Meninos não tinham controle no rancho de Michael Jackson, afirma ex-empregada

Martin Kasindorf
Em Santa Maria, Califórnia

Uma ex-empregada de Michael Jackson descreveu nesta quinta-feira (17/03) o rancho dele na "Terra do Nunca" como "A Ilha dos Prazeres de Pinóquio", com crianças correndo desenfreadamente e às vezes parecendo embriagadas quando o cantor estava com elas.

Kiki Fournier, convocada como testemunha da acusação no julgamento de Michael Jackson por abuso sexual infantil, também contou ao júri sobre uma série de garotos que eram "amigos especiais" de Jackson, e que às vezes ficavam na "Terra do Nunca" sem a presença dos pais.

Muitas dessas crianças, segundo Kiki, tinham mais ou menos a mesma idade da suposta vítima nesse processo. A suposta vítima havia testemunhado anteriormente que tinha 13 anos quando Michael Jackson lhe deu bebida alcoólica e o molestou no rancho, em 2003.

Mas alguns trechos do testemunho de Kiki Fournier serviram de apoio à defesa de Michael. Ela disse que a suposta vítima e o irmão mais novo dele eram "rudes" e "destrutivos". Ela disse que o irmão mais novo, que na época tinha 12 anos, uma vez puxou uma faca contra ela na cozinha.

A ex-governanta disse que limpava quartos e servia refeições aos convidados na casa principal "durante certos períodos", entre 1991 a setembro de 2003.

O rancho de Michael Jackson, com 2.800 acres perto de Los Olivos, no Estado da Califórnia, foi concebido como uma terra da fantasia, onde as crianças são tratadas "como qualquer criança gostaria de ser tratada", segundo a ex-empregada.

A "Terra do Nunca" tem um zoológico, carrosséis especiais, pavilhão para vídeo games e um teatro onde há serviço non-stop de doces e pipocas, segundo Kiki.

Mas ninguém estabelecia limites na "Terra do Nunca", disse Fournier. "Com a ausência de uma figura de autoridade, essas crianças ficavam descontroladas. E sem o cuidado de seus pais, às vezes era meio como a Ilha dos Prazeres de Pinóquio".

Se você é uma criança na "Terra do Nunca", pode "ficar acordada até a hora que quiser", segundo Fournier. Ela disse que ficava preocupada que as crianças tão impulsivas pudessem se afogar no lago do rancho. "Era preciso que mais pessoas fiscalizassem as crianças ou os próprios pais delas".

Ela disse nunca ter visto Michael Jackson servir álcool às crianças. Mas disse também ter presenciado jantares, umas três ou quatro vezes, onde acreditava que as crianças estivessem intoxicadas.

Num dos pavilhões do rancho, num prédio mais antigo que fica a mais de um quilômetro da opulenta casa principal, Jackson uma vez "pode" ter se intoxicado na companhia de três crianças em estado alterado, segundo a ex-funcionária.

O comportamento dos meninos foi piorando após longas permanências no rancho, disse Kiki. "Parecia que quando mais liberdade e poder eles tinham...iam ficando muito, muito descontrolados, e alguns casos destrutivos".

Michael Jackson, 46 anos, manteve amizade íntima com cerca de 12 rapazes, incluindo Macaulay Culkin quando era ator mirim, ainda segundo a ex-empregada.

Um dos meninos começou a visitar o rancho quando tinha 8 anos, e os outros tinham de 10 a 14 anos, ela calculou. Quatro ou cinco meninos das redondezas "estavam todos na oitava ou nona série, talvez na sétima", disse Kiki Fournier.

As crianças às vezes ficavam na "Terra do Nunca" sem os pais, disse Fournier. Alguns dos ônibus fretados com crianças que vinham de Los Angeles, fazendo as viagens diárias ao rancho, eram "mais bem fiscalizados que os garotos que ficavam na "Terra do Nunca" sem os pais por perto", segundo a ex-empregada.

A suposta vítima nesse processo criminal e seu irmão se hospedavam num pavilhão de convidados, "mas muitas vezes ficavam com o próprio sr. Jackson", afirmou Kiki.

Ambos os rapazes testemunharam durante o julgamento que Michael molestou o rapaz mais velho no dormitório do astro, durante as últimas duas semanas da temporada deles na "Terra do Nunca", que terminou no dia 12 de março de 2003.

Fournier testemunhou que, durante essas duas semanas, ela por várias vezes encontrou o dormitório dos rapazes no chalé dos convidados como se tivesse sido varrido por "um tornado ou um redemoinho", com refrigerantes derramados e copos de vinho quebrados.

Essa descrição poderá ajudar os advogados de Michael a argumentar diante dos jurados que os rapazes mentiram quando disseram que na ocasião dormiam com Jackson. Mas o irmão mais novo testemunhou que, depois de ter visto Michael molestando seu irmão adormecido, ele decidiu voltar para o chalé de convidados.

Kiki Fournier disse que a suposta vítima lhe era "sempre obediente". Mas ela disse que empregados do rancho consideravam problemáticos o rapaz, seu irmão e a irmã mais velha deles.

O irmão mais novo, que gostava de cozinhar, uma vez puxou uma faca contra ela, quando Kiki lavava pratos, disse Fournier ao ser argüida pelo advogado de Michael, Tom Mesereau.

O co-promotor Gordon Auchincloss posteriormente perguntou se ela se sentia ameaçada. "Não me senti muito à vontade", respondeu. "Quero dizer, quem gostaria de ter uma faca colocada nas costas?"

Quando lhe perguntaram se o rapaz estava só de brincadeira, Kiki Fournier respondeu: "Acho que ele estava brincando e tentando impor alguma autoridade."

Anteriormente, Fritz Coleman, um apresentador de previsão do tempo da TV de Los Angeles que também é um comediante "stand-up" de cabarés, havia testemunhado que ficou amigo da suposta vítima numa "colônia de férias para comediantes" no verão de 1999, na chamada Laugh Factory ("Fábrica de Gargalhadas").

Depois que o menino foi diagnosticado com câncer em 2000, Coleman atuou num show beneficente para o garoto. Enquanto estava internado, o menino expressou sua vontade de conhecer Michael Jackson, que então o convidou para a "Terra do Nunca".

O júri teve a sexta-feira de folga, enquanto o tribunal considerava as petições. Para testemunha, o lugar era uma "Ilha dos Prazeres de Pinóquio" Marcelo Godoy

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