Adolescentes dos EUA estão trabalhando menos

Barbara Hagenbaugh*

Muitos adolescentes atualmente estão trabalhando mais arduamente --mas não pelo contracheque.

Os adolescentes estão estudando mais, estão adotando cargas horárias de estudo mais pesadas e estão envolvidos em mais atividades extracurriculares do que nunca.

Mas o percentual de adolescentes trabalhando ou procurando por emprego tem caído constantemente nas últimas duas décadas, atingindo uma baixa recorde.

No último quarto de século, o percentual de adolescentes entre 16 e 19 anos na força de trabalho caiu 25%, para 44% em 2004, com base na média do índice mensal de participação.

Apesar do percentual ter sido um pouco mais alto durante o verão --54% dos adolescentes estavam na força de trabalho em julho-- o número de adolescentes trabalhando durante os meses de verão no ano passado ainda foi a mais baixo já registrado.

A pergunta é se os adolescentes estão perdendo importantes lições aprendidas com a experiência de trabalho.

Jeylan Mortimer, uma professora de sociologia e diretora do Centro para Curso de Vida na Universidade de Minnesota, disse que sua pesquisa, que envolveu o acompanhamento de ex-alunos do colégio Saint Paul por mais de uma década, revelou que um trabalho moderado durante o colégio foi benéfico não apenas enquanto os estudantes estavam no colégio, mas além.

Os adolescentes que trabalharam aprenderam pontos básicos, o que ela chama de "aprendizado genérico", como aparecer no horário e lidar com os supervisores. Eles também desenvolveram uma maior auto-estima e outras características que mantiveram após sua adolescência.

"Eles aprenderam lições importantes sobre como lidar com fatores estressantes no futuro", disse Mortimer, autora de "Working and Growing Up in America" (trabalhando e crescendo na América). "Eles aprenderam a como lidar com pessoas, eles desenvolveram habilidades interpessoais, eles aprenderam a como superar a timidez."

Mas apesar de alguns economistas, sociólogos e psicólogos terem dito que é importante aprender tais lições desde cedo, outros argumentam que o tipo de trabalho que os adolescentes geralmente fazem não é de ajuda mais adiante na vida, e trabalhar pode ser um fardo pesado demais enquanto estão na escola.

Se os estudantes estão concentrando sua atenção na escola e em outras atividades valiosas, sua falta de experiência de trabalho pode não ser tão prejudicial a longo prazo.

"Isto pode ser uma coisa boa", disse Erica Groshen, uma economista do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, de Nova York, que estuda questões de mercado de trabalho.

"Pode ser melhor para os empregadores e para a sociedade como um todo se isto significar que nossos trabalhadores estão obtendo mais e melhor educação."

Falta de tempo

Brian Cavanagh-Strong, 18 anos, de Ann Arbor, Michigan, trabalhou um total de três semanas em sua vida, mas ele não está sentado assistindo a reprises de "Friends".

O aluno do 3º ano do ensino médio tira "A" em todas as matérias e tem um carga horária pesada de cursos, incluindo jornalismo avançado, poesia latina avançada, cálculo avançado e redação.

Depois da escola, ele participa do teatro, atualmente ensaiando duas horas por dia para seu papel em "As Bruxas de Salém", pratica piano de jazz pelo menos 1 hora e meia por dia além de tocar em uma banda, e depois estuda algumas horas.

Todas estas atividades deixam pouco tempo sobrando para trabalho, disse ele.

"Eu estou fazendo todas estas coisas depois da escola todo dia até tarde", disse Brian. "Eu não acho que os empregadores ficariam satisfeitos com o tempo que poderia dedicar a eles."

Os pais de Brian lhe dão uma ajuda mensal para as despesas. Em troca, ele ajuda nas tarefas domésticas.

Para Barbara Tibbetts de Wilmington, Delaware, faz mais sentido para ela e seu marido ajudar o filho, Will, de 16 anos, com as despesas do que esperar que ele encontre um emprego. O aluno do 2º ano joga em várias equipes de esporte o ano todo e passa muito tempo prestando serviço voluntário.

