Bono recorda afeição do papa pelos pobres e por óculos escuros

Edna Gundersen

O cantor Bono, do U2, que se encontrou com o papa João Paulo 2º durante a campanha para o perdão da dívida externa africana, ocorrida no Jubileu Cristão de 2000, se lembra dele como "um guerreiro das ruas e um astuto mobilizador que lutava pelos pobres do mundo".

"Nós nunca teríamos obtido o cancelamento completo das dívidas de 23 países, se não fosse por ele", disse Bono em Los Angeles, onde o U2 está agora, cumprindo sua agenda de seis concertos pelo sul da Califórnia, essa semana.

No concerto de sábado (2/4) em Anaheim, Bono louvou as qualidades do pontífice como um grande showman. Explicando que durante os shows mantém no bolso as contas do rosário que o papa lhe presenteou, ele as balançou ao microfone enquanto cantava "Miracle Drug", e depois se ajoelhou e se benzeu.

Numa entrevista anterior, Bono havia descrito o papa como alguém "profundamente conservador."

"Na Irlanda, várias pessoas ficaram bem contrariadas por ele não ter adotado a idéia da contracepção como uma necessidade, não apenas para a vida moderna, mas também para a vida dos pobres na África e de outros lugares pelos quais ele tanto batalhou para ajudar", disse Bono. "Eu sabia que as convicções dele eram bem reais, e eu aprendi a respeitar posições conservadoras que eu mesmo não sustento."

Bono, e mais o roqueiro Bob Geldof, o produtor Quincy Jones e o professor de economia em Harvard Jeffrey Sachs, visitaram a residência de verão do papa em Castelgandolfo, na Itália, em setembro de 2000, todos buscando apoio para o alívio da dívida dos países pobres.

"Nós dávamos aquelas risadinhas nervosas, que nem garotos no fundo da turma", Bono recordou. "Geldof me beliscava, e Quincy ficava apontando para os mocassins do papa."

O clima mudou quando o papa, que já estava com a saúde frágil, começou a falar.

"Todos nós quase choramos, ao perceber o quanto ele queria estar ali, ao vê-lo na luta para ficar em pé", disse Bono. "Ele falou sobre as diferenças entre ricos e pobres, e como elas são a maior ameaça à humanidade. Ele se referiu às diferenças tanto no aspecto da segurança quanto no aspecto moral."

Bono também descobriu outra faceta.

"Ele tinha travessuras no olhar, assim como tinha divindade", segundo Bono. "Se a Igreja Católica é o glam rock (rock glamuroso) entre as religiões, esse cara era simplesmente o mais vivaz entre os artistas."

Enquanto estavam sentados na reunião, Bono percebeu que o papa o olhava atentamente. Preocupado se seus óculos de sol "borboleta" em cor azul escura estariam sendo considerados como um acessório ofensivo, Bono os retirou do rosto. Quando Bono se aproximou para receber o rosário de contas, o papa continuou olhando para seus óculos.

"Foi aí que eu perguntei se ele queria ficar com os óculos", disse Bono. "Ele não apenas disse sim com a cabeça, como colocou os óculos com o sorriso mais danadinho. Foi um grande momento, por várias razões. E uma delas foi, pensei, 'Estaremos na primeira página em todos os jornais.' Não pensei em mim, mas nas nossas questões. Eu sabia o quanto poderia render uma foto do papa com óculos de sol."

Muitas fotos foram tiradas naquele momento. Nenhuma foi divulgada.

"Os guardiões do Vaticano não tiveram o mesmo senso de humor que o papa", disse Bono. "Eles logo pensaram que aquilo renderia camisetas. Nunca veremos essas fotos." Líder do U2 narra um dos encontros que teve com João Paulo 2º Marcelo Godoy

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