Confira os altos e baixos da boa temporada da TV norte-americana

Robert Bianco

É como diz o título dos últimos episódios da série "Dawson's Creek": "Todas as coisas boas precisam chegar ao fim".

A grande notícia é que a temporada de TV americana 2004-05, que logo chegará ao fim, realmente pode ser considerada boa, diferente da maioria de suas antecessoras.

Após anos dedicando toda sua energia criativa na cópia de seus próprios sucessos ou roubando o de outros, as redes finalmente apresentaram algumas poucas idéias novas e populares. "Desperate Housewives" sozinha poderia ser o suficiente para tornar a temporada um sucesso --e isto sem contar as igualmente admiráveis "Lost" e "House".

E as boas notícias não ficaram confinadas às séries novas. "Alias", "24 Horas" e "Gilmore Girls" se recuperaram de temporadas fracas para reclamarem seu lugar entre a elite da TV, enquanto "Nova York Contra o Crime" mostrou como um clássico pode partir com classe.

Obviamente, nenhuma temporada de TV é perfeita, e certamente não uma que exibiu abominações de TV realidade como "Who's Your Daddy" e "The Will". O melhor que podemos pedir é que o melhor supere o pior. E foi o que aconteceu nesta temporada.

Assim, com maio se aproximando, trazendo consigo o fim da temporada, nós fizemos uma pausa para olhar para o melhor e o pior que a TV ofereceu no ano --nossas escolhas dos cinco melhores e cinco piores de 2005.

Os melhores

5. A volta da ficção na TV

"Desperate Housewives" e "Lost" não apenas ressuscitaram as fortunas da ABC, elas também lembraram aos espectadores e redes os prazeres e lucros que podem ser encontrados na ficção.

Certamente, após anos em que parecia que as pessoas só queriam falar sobre quem estava beijando "Joe Millionaire" no mato ou bajulando Donald Trump na sala de reunião, foi um prazer ver a conversa se voltar para as momices sexuais em Wisteria Lane e para os segredos ocultos daquela ilha misteriosa.

Como uma maré em alta, o sucesso destas duas novas séries pareceu despertar o interesse por outros trabalhos de ficção. Certamente, não há surpresa mais feliz nesta temporada do que o sucesso de "House", um drama inteligente que muitas pessoas (bem, eu) temiam ser adulto demais para se enquadrar na programação infantil da Fox.

Para tais crianças, um grupo pequeno mas de bom gosto delas descobriu "Veronica Mars" na UPN --uma série cult no momento, mas uma série que algum dia poderá atrair um público bem maior.

E esta é apenas a ponta do iceberg em uma temporada que pode se gabar de séries de valor como "24 Horas", "Alias", "Gilmore Girls", "Without a Trace", "CSI", "CSI: Miami", "Grey's Anatomy", "Eyes" e "Jack & Bobby".

Cada uma destas oferece um bom motivo para deixar de lado a realidade e se aquecer no brilho ancestral de personagens bem desenvolvidos e histórias bem contadas.

4. Séries da TV a cabo básica

Em geral, se você está procurando por dramas originais, você ainda os procura nos canais abertos, na Showtime e na HBO. Mas nos últimos anos, alguns canais básicos do cabo formaram seu próprio nicho, produzindo séries que misturam a liberdade criativa sem restrição dos canais premium do cabo com o apelo popular dos sucessos dos canais abertos.

Os destaques desta temporada foram duas das melhores séries da TV, "Rescue Me" do FX e "Battlestar Galactica" do Sci Fi (TNT no Brasil), a melhor aventura espacial desde "Farscape" do próprio Sci Fi.

Sim, estas séries não representam muito em meio ao cenário do cabo, ainda dominado por luta livre e reprises. Ainda assim, qualquer empreendimento capaz de nos dar "Rescue Me", "Galactica" e "Nip/Tuck" da FX é um empreendimento que merece ser encorajado.

3. Temporadas sem interrupção

Como você estica 20 e poucos episódios ao longo de uma temporada de 36 semanas? Às vezes, você não estica. O padrão normal de exibição é estrear as séries em setembro e encerrá-las em maio, o que significa que as redes terão que reprisar episódios ou substituir a série. Mas de vez em quando elas nos oferecem uma terceira opção: uma temporada inteira, sem interrupção.

