São raras as noivas que fogem do casamento, mas vontade não falta

Sharon Jayson

Os tremores antes do casamento são comuns. Pés frios são esperados. Mas até os especialistas ficam chocados quando uma noiva na vida real foge ou finge seu seqüestro em vez de aparecer no altar.

Até a semana passada, Jennifer Wilbanks era uma mulher de 32 anos da Geórgia, preparando-se para um casamento luxuoso no último sábado com John Mason. Entretanto, desapareceu subitamente, foi procurada pela polícia e acabou confessando que tinha forjado seu próprio seqüestro. A história causou grandes discussões entre especialistas em casamento --e lembranças de outras noivas que não chegaram à cerimônia.

"Fugir e desaparecer é raro. Quando uma pessoa faz algo assim tão drástico, em geral está se sentindo estressada e sob pressão de agradar. Ela fica tão preocupada em não magoar ninguém que não encontra outra forma de lidar com a questão", disse Les Parrott, co-diretor do Centro de Desenvolvimento de Relacionamentos da Universidade Seattle Pacific.

Parrott é psicólogo que conduz com sua mulher, terapeuta familiar, treinamentos pré-nupciais para ensinar os casais a se comunicarem melhor. Ele diz que a cultura popular romantiza as cerimônias e o casamento e não vê a realidade dos relacionamentos.

"Fomos envenenados pelos contos de fadas do casamento perfeito e da cerimônia perfeita", diz ele.

O filme de Julia Roberts "Noiva em Fuga", sobre uma mulher que deixou vários homens no altar, pareceu absurdo quando estreou, em 1999. Mas Trish Greif, 44, de Reno, por exemplo, cancelou seu casamento de 1984 sete semanas antes do Grande Dia, casou-se em 1988 e divorciou-se em 2000. Desde então, ficou noiva três vezes --e rompeu o relacionamento em todas.

Rachel Safier, de Washington D.C., também cancelou seu casamento de junho de 2001, duas semanas antes da cerimônia. A experiência levou-a a escrever "There Goes the Bride: Making Up Your Mind, Calling It Off & Moving On" (lá vai a noiva: tomando a decisão, cancelando e partindo para outra), um livro publicado em 2003 que conta sua história e também dá conselhos.

"É muito confuso para as pessoas, porque supostamente são as mulheres que querem corações e flores. O estereótipo é da mulher em pé no altar e o noivo que não aparece", diz ela. Mas os pesquisadores dizem que mais freqüentemente são as mulheres que questionam os relacionamentos.

William Doherty, professor de ciências sociais da família da Universidade de Minnesota, diz que a separação depois de enviados os convites dá a sensação de um fracasso público.

"É uma fonte de vergonha e mal estar", diz ele. "Um casamento é o maior evento público que as pessoas em geral organizam em suas vidas. Você tem todo tipo de comparações acontecendo, você se compara com os amigos que se casaram e foi tudo lindo e maravilhoso e vê o seu destruído."

Scott Stanley, co-diretor do Centro de Estudos Familiares e Maritais da Universidade de Denver, acredita que às vezes o que assusta é próprio evento --em vez das dúvidas que Wilbanks tinha sobre o casamento ou seu noivo.

"Uma pessoa pode estar pensando: 'Não estou pronta para me casar'. Outra pensa: 'Não estou pronta para me casar com você'. A terceira talvez diga: 'Estou apavorada com essa festa'", diz ele.

"É mais um medo de palco do que sobre a relação. Não é realmente uma questão de ansiedade, se estamos prontos ou não, mas de um assunto que assume um tamanho tão monstruoso."

O casamento de Wilbanks incluía um evento elaborado, com mais de 600 convidados, 14 damas de honra e 14 pajens. Ela e seu noivo, John Mason, vêm de famílias proeminentes.

Stanley diz que a pesquisa mostra também que os casais que já moram juntos, como Wilbanks e Mason, pensam menos no casamento; muitas vezes ele "simplesmente acontece".

"Casamentos realmente grandes o fazem confrontar o fato de que está fazendo uma escolha... Se você foi passando pelo processo despercebidamente, você vai se desesperar nesse ponto."

"Definitivamente me identifico com a situação. É uma sensação que dá, você sabe que não está certo", diz Angela Bucci, 26, de Kutztown, Pensilvânia, que cancelou seu casamento de 2001 seis meses antes e nunca se arrependeu.

David Olson, professor emérito de estudos da família da Universidade de Minnesota, diz que os três últimos meses antes do casamento freqüentemente são sobre o evento e não sobre o relacionamento. "A maior parte da energia do casal se concentra na festa, e os dois não estão realmente pensando sobre como será o casamento."

Greif não tem muita simpatia pelo plano de fuga de Wilbanks.

"Não sei o que ela estava pensando", diz ela. "Talvez subconscientemente achasse que, se não aparecesse, tudo seria suspenso. A vida seria congelada. Mas ela era a única que precisava de tempo." Cresce a pressão do evento sobre as mulheres, dizem especialistas Deborah Weinberg

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