"Nós decidimos que ele terá que dedicar seu tempo aos esportes e à escola", disse ela. "Há muito mais pressão agora sobre os adolescentes do que quando eu era adolescente."

O declínio dos adolescentes no mercado de trabalho não é resultado de crianças ricas sendo sustentadas pelo papai e pela mamãe.

Segundo uma análise do USA Today das pesquisas do Departamento de Educação sobre os alunos do 2º ano, o declínio dos adolescentes no mercado de trabalho entre 1990 e 2002 foi muito mais pronunciado entre adolescentes de famílias cuja renda fica na faixa 25% mais baixa do que na mais alta. Os adolescentes de classe média apresentam a maior probabilidade de trabalhar e estudar ao mesmo tempo.

A pressão para apresentar resultados --na escola, nos esportes e em outras atividades-- é uma das teorias principais para o motivo de menos adolescentes trabalharem:

  • Escola

    O percentual de adolescentes com idades entre 16 e 19 anos que estão matriculados na escola saltou mais de 10 pontos percentuais nas duas últimas décadas, para 81% em 2003, os dados mais recentes do Departamento do Trabalho.

    Os cursos de verão também estão se tornando cada vez mais populares. Mais de um terço dos adolescentes de 16 a 19 anos estavam freqüentando cursos em julho de 2004, quase o triplo do percentual em julho de 1989.

    Apesar de muitos estudantes estudarem e trabalharem ao mesmo tempo, os maiores declínios entre os adolescentes que trabalham está entre aqueles que estudam. Estudando os dados de um ano atrás, Groshen, do Fed de Nova York, encontrou que, apesar da participação de não-estudantes na força de trabalho ter caído 2,5% entre março de 2000 e março de 2003, entre os estudantes a queda foi de 4,6%.

    Há evidência de que os adolescentes estão se dedicando mais à escola. Em 2004, o número de estudantes colegiais que realizam testes para cursos que dão créditos para o ensino superior subiu 65% em comparação a cinco anos antes, informou o College Board.

    Segundo dados do Departamento de Educação sobre alunos do 2º colegial, 23% disseram que gastaram 10 horas ou mais em lição de casa por semana em 2002, em comparação a 14% em 1990.

    Quanto mais horas os estudantes dedicam à lição de casa, menor a probabilidade de terem um emprego, sugerindo que aqueles que não estão trabalhando estão usando o tempo extra para estudar, e não para se divertir.

    "Os estudantes de hoje levam seus estudos muito mais a sério do que gerações anteriores", disse Dean Strassburger, coordenador do colégio Lincoln Park em Chicago.

  • Pressão universitária

    Com mais adolescentes buscando o ensino superior --resultado de uma maior população adolescente e maior interesse pela formação superior-- a pressão para ingressar na faculdade se tornou ainda maior.

    O número de adolescentes com ensino médio completo cresceu nos últimos anos para números vistos pela última vez nos anos 70, mas o número de estudantes de matriculando na faculdade atingiu números recordes e devem crescer, segundo a Associação Nacional para Orientação de Admissão em Faculdade.

    Muitos estudantes acham que as faculdades consideram atividades extracurriculares, como língua espanhola e música, mais valiosos para o processo de seleção do que trabalhar seis horas por semana como balconista.

    Steven Goodman, um estrategista de Washington, D.C., para ingresso na faculdade e que ajuda estudantes colegiais a reforçarem seus requerimentos de matrícula, disse que, na concorrência acirrada para ingressar na faculdade, o trabalho não tem muito espaço na mente de pais e filhos.

    "Há garotos que acreditam corretamente que trabalhar no McDonald's não lhes levará a lugar nenhum", disse ele.

    Mas Andrew Flagel, diretor de admissão da Universidade George Mason, nos arredores de Washington, D.C., disse que trabalho pode ser um item importante nos requerimentos.

    "Trabalhar em um café-restaurante local pode não soar sexy o bastante para ninguém", disse ele. "Mas já li ensaios maravilhosos de estudantes que falam sobre a diferença que fizeram exercendo seu trabalho."

  • Faculdade é cara

    O custo anual de um ano em uma faculdade particular, incluindo matrícula, mensalidade, moradia e outras despesas era de US$ 26.854 no outono passado, um aumento de quase 6% em comparação ao ano anterior, segundo o College Board.