As maiores beneficiárias desta opção foram "Alias" da ABC e "24 Horas" da Fox. Extremamente interligadas e altamente complexas, estas séries apresentam histórias que são mais bem contadas sem interrupção. As interrupções fazem os telespectadores perderem o interesse ou a paciência e lhes dão tempo demais para meditarem sobre a lógica da trama.

As realidades econômicas fazem com que tal padrão seja sempre uma exceção, e não a regra. Mas para "Alias" e "24 Horas", tal exceção pagou dividendos criativos e de audiência --e este é um bom motivo para quebrar a regra.

2. Recuo da TV Realidade

O fracasso pode ter sido a melhor coisa que já aconteceu para TV estilo realidade.

No ano passado, afinal, parecia que todos nós seríamos afogados pela maré de realidade. Mas isto foi antes da série de fracassos desta temporada, um catálogo de fiascos que incluíram "The Benefactor", "Branson's Quest for the Best", "The Next Great Champ", "Wickedly Perfect" e "Who's Your Daddy" --uma das idéias mais abomináveis na curta e lamentável história do gênero.

Com alguma sorte, este expurgo ensinou as redes que a única forma de preservar o gênero a longo prazo é podar a curto prazo. Os melhores programas vão e devem sobreviver: a TV seria um local mais tedioso sem "American Idol", "Survivor", "The Amazing Race" e "America's Next Top Model".

Mas há um limite para quantas vezes é possível reciclar a mesma idéia exata, um limite ultrapassado por "The Starlet", "BMOC" e "The Road to Stardom with Missy Elliott".

As piores idéias de TV realidade não desapareceram, infelizmente. Elas simplesmente migraram para as regiões inferiores do cabo básico ocupadas pela A&E e E! Apesar de que pensando melhor, isto quase equivale a desaparecer.

1. Rostos renovados

Sim, a TV cria novos astros. Mas também pode dar nova vida a antigos astros, e isto pode ser um presente ainda maior.

O exemplo mais óbvio é "Desperate Housewives", que pegou quatro mulheres fabulosas --Teri Hatcher, Felicity Huffman, Marcia Cross e Eva Longoria-- e as transformou em garotas de capa.

Ou considere "Lost", que transformou o favorito das adolescentes Matthew Fox em um protagonista adulto; ou "Numb3rs", que deu a David Krumholtz seu primeiro papel atraente; ou "Eyes", que forneceu uma vitrine para o antes sub-apreciado Tim Daly.

Ainda assim, quando se trata de estrelato merecido, o prêmio da temporada vai para o brilhante astro de "House", Hugh Laurie. Mesmo aqueles de nós que já adoravam o trabalho de Laurie em comédias britânicas maravilhosas como "Jeeves and Wooster" e "Black Adder", não sabiam que ele tinha algo como "House" dentro dele. Felizmente os produtores sabiam.

O pior

5. A seca das sitcoms

Oh, "Joey" , o que você fez?

É claro que o piloto do subproduto de "Friends", "Joey" da NBC, não era extraordinário. Mas era engraçado, confiante e competente --algo que a série não repetiu desde então. E "Joey" serve como exemplo do gênero nesta temporada, tropeçando de um terror a outro.

Você sabe que o gênero está encrencado quando o melhor exemplo do formato, "Arrested Development" da Fox, tem melhor chance de ganhar um prêmio Emmy do que ser renovado.

Isto não significa que o sitcom está morto: não há motivo para achar que as milhões de pessoas de transformaram "Friends" no programa de maior audiência da TV há poucos anos repentinamente abandonaram o gênero em massa. Se elas não estão assistindo sitcoms, é porque poucas delas valem a pena assistir.

E como o formato pode ser consertado?

Para começar, as redes devem considerar o sucesso de "Desperate Housewives", uma comédia de uma hora construída em torno de mulheres.

