Caso Terri Schiavo traz danos aos dois partidos

Chuck Raasch
Em Washington

Raramente vemos os dois partidos em Washington errarem tanto em uma questão quanto os republicanos e democratas parecem ter feito no caso de Terri Schiavo.

Enquanto a mulher da Flórida com danos cerebrais morria de fome e desidratação, alimentava-se um frenesi político e da mídia. No redemoinho, alguns acreditam que os republicanos exageraram na reação e os democratas não fizeram o suficiente. Schiavo morreu no início da quinta-feira (31/03), mas a controvérsia continua.

Será o caso Schiavo decisivo para os partidos? Ninguém sabe ao certo, mas há sinais de inquietação pública, e os líderes dos dois lados devem ficar atentos, ou poderão sofrer um prejuízo político de longo prazo.

Quando lançaram o Congresso no meio da briga da família Schiavo, os republicanos violaram todos os princípios que os levaram ao poder --de um governo limitado, dos malefícios de mandatos infundados, da santidade do casamento, dos direitos do indivíduo e da ameaça que são os juizes ativistas.

Acreditando que a vida de uma mulher estava em risco, o Congresso aprovou uma lei para abrir uma nova avenida de recurso jurídico federal para os pais de Terri, que queriam mantê-la ligada aos tubos de alimentação.

O presidente Bush, elogiando o Congresso por aprovar a medida e "dar aos pais de Schiavo outra oportunidade de salvar a vida de sua filha", correu de volta a Washington para sancionar a lei. Mas depois de uma batalha legal de sete anos, o marido de Terri, Michael, que argumentou que sua mulher não ia querer viver em um estado vegetativo, conseguiu manter a remoção dos tubos.

Quase três em cada quatro americanos disseram a uma pesquisa da ABC News-Wall Street Journal que o Congresso e Bush não deviam ter se envolvido.

No entanto, os democratas, que ainda parecem atônitos com as eleições de 2004, também não foram poupados das críticas. Eles não fizeram nada e apenas assistiram enquanto os republicanos jogaram o Congresso na mistura inflamável de ciência, religião, ética e o próprio significado da vida que compõe o caso Schiavo.

As forças conservadoras de direito à vida vêem o caso como uma grande batalha em uma longa guerra, que eles chamam de "a cultura da vida". O aborto, a pesquisa com células-tronco e outras questões --retomadas após avanços científicos-- são incluídas nesse grupo cultural.

A não ser que haja uma cisão pública, a influência dessas questões e dos conservadores religiosos que as promovem não diminuirão na política republicana. No entanto, dificilmente a causa da separação seria por diferenças irreconciliáveis, pois há muito que o Partido Republicano é definido pelo movimento do direito à vida e pelos defensores de cortes nos impostos, particularmente depois da queda do Muro de Berlim.

O respeitado republicano John Danforth --ex-senador do Estado de Missouri, embaixador na ONU e ministro episcopal-- advertiu que, para o público, a intervenção do Congresso no caso Schiavo e outras questões, como a oposição republicana à pesquisa de células-tronco, transformaram o Partido Republicano no "braço político dos cristãos conservadores".

Danforth concordou que os princípios religiosos por si só têm um papel tradicional e necessário na política americana. Mas em editorial no "New York Times", ele disse: "O problema não são as pessoas ou as igrejas politicamente ativas. É um partido que foi longe demais, adotando uma agenda sectária, que se tornou uma extensão política de um movimento religioso."

Apesar de ser indiscutível que os republicanos não poderiam ter vencido ou mantido o poder sem ter reanimado uma direita religiosa, alguns analistas dizem que o impacto de conservadores religiosos nas eleições de 2004 foi superestimado por democratas e republicanos.

"A opinião geral era que Bush vencera graças aos conservadores cristãos", disse Andrew Kohut, diretor do Centro de Pesquisa Pew. Mas, segundo ele, um fator maior foi a "percepção de uma capacidade de liderança em Bush e de fraqueza em Kerry, em uma época em que o público estava muito preocupado com a guerra ao terrorismo".

Os democratas, disse ele, "ainda dão crédito demais ao papel dos conservadores cristãos nas últimas eleições".

O problema dos democratas pode ser mais sério. Eles pareceram tímidos em uma questão que todos nós enfrentaremos --a morte. Sua timidez no caso Schiavo pode ajudar a explicar por que, na mais recente pesquisa de Kohut, os americanos disseram que ficaram chateados com Bush e com os republicanos em Congresso, e ainda mais com os democratas.

A pesquisa foi desenvolvida justo quando o caso estava chegando a um tom frenético nos noticiários. Apenas 45% dos entrevistados aprovaram o desempenho de Bush na presidência, 39% aprovaram os republicanos no Congresso e 37% aprovaram os democratas no Congresso.

"O público americano não está feliz com a liderança política da nação", disse o mais recente relatório do Kohut. O caso de Terri Schiavo pode apenas aumentar sua infelicidade. Republicanos exageraram na dose, e democratas perderam o rumo Deborah Weinberg

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