Mundo de George Lucas se completa com o ultimo filme da saga "Star Wars"

Scott Bowles
Em Las Vegas

George Lucas adora histórias sobre redenção pessoal.

No dia 19 de maio, ele terá a chance de viver sua própria redenção.

Quando "Star Wars, Episódio 3: A Vingança dos Sith" chegar aos cinemas, virá carregado de mais esperanças e expectativas do que a chegada de um caça X-wing na estação espacial Death Star.

Para muitos fãs, o capítulo culminante da opera especial de Lucas, com seis partes filmadas ao longo de 28 anos, é uma oportunidade de retomar parte do resplendor que, dizem, foi perdido nos dois episódios anteriores.

Para Hollywood, "Sith" chega com as melhores expectativas da indústria para uma recuperação de terreno, após dois anos de queda no comparecimento aos cinemas e de superproduções decepcionantes.

E para Lucas, o lançamento do filme é a chance de finalmente "aposentar" o lápis número 2 e o caderno de folhas soltas que ele pegou há 33 anos, quando decidiu começar a escrever uma fábula envolvendo pai e filho, ambientada numa galáxia muito, muito distante.

"Está quase no fim", disse Lucas ao USA Today na semana passada na ShoWest, a convenção anual dos donos de salas de cinema. "Por muito tempo isso dominou a minha vida. Houve muitos momentos lacrimejantes ao fazer esse episódio. É que eu me dava conta que, a cada vez que preparava alguma coisa, seria pela última vez. Já aconteceram muitas despedidas. Mas é hora de seguir adiante."

Na convenção foram exibidos trechos desse canto de cisne. As cenas exibidas --incluindo o momento em que Anakin salva a vida de Obi-Wan Kenobi durante um fogo cruzado e quando o robô R2-D2 enfrenta um perigoso andróide-- arrancaram muitos aplausos da multidão.

"Esse é o filme", disse John Bentley, proprietário do Metroplex Theatre em Delano, Califórnia. "Esse é o filme que vai trazer as filas para nossos cinemas."

O mundo cinematográfico está em alvoroço por conta dessa despedida. Os fãs já estão armando barracas e empacotando mantimentos, para acamparem durante semanas às portas dos cinemas. Os comerciantes já estão arranjando de tudo, de figurinhas com a ação de "Sith" a videogames e roupas especiais, com expectativa de vendas que poderão chegar a US$ 1,5 bilhão.

Os donos de cinemas estão decidindo quantas telas deverão reservar para esse episódio final.

"Várias", diz Robert Beall, proprietário do Weatherford Cinema 10, multiplex em Weatherford, no Texas. "O último ano e meio foi um período meio duro para nós. Os filmes que disseram que seriam sensacionais não foram tão bem assim. Esperamos que esse aqui detone bem o verão (americano)."

Há razões para a boa expectativa. Os trailers de "Sith", ao contrário do que aconteceu nos episódios anteriores, "Ameaça Fantasma" e "Ataque dos Clones", conquistaram quase que uma aclamação universal por parte dos fãs pela Internet.

O filme terá uma atmosfera "dark", sinistra, meio assim como "O Império Contra-Ataca", que geralmente é considerado o melhor dos filmes da saga. Lucas diz esperar que "Sith" pegue a cotação PG-13 (que aconselha restrições para crianças e pré-adolescentes), pela primeira vez.

"Esse episódio parece ter mais energia que os dois últimos, que pareceram muito voltados para as crianças", diz Robert Bucksbaum, proprietário do Majestic Crest Theater em Los Angeles. "Os garotos ainda irão ver esse novo, mas espera-se uma maior presença de adultos e antigos fãs."

E, o mais importante, "Sith" fecha o arco de toda a história, conectando a cultuada trilogia feita nos anos 70 e 80 com os novos filmes. O C-3PO está de volta, e Chewbacca também (dessa vez como um jovem wookiee). Veremos como os Cavaleiros Jedi tombam e como o Império chega ao poder.

E também temos Darth Vader. O tempo todo, diz Lucas, "Star Wars" foi a história dele, a fábula de um pai que quase foi destruído pelo mal, até o filho lhe mostrar a luz.

A volta dele veio em boa hora para os fãs. A falta da voz cavernosa de Vader (proporcionada por James Earl Jones), da respiração trabalhada e da mascara inspirada em guerreiros samurais foi amargamente sentida nos últimos dois filmes, diz Philip Wise, presidente do theforce.net, o maior site formado por fãs de "Star Wars".

"Quando Darth Vader apareceu nos trailers, foi quando as pessoas realmente se animaram com a volta de 'Star Wars'", diz Wise. "Ele é a razão pela qual esses são mais que filmes para as pessoas. Essa é uma história que acompanhou o crescimento das pessoas, um mundo onde elas viveram."

Lucas pode nem ter imaginado que estava prestes a deflagrar seu próprio universo em 1972. Foi quando o cineasta magrelo e meio sujinho pegou o lápis e o papel para escrever um roteiro que era parte um Western, parte parábola bíblica, parte Buck Rogers.

Poucos acreditaram que um roteiro que incluía alienígenas músicos de jazz ou um gorila com uma pistola a laser poderia dar lucros. A Universal Pictures não quis embarcar no projeto. A 20th Century Fox concordou em financiar apenas US$ 10 milhões, do total de US$ 12 milhões orçado para o primeiro filme.

