Futuro da Nasa está na Lua, em Marte

Dan Vergano

Criada durante a Guerra Fria para ajudar os Estados Unidos a derrotarem a União Soviética na corrida à Lua, a Nasa novamente encontra sua razão de existência ligada a um pouso lunar.

Mas o mundo está muito diferente daquele de 1958. Está muito diferente daquele de 1961, quando o presidente Kennedy desafiou o Congresso a enviar um homem à Lua.

O antigo adversário dos Estados Unidos está em pedaços. E o pedido do presidente Bush para um retorno à Lua não é grito de guerra de união desta vez.

Pelo contrário: a "Visão para a Exploração Espacial" do presidente divide profundamente políticos e cientistas, criando um abismo que estará à espera do homem escolhido por Bush para se tornar o próximo chefe da Nasa.

As audiências de confirmação terão início em 12 de abril para Michael Griffin, um engenheiro da Universidade Johns Hopkins, juntamente com o que deverá ser uma avaliação há muito adiada pelo Congresso sobre o futuro da agência espacial.

O presidente quer mudar o foco da Nasa para exploração e pouso de robôs e astronautas conquistadores em locais próximos no sistema solar. A abordagem muda o critério para as novas missões espaciais: em vez de basear uma missão em mérito puramente científico, ela será julgada em como contribuirá para as metas de exploração da Lua e em seguida de Marte.

"Eu acho que 2005 é o ano crucial em que o Congresso decidirá se a visão promovida pelo governo Bush, que exigirá escolhas difíceis sobre a futura direção do esforço espacial da Nasa, é a direção correta a seguir", disse o especialista em política espacial John Logsdon, da Universidade George Washington.

Sean O'Keefe, o ex-chefe da Nasa que iniciou seu novo trabalho como chanceler da Universidade Estadual da Louisiana em março, disse: "A natureza deste debate é única e mais definidora no sentido de que o presidente articulou claramente o que espera que a Nasa faça".

E aí está o atrito.

"Muitos astrônomos estão preocupados de que as futuras escolhas serão baseadas menos em critérios comprovados de oportunidade científica, prontidão técnica e credibilidade fiscal e mais na concordância com a interpretação estreita da visão do presidente", escreveu o físico Roger Blandford na "Physics Today".

O deputado Sherwood Boehlert, republicano de Nova York, disse em uma recente audiência no Comitê de Ciência da Câmara: "É fundamental que o Congresso realize um debate pleno e aberto sobre a 'Visão para a Exploração Espacial' do presidente e o futuro da Nasa antes que a Nasa dê início ao programa".

A visão do presidente

Em um discurso em janeiro de 2004 no quartel-general da Nasa, em Washington, D.C., o presidente anunciou planos para "explorar o espaço e ampliar a presença humana pelo nosso sistema solar" como "uma grande e unificadora missão para a Nasa".

O discurso foi a culminação dos planos altamente protegidos da Casa Branca, que começaram a tomar forma após a destruição do ônibus espacial Columbia em 2003, que matou sete astronautas. A Comissão de Investigação do Acidente da Columbia citou "a carência, ao longo das últimas três décadas, de um mandato nacional fornecendo à Nasa uma forte missão exigindo a presença humana no espaço".

Bush apresentou três metas:

- A conclusão da Estação Espacial Internacional e a aposentadoria da frota de ônibus espaciais até 2010. O trabalho na estação inclui a instalação de 22 painéis solares e sete áreas de habitação e trabalho para a equipe.

- Uma missão tripulada com o novo "Veículo Tripulado de Exploração" (CEV) até a estação espacial até mais tardar 2014. A Nasa vê o CEV como um sistema de foguete mais barato e fácil de atualizar do que o ônibus espacial, e que primeiro colocará os astronautas em órbita e posteriormente os levará para a Lua e Marte.

- Pousos tripulados na Lua até 2020. A última missão lunar foi em 1972, três anos após astronautas americanos terem sido os primeiros a pousarem lá. "Com a experiência e o conhecimento obtido na Lua, nós estaremos prontos para dar os próximos passos da exploração espacial: missões humanas para Marte e além", disse Bush.

Ele formou uma comissão para estudar a viabilidade de seu plano. Conhecida como Comissão Aldridge, ela apoiou solidamente Bush em junho e relatou: "Esta jornada de exploração sustentará objetivos nacionais vitais aqui na Terra".

Apesar dos problemas dos defensores da exploração espacial com alguns aspectos das metas, elas as elogiaram por arrancarem a Nasa da inércia de seus compromissos com a estação espacial e os ônibus espaciais.

A Nasa gasta cerca de US$ 6,7 bilhões por ano no ônibus espacial e na estação espacial. O restante de seu orçamento de US$ 16 bilhões é dedicado na maioria à ciência espacial, ciência da Terra, aeronáutica e, agora, desenvolvimento de tecnologias para cumprir as metas de Bush.

