Hillary Clinton reforça candidatura à presidência com discurso firme sobre a defesa

John Machacek
Gannett News Service
Em Washington

O seu marido manteve um relacionamento conturbado com as forças armadas ao longo do seu mandato presidencial. Mas, como membro calouro do Comitê das Forças Armadas do Senado, a senadora Hillary Rodham Clinton causou uma forte impressão junto aos seus colegas do Senado e do Pentágono, com as suas posições em favor da defesa nacional.

Robert Deutsch, USA Today

Senadora já teria apoio da esquerda e trabalha para conquistar a direita
Hillary conquistou, sozinha, um espaço importante como um dos membros mais ativos desta comissão, com as suas diversas propostas visando a aprimorar o sistema de saúde, os equipamentos e o soldo das tropas --sendo esta uma extensão das suas realizações na qualidade de primeira dama, quando ela trabalhou na resolução dos problemas de saúde dos quais sofreram (e vêm sofrendo até hoje) os veteranos da guerra do Golfo (1991).

Mas ela também utilizando esta comissão como um palanque para expor seus pontos de vista sobre a política externa e mostrar que uma democrata, e em particular uma mulher democrata, que já desponta como uma favorita antecipada para a candidatura presidencial pelo seu partido na eleição de 2008, pode também ser uma especialista no campo da defesa.

Enquanto os dirigentes das forças armadas e Bill Clinton entraram em conflito em diversas oportunidades, em torno de várias questões, e principalmente em relação à política favorável à admissão dos gays no exército imposta pelo presidente, o Pentágono parece estar agradavelmente surpreso com as concepções da senadora Clinton, comentam os especialistas em questões de defesa e os analistas políticos.

"Eu creio que isso se deva ao apoio que ela andou oferecendo aos militares; com toda certeza, eles serão bastante beneficiados caso ela venha a se tornar presidenta", avalia Frank Cevasco, um consultor para assuntos de defesa em Washington que foi um alto-funcionário do Pentágono na administração Reagan.

"Eles talvez não venham a se tornar os seus melhores cabos eleitorais, mas pelo menos eles não lhe criarão dificuldades".

A assiduidade de Hillary em se familiarizar com as necessidades das forças armadas e as perguntas pertinentes que ela tem feito durante as audições no Comitê do Senado não passaram despercebidas dos republicanos, e, em certos casos, surpreenderam até mesmo os funcionários da cúpula do Departamento de Defesa.

Durante uma recente audição sobre questões de inteligência no quadro da defesa nacional, a senadora democrata de Nova York lançou mão das suas técnicas de advogada para fazer com que o vice-almirante Lowell Jacoby, que dirige a Agência de Inteligência da Defesa, explicasse publicamente por que todos acreditam que somente agora a Coréia do Norte passou a possuir a tecnologia necessária para dotar seus mísseis balísticos de ogivas nucleares.

Quando os secretários do Exército, da Marinha (Navy) e da Aeronáutica deram depoimentos perante este comitê, no início de março, Hillary Clinton obrigou os três a prometerem que os soldados do corpo de guarda e os reservistas que tivessem sido feridos no Iraque e no Afeganistão não perderiam o soldo de combate enquanto fossem tratados nos hospitais militares.

Inicialmente, o secretário da Marinha, Gordon England, se mostrou hesitante, até que Hillary Clinton o incentivou: "A resposta certa é 'sim'".

Cargo especial

Integrado por 24 membros, o Comitê das Forças Armadas supervisiona as atividades do Departamento da Defesa e os programas nucleares relacionados à defesa desenvolvidos pelo Departamento da Energia. Um dos comitês os mais poderosos do Senado, ele galgou uma estatura ainda maior desde que os Estados Unidos começaram a combater o terrorismo e iniciaram a guerra no Iraque.

Hillary Clinton participa deste comitê já faz um pouco mais de dois anos. Mas os dirigentes do Pentágono ficaram tão impressionados diante dos seus conhecimentos das questões militares que o almirante Edward Giambastiani, que dirige o Comando das Forças Armadas reunidas, com sede em Norfolk, na Virgínia, a convidou para integrar um grupo de especialistas, os quais têm por missão aconselhar o Comando sobre as diferentes maneiras de fazer diferentes setores das forças armadas trabalharem melhor juntos.

"Este grupo como um todo foi convidado por causa dos conhecimentos, da experiência e da sua visão da situação, e dentro deste quadro, as suas intervenções representam uma parte essencial dessas contribuições para o comando", explicou o tenente-coronel Wayne Shanks, um diretor delegado para assuntos de imprensa do Comando das Forças Armadas reunidas.

"Ela está no processo de mudar a percepção que as pessoas têm dos Clinton", explica Lawrence Korb, um analista do Centro para o Progresso Americano, o centro de estudos e pesquisas políticas fundado por John Podesta, um aliado de Bill Clinton.

"Eles (os funcionários e oficiais das Forças Armadas) tinham uma visão estereotipada do casal Clinton e, teoricamente, ela parecia ser ainda mais liberal do que ele", precisa Korb, que se tornou conhecido quando foi secretário-assistente da defesa durante o governo Reagan.

"Durante as audições às quais eu assisti, ela fez algumas perguntas muito inteligentes e não foi para impressionar a platéia".