Você se lembra de mulheres, não lembra? Elas são as pessoas que costumavam estrelar séries como "I Love Lucy", "Designing Women" e "Roseanne", antes de as redes decidirem escalá-las para interpretar esposas inteligentes, sérias com maridos estúpidos, pouco atraentes. Parece que as mulheres não acharam isso nada divertido.

Vá entender.

4. Séries que não acabam

Muitas séries atualmente estão esquecidas mas se recusam a desaparecer.

O problema é que as redes ficaram tão encantadas com sucessos de longa duração e com tanto medo do desenvolvimento de fracassos que querem espremer cada gota possível de cada sucesso na TV.

Certamente o medo é o único motivo para a NBC ter renovado "Will & Grace", já que nada nesta temporada pode levar alguém a acreditar que os roteiristas têm algo novo a dizer ou algum lugar para levar estes personagens.

A triste verdade é que a maioria das séries atualmente sobrevive além de seu auge --desperdiçando tempo, talento e dinheiro que seriam mais bem gastos em outro lugar.

A maioria das histórias não pode ser esticada por mais de uma década, e maioria das séries não consegue sobreviver a mudanças de elenco provocadas pelo tempo, um truque que funciona melhor em séries guiadas pela trama como "Lei & Ordem", do que uma série guiada pelos personagens como "West Wing".

É uma arte saber quando é o momento certo de deixar o palco. Infelizmente, esta é uma arte perdida atualmente na NBC.

3. Realidade para crianças

É preciso uma aldeia eletrônica para arrasar uma criança.

Antes satisfeita em simplesmente tornar crianças malcriadas em alvos secundários em programas como "The Osbournes", a TV agora as elevou ao estrelato --os piores exemplos sendo as questionáveis gêmeas "Supernanny" e "Nanny 911".

Esqueça a conversa boba sobre "consertar" estas famílias; estes programas existem para extrair entretenimento de crianças fora de controle. O que significa que os pais fracassaram em criar seus filhos adequadamente e agora fracassaram em proteger estas mesmas crianças do ridículo público. E todos nós participamos.

Apesar de me doer dizer isto, a mesma queixa vale para a viciante festa adolescente da MTV, "My Super Sweet 16", sobre crianças superprivilegiadas, sem educação, abusando de seus pais submissos ao darem festas de aniversário extremamente exageradas.

O programa fornece um argumento convincente contra riqueza herdada; mesmo assim, crianças ricas ainda são crianças. Eu não sei quando foi que nós adultos decidimos que zombar de crianças por diversão e lucro era um entretenimento adequado, mas é hora de pararmos com isto.

2. As franquias da TV

Em setembro, nós começamos a nos perguntar quantas séries "Lei & Ordem" e "CSI" já eram demais. Agora nós sabemos: para "Lei & Ordem", quatro; para "CSI", três.

Como se revelou, é necessário mais do que um nome para fazer uma série.

Você também precisa apresentar alguns personagens atraentes e alguma distinção viável que separe a cópia do original. "CSI: New York" fracassou na primeira tarefa; "Law & Order: Trial by Jury" na segunda.

E apesar de estarmos nos queixando sobre franquias, seria bom se a CBS parasse de tentar transformar "The Amazing Race" em "Survivor em trânsito".

Os truques sujos e manobras traiçoeiras que funcionam em "Survivor" devem permanecer em "Survivor" --e as pessoas que participam de "Survivor", ou qualquer outro programa de TV realidade, devem ficar fora da TV depois deles. As pessoas não são franquias. Que cumpram seu papel e depois saiam.

1. Jogos de tempo

Redes, repitam comigo: os programas começam e terminam no horário previsto. Isto significa, ABC, que "Desperate Housewives" deve terminar às 22h, e não às 22h02; e "Alias" deve começar às 21h, não às 21h01.

E quanto ao hábito desenvolvido há muito tempo pela NBC de começar "E." às 21h59 --pare.

Vocês redes ficam fazendo estas brincadeiras com os telespectadores, e alguém vai acabar se machucando. E acredite em mim, serão vocês. "Desperate Housewives" e "Lost" revitalizaram as séries dramáticas George El Khouri Andolfato

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