Lucas desembolsou os US$ 2 milhões e tomou a perspicaz decisão de abrir mão de seu salário como diretor, em troca de uma porcentagem da bilheteria e de todos os direitos pelo merchandising. Desde então, os filmes dele --que passou a financiar pessoalmente-- faturaram US$ 1,6 bilhão nos Estados Unidos e US$ 3,4 bilhões no mundo inteiro.

Como a história começou

O primeiro "Star Wars" (lançado no Brasil como "Guerra nas Estrelas") estreou em 1977 sob rumores gerais de que seria uma bomba daquelas. Em vez disso, quebrou quase que todos os recordes de bilheteria, no final das contas faturando US$ 461 milhões nos Estados Unidos, incluindo seu relançamento em 1997. É o segundo filme de maior bilheteria de todos os tempos [só perde para "Titanic"].

Lucas de repente se tornou o governante de seu próprio império. Os produtos ligados a "Star Wars" já alcançaram US$ 9 bilhões até hoje, informa a divisão de licenciamento da Lucasfilm Ltd..

E Lucas construiu tudo isso com algumas idéias narrativas bem simples, onde o vilão se veste de negro e o herói é o salvador da pátria.

Pois esse estilo tão direto influenciou toda uma geração de cineastas. Ridley Scott, diretor de "Alien" e "Gladiador" (além de "Blade Runner"), lembra que estava em Los Angeles em 1977 quando um amigo sugeriu que fossem ver "Star Wars".

"Aquele foi um momento seminal", diz Scott. "Ali pude ver que tipo de universo poderia ser criado num filme. Foi minha inspiração para fazer "Alien", como uma espécie de pólo oposto ao incrível conto de fadas de George."

Os fãs de cinema encontraram um significado mais profundo nas histórias de Lucas, que aciona temas mitológicos que estão em evidência há no mínimo um milênio.

"Uma das razões para o sucesso sensacional da série "Star Wars" é a maneira como toca em algo de profundamente espiritual em todos nós", diz William Blizek, editor da "Revista de Religião & Filmes", da Universidade de Nebraska, em Omaha.

"A idéia da Força, por exemplo, nos mostra que há alguma coisa lá, maior que nós --talvez Deus", diz o editor. "Mas a ambigüidade da Força permite que cada um de nós a descreva do jeito próprio de cada um, até transcendendo qualquer tipo de religião em particular."

Nesse final da fábula de Lucas, Anakin está combatendo Obi-Wan Kenobi em Mustafar, fumegante planeta coberto de lava, depois de Anakin ter feito uma barganha faustiana para alcançar o poder.

"Ele fez um pacto com o diabo", diz Lucas. "Onde mais o filme poderia terminar, a não ser no inferno?"

Executivos dos estúdios e donos de cinemas estão prevendo um retorno celestial. Rudyard Coltman planeja abrir seu novo complexo de oito salas em Vancouver, no Estado de Washington, a tempo de pegar o fim de semana de lançamento de "Sith".

Com seus projetores digitais, som "surround" e poltronas dispostas como num estádio, o multiplex de Coltman "realmente foi construído para esse tipo de filme sensacional, o que eu acho que é o caminho para todos os filmes. Ele é o pioneiro, que mostra o que os outros filmes podem fazer."

"Sith" também poderá ser um prenúncio do que virá nas bilheterias do ano, diz Paul Dergarabedian da empresa Exhibitor Relations, que pesquisa as tendências do mercado.

Ele ressalta que o ano de maior faturamento na história de Hollywood, 2002, ganhou seu grande impulso quando "Star Wars, Episódio 2: O Ataque dos Clones" abriu (em seu primeiro final de semana) com US$ 80 milhões, e acabou arrecadando U$ 310,7 milhões apenas nos Estados Unidos.

"'Star Wars' poderá novamente ser o grande trampolim para o verão", diz Dergarabedian. "Se esse filme for bem, se as pessoas saírem de casa e tiverem uma boa experiência logo no começo da estação, provavelmente tenderão a voltar mais vezes aos cinemas."

Como a história termina

Armando Gomez, 19 anos, parece estar convencido. Ator que vive em Los Angeles, ele planeja acampar com vários amigos em frente ao Grauman's Chinese Theater a partir de 1º de maio.

"Os últimos dois não foram geniais, mas, pôxa, agora é o final da saga", diz Armando. "Como é que a gente não vai querer saber como termina essa história?"

Lucas parecia bem consciente desse legado quando filmava seu episódio final. "Sith" começa do mesmo jeito que "Star Wars": com uma sensacional perseguição especial. E termina como "Star Wars" começa: com Darth Vader a bordo da colossal estação espacial Estrela da Morte, a arma definitiva.

"Dava para ver nos olhos de George", diz Hayden Christensen, que interpreta Anakin Skywalker e veste a roupa negra de Vader no final do filme. "Dava para ver que toda uma retrospectiva passava pela mente dele, assegurando que a peça final se encaixava no lugar certo. Acho que ele não quer que isso seja visto como seis filmes diferentes, mas como uma história completa."

Uma história que, segundo Lucas, tem uma mensagem bem simples.

"Na verdade é sobre possessividade e ambição", diz Lucas. "Vader quer controlar o universo, controlar a vida. Mas não se pode fazer isso. É preciso aceitar a vida. É preciso aceitar que o sol irá se pôr. E que vai escurecer. E que tudo, no final das contas, deve terminar."

Até mesmo "Star Wars". Último episódio da cinessérie estréia em maio nos Estados Unidos Marcelo Godoy

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