Votos pró-defesa

Apesar das suas fortes convicções liberais a respeito de muitas questões econômicas e sociais, Hillary Clinton votou a favor da administração Bush em torno de algumas questões relativas à defesa e à segurança.

Ela votou a favor da guerra no Iraque e apóia a posição da administração de não estabelecer um prazo preciso para a retirada das tropas americanas enquanto o Iraque permanecer numa situação de instabilidade.

No ano passado, ela se opôs a um emenda apresentada pelos senadores democratas que, segundo alertavam os especialistas em defesa, teria emperrado o sistema de defesa antimíssil que o presidente Bush estava implantando.

Com isso, ela se manteve coerente com os 2000 discursos de campanha que ela pronunciara, preconizando a implantação de um fundo de pesquisas para o desenvolvimento de um sistema de defesa antimísseis.

Contudo, assim como os seus outros colegas democratas, ela se manteve preocupada em relação à proliferação nuclear, e votou a favor da supressão do financiamento da fabricação de armas nucleares "destruidoras de fortalezas" e de pequenas bombas atômicas que poderiam ser utilizadas contra alvos mais modestos.

"Eu tento abordar as questões com bom senso", explicou Hillary Clinton numa entrevista. "Eu creio ter sido consistente nas minhas escolhas, e sempre procurei adotar uma abordagem coerente ao lidar com essas questões como um todo".

Hillary, que viajou para o Iraque e o Afeganistão, onde ela visitou as tropas e os líderes do governo, emitiu críticas em relação à maneira como Bush tem conduzido a guerra, mas não de uma forma que pudesse ofender os republicanos que integram o comitê.

"Certas coisas que alguns eleitos democratas afirmaram chegaram a pôr as nossas tropas numa situação de risco evidente (...) e também acho que alguns comentários que foram emitidos pelos representantes da esquerda dura a respeito do Comitê das Forças Armadas do Senado chegaram a ser danosos", afirmou o senador Jeff Sessions, republicano do Alabama, um dos membros mais conservadores da comissão. "E, na maioria das vezes, acho que Hillary Clinton não participou disso".

Dentro do seu próprio partido, Hillary Clinton não precisa "pagar um preço" por ter votado a favor da guerra no Iraque, avalia Larry Sabato, um analista político da universidade da Virgínia.

"Ela continua sendo a heroína da esquerda liberal e, portanto, ela tem a capacidade de fazer aquilo que a maioria dos liberais não faz --ou seja, adotar uma posição mais favorável sobre questões que dizem respeito à defesa e às forças armadas e seguir desta forma ser ter de ouvir protestos dos seus colegas da esquerda".

Palavras duras

Hillary Clinton garante que as suas posições em relação às Relações Exteriores e à Defesa não mudaram desde que ela fez campanha para se tornar senadora. Mas o seu tom mudou desde os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.

Nos discursos que ela pronunciou no próprio país e no exterior desde 11 de setembro, Hillary Clinton sempre defendeu a condução de uma política externa "firme, decidida e muscular", capaz de firmar fortes alianças e que possa ao mesmo tempo aumentar o apoio dos Estados Unidos à educação, à saúde , á proteção do meio-ambiente e aos direitos da mulher nos países subdesenvolvidos.

Ela quer que as Nações Unidas sejam mais fortes e que elas consigam concluir a sua reforma. Além disso, ela propõe utilizar a Otan para reforçar as missões de manutenção da paz da forças da ONU nas crises de países do Terceiro Mundo, tais como a do genocídio no Sudão.

"Eu segui certa evolução a partir da posição segundo a qual nós precisamos nos mostrar firmes, decididos e realistas", disse Hillary numa entrevista.

"Nós precisamos lutar com unhas e dentes em defesa dos nossos valores e dos nossos interesses, mas nós não deveríamos necessariamente nos indispor com certas pessoas, uma vez que nós precisamos delas com freqüência na busca desses valores e desses interesses".

Marshall Wittman, um analista do Conselho de Liderança Democrata, de tendência centrista, explica que Hillary Clinton entendeu que o Partido Democrata precisa imperativamente construir a imagem de um partido de linha dura no campo da segurança nacional.

"Em particular, ela percebeu que em tempo de guerra, somente os falcões beneficiarão da confiança do povo americano, e não as pombas", disse Wittman.

Se for mesmo se candidatar à Casa Branca, Hillary Clinton será obrigada a superar a percepção de que uma mulher poderia se mostrar fraca em matéria de defesa e que ela não seria uma boa comandante-chefa, explicam alguns especialistas em questões de defesa.

Frank Cevasco, o consultor para questões de defesa, recorda-se da "maldade que correu solta" quando Walter Mondale, o candidato democrata à presidência na eleição de 1984, escolheu a deputada republicana de Nova York, Geraldine Ferraro, como companheira de chapa.

Mas Hillary Clinton descartou a questão do sexo quando indagada se as mulheres precisavam trabalhar mais no sentido de conquistar credibilidade em torno de questões de política externa e de defesa.

"Eu acho que esta é uma questão absolutamente individual", respondeu. "Eu não creio que isso tenha qualquer coisa a ver com o sexo de uma pessoa, e sim com quem é esta pessoa". Trabalho da ex-primeira dama causa boa impressão em militares Jean-Yves de Neufville

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