"Exploração feita de forma apropriada é uma forma de ciência", concluiu uma recente comissão da Academia Nacional de Ciências. Mas as realidades financeiras estão se tornando cada vez mais aparentes. Um relatório do Conselho Nacional de Pesquisa alertou no ano passado que os planos ameaçam o financiamento das sondas que visam revelar os mistérios das erupções solares, que colocam em risco satélites, linhas de transmissão de energia e astronautas.

Os cientistas reagiram com desalento quando a Nasa obteve no ano passado aprovação do Congresso para desviar orçamentos de ciência para pagar pela exploração, disse o físico Robert Park, da Sociedade Americana de Física. Eles temem que os característicos estouros de orçamento da Nasa provocarão mais cortes em gastos de missões científicas.

O cancelamento da missão Luas Geladas de Júpiter por ser considerada muito difícil, assim como as ameaças relatadas na revista "Nature" às sondas interestelares Voyager e outras missões de longo prazo, também geraram ansiedade.

Os cientistas têm motivos para ficarem nervosos. O Escritório de Orçamento do Congresso relatou no ano passado que os estouros projetados de orçamento ou empurrarão o pouso na Lua para 2027 ou forçarão um corte de gastos em ciência entre 24% e 46% para pagar pela reprise, em 2020, do "grande salto para a humanidade" do astronauta Neil Armstrong em 1969.

E os déficits orçamentários fecham ainda mais os bolsos do Congresso. "Eu não acho que a Nasa é nossa maior prioridade orçamentária", disse Boehlert, um defensor da meta do pouso lunar, em uma audiência para orçamento da Nasa em fevereiro. "Assim, algo tem que ceder."

Há muito na mesa

A Casa Branca vê as metas da Nasa como estabelecidas, disse Keith Cowing, co-autor de "Nova Lua Nascente: a Criação da Nova Visão de Espaço na América e a Reforma da Nasa". "Mas o Congresso vê isto apenas como o início da conversa."

A conversa, que ganhará nova força com as audiências de confirmação de Griffin, tem tópicos interessantes:

- O Telescópio Espacial Hubble, com 14 anos e que é popular junto aos observadores do espaço, deverá começar a apresentar falhas depois de 2007 se caros reparos não forem feitos. A Nasa anunciou em fevereiro que deseja recursos apenas para derrubar o Hubble em segurança no oceano. A senadora Barbara Mikulski, democrata de Maryland, disse que o fracasso da Nasa em gastar US$ 291 milhões alocados no ano passado para reparos do Hubble é uma "violação da lei".

- Os cortes propostos na pesquisa aeronáutica ameaçam milhões de empregos em centros de pesquisa em Ohio, Virgínia, Alabama e Califórnia, alarmando os legisladores destes Estados.

- O chefe de gabinete do Comitê de Ciência da Câmara, David Goldston, disse que a comissão espera ser informada neste mês sobre os planos da Nasa de aposentadoria dos ônibus espaciais. Perguntas chaves envolvem a agenda de pesquisa e o projeto final da estação espacial, assim como o número de vôos restantes dos ônibus espaciais, atualmente 28, necessários para conclusão da estação. Algumas propostas reduzem o número de vôos para 10 ou 15 para concluir a estação, disse Michael Kostelnik da Nasa, vice-diretor associado para Estação Espacial Internacional e Programas de Ônibus Espacial.

Griffin entra em cena

Nesta arena entre Griffin, 55 anos, chefe do departamento espacial do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins. Um veterano do setor espacial, sua escolha foi amplamente elogiada. "Sua personalidade e capacidade o tornam uma escolha brilhante", disse O'Keefe.

Griffin se recusou a comentar seus planos, prática padrão para indicados. Mas ele endossou as metas de exploração do governo em um depoimento anterior no Congresso, pedindo por pousos de astronautas na Lua, Marte e então asteróides. Mas ele também pediu pela aceleração das metas de exploração e criticou seu custo "um tanto alto".

Em um trabalho anterior na Nasa, há cerca de uma década, Griffin defendeu uma missão chamada "Primeiro Posto Avançado Lunar", que o Escritório de Orçamento do Congresso disse que atualmente custaria US$ 35 bilhões. A missão tripulada de 45 dias levaria um habitat de astronautas e um módulo de pouso para quatro pessoas até a Lua. Os astronautas testariam o solo lunar para descobrir se é capaz de gerar oxigênio para respiração e combustível de foguete.

"Nós estamos prestes a ter um novo líder e isto poderá mudar nossa direção", reconheceu Kostelnik.

"A pergunta não é mais se a Nasa está tentando colocar 10 quilos em uma sacola de 5 quilos", disse O'Keefe. "O debate será se temos a combinação certa de coisas para colocar na sacola. São estas as perguntas que serão respondidas." George El Khouri Andolfato

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