    O custo por ano em uma escola pública, por quatro anos, cresceu cerca de 10%, para uma média de US$ 10.636. Em 2003, o custo subiu 14% nas faculdades públicas e 6% nas faculdades particulares.

    Com o aumento dos custos, a expectativa de que os estudantes possam economizar para a faculdade trabalhando meio expediente enquanto estão no colégio e reduzir suas despesas caiu significativamente. Para alguns estudantes, faz mais sentido empregar o tempo estudando para os vestibulares do que trabalhar.

    Alguns adolescentes sentem que "a menos que você tenha que trabalhar, não vale a pena", disse Marta Tienda, uma professora de sociologia e questões públicas da Universidade de Princeton. "Às vezes, tem a ver com o dinheiro."

    Mais difícil encontrar trabalho

    Mas enquanto muitos adolescentes podem estar optando por não trabalhar, pode ser que outros estejam encontrando mais dificuldade para encontrar trabalho.

    O percentual de pessoas com 25 anos ou mais sem diploma do ensino médio que estão trabalhando ou procurando trabalho, um grupo freqüentemente em concorrência direta com os adolescentes por trabalhos menos qualificado, aumentou por cinco anos consecutivos até 2004. Tal aumento ocorreu apesar da perda de vagas de trabalho na economia durante alguns destes anos.

    O percentual de trabalhadores com 65 anos ou mais --muitos provavelmente buscando empregos de meio expediente, assim como os adolescentes-- foi de 14,4% em 2004, o mais alto em mais de 30 anos.

    Além disso, alguns economistas, incluindo os do Centro para Estudos do Mercado de Trabalho da Universidade do Nordeste, em Boston, argumentam que um aumento na imigração, particularmente de trabalhadores ilegais, dificultou ainda mais para os adolescentes encontrarem trabalho.

    Os adolescentes "não parecem concorrer bem com imigrantes ilegais, especialmente em trabalhos não registrados nos mercados informais", escreveram pesquisadores da Nordeste em um estudo em janeiro.

    Apesar de algumas pesquisas mostrarem que o trabalho durante a escola ajuda os estudantes a organizar melhor o seu tempo, levando-os a obter melhores notas e ganharem mais dinheiro após se formarem, outras mostraram que o trabalho adolescente não tem nenhum efeito e pode prejudicar os estudantes quando tentam estudar ao mesmo tempo.

    "Eu pessoalmente não acho que seja muito benéfico para eles (...) e provavelmente prejudica mais do que ajuda", disse Jeffrey Arnett, um professor de psicologia da Universidade de Maryland e autor de um livro de 2004, "Emerging Adulthood: The Winding Road From the Late Teens Through the Twenties" (o despontar da idade adulta: a estrada sinuosa do final da adolescência até a faixa dos 20 anos).

    "Eles não estão realmente se preparando para a vida adulta trabalhando durante o colégio", disse Arnett. "O conteúdo do trabalho é geralmente baixo e estúpido."

    Jerald Bachman, um professor da Universidade de Michigan que tem estudado jovens por três décadas como parte do programa "Monitorando o Futuro" da universidade, disse que o trabalho adolescente também pode criar "riqueza prematura", levando a hábitos caros, como a compra de roupas de grife e aparelhos eletrônicos caros em uma idade precoce.

    Sua pesquisa também mostrou ligações entre o trabalho adolescente e uso de fumo, drogas e álcool, apesar de não ter ficado claro se o trabalho é o culpado ou um sinal de que os adolescentes estão trabalhando para pagar por estes produtos.

    Mas Stephanie Binkow, 16 anos, uma estudante premiada de Atlanta, acha que seu trabalho aos sábados na Dolce, uma doceria, vale a pena. Não porque o dinheiro ajuda a pagar as idas ao café Starbucks com seus amigos, encher o tanque do carro ou economizar para a faculdade.

    "Eu preciso conhecer como a vida será quando eu tiver 25 ou 30", disse a aluna do 2º colegial.

    *Colaboraram MaryJo Sylwester e Greg Toppo. Teens evitam empregos devido a estudos e a atividade extraclasse

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