o mestre: Tony narcotiza o chefe da CTU, Chappelle.

  • 7h37: Jack mata um atirador, depois atira nuns caras maus que estavam no Coliseu de Los Angeles. Para um deles, oferece o toque pessoal, quebrando o pescoço da vítima.

    Temporada 3: Começa às 13h

  • 16h50: Jack derruba um novo colega, Chase, com uma "gravata". Pode-se considerar que isso é uma iniciação.

  • 16h56: Jack, tentando soltar da prisão um barão das drogas, derruba um guarda da prisão e começa uma rebelião.

  • 17h20: Mantido como refém pelos prisioneiros, Jack é obrigado a jogar roleta russa com um guarda. Adivinha quem perde? Depois Jack se cansa desse jogo e atira no chefe dos rebeldes da prisão.

  • 18h57: Amarrado pelo barão das drogas, Jack estrangula um guarda com suas pernas.

  • 18h55: Para não estragar seu disfarce diante dos traficantes, Jack dispara para atingir a cabeça de seu parceiro Chase, mas o tambor do revólver está vazio.

  • 22h42 até 23h07: Como é a transa de agents federais --quando Nina volta, seu ex-amante Jack a mantém sob a mira, beija a moça, bate na cabeça dela e depois ainda fere o pescoço dela com um pedaço de cadeira.

  • 1h56: Jack também é capaz de sequestrar, apontando o revólver para um piloto e ordenando que ele aterrisse em Los Angeles.

  • 2h57: Jack mata Nina. O fim de um relacionamento pode ser estranho.

  • 3h40: Dia de treinamento --Jack faz com que Chase corte a palma da mão de um suspeito em fatias.

  • 6h56: Seguindo as ordens de uma poderosa mente do crime, Jack aponta a arma para o próprio chefe, Chappelle, e o mata. O que será que o Recursos Humanos irá pensar disso?

  • 7h53 a 8h17: Para extrair informações do chefão do crime, Jack ameaça torturar a filha do criminoso, e depois faz dela uma refém. Mais tarde, Jack ameaça infectá-la com um vírus mortal.

  • 12h45: Já que o container do virus está amarrado a Chase, Jack precisa cortar o braço do parceiro com um machado para que a epidemia não se espalhe.(Amputação número 4) Aviso ao Chase: Corra enquanto ainda tem pernas.

    Temporada 4: Começa às 7h

  • 7h57: Jack atira na perna de um suspeito para obter informações.

  • 8h54: Atazanando no trabalho, à maneira de Bauer: Jack atinge seu novo parceiro, Ronnie. Ronnie devolve a agressão, e depois é morto por um suspeito de terrorismo.

  • 9h35: Jack dá um tempo em sua agenda tão apertada para heroicamente atirar em dois bandidos, que estavam a ponto de matar o amigo de um colega.

  • 9h58: Jack rouba uma loja de conveniência para abordar um suspeito; os comerciantes ficam atônitos.

  • 12h06: Jack e os Marines salvam o secretário de defesa e a filha dele, exterminando um depósito cheio de terroristas. Placar final: Jack, 12; marines, 7.

  • 12h41: Após saber que seu filho foi submetido a técnicas de privação dos sentidos e que mesmo assim nada revelou, o secretário de defesa escala Jack para novas missões.

  • 14h30: Um especialista em torturas da CTU usa uma pistola de choques diversas vezes sobre uma analista da Unidade que está sob suspeita. Quando escapa da suspeição, logo ela volta para sua mesa de trabalho.

  • 15h20: Após capturar a integrante de uma célula terrorista num quarto de hotel, agente da CTU faz pressão sobre um ferimento a bala no braço dela para fazer a moça falar.

  • 15h33: Após tanto vinagre, um pouco de mel: Jack faz a vítima do ferimento cooperar, oferecendo imunidade ao filho dela.

  • 17h: Um momento MacGyver: Jack ameaça com um fio elétrico o marido que é enganado pela própria namorada do agente, para conseguir algumas informações sobre os negócios do interrogado. Num momento em que os EUA são acusados de matar prisioneiros sub sua tutela no Iraque e no Afegasnistão, o seriado é acusado de glamourizar a prática, cometida por seu protagonista, Jack Bauer Marcelo Godoy
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