Por que o Garganta Profunda é fundamental para a história dos EUA e do jornalismo

Chuck Raasch
Colunista político
Em Washington

Agora que o misterioso Garganta Profunda ganhou um rosto, somos lembrados que até os poderosos às vezes precisam de proteção contra a tirania do poder absoluto.

É importante que os americanos saibam que o codinome Garganta Profunda referia-se a um alto membro do FBI, W. Mark Felt. Suas motivações, temores e papel no escândalo do Watergate que derrubou Richard M. Nixon estão expostos para o debate de todos os cidadãos.

Alguns americanos querem que Felt seja preso. Outros querem construir estátuas em sua honra. Pat Buchanan e G. Gordon Liddy, ex-assessores de Nixon, disseram aos repórteres que acreditam que Felt essencialmente traiu sua obrigação como membro do FBI ao cooperar secretamente com o "Washington Post" no escândalo do Watergate.

Eles e outros, inclusive o secretário de defesa Donald Rumsfeld, argumentaram que como alta autoridade do FBI, Felt tinha obrigação de levar suas suspeitas a um júri federal e deixar o sistema judiciário resolvê-las.

Esse argumento não leva em conta a corrupção da Casa Branca de Nixon, exposta pelo Watergate. Nixon estava disposto a usar quase qualquer recurso do governo em seu poder para acobertar o que seus aliados chamaram de "arrombamento de terceira categoria".

Assim, fica cada vez mais claro por que Felt foi ao Post em vez de procurar a Justiça. Aparentemente, o segundo homem do FBI --funcionário dedicado ao escritório e sua missão-- não acreditava que o Departamento de Justiça de Nixon teria chegado à verdade.

Um jornal independente e disposto a arriscar sua reputação em busca da verdade tornou-se abrigo para as denúncias de Felt. Com a proximidade do dia 4 de julho, somos lembrados que o autor da Declaração de Independência, Thomas Jefferson, disse que os jornais são mais essenciais que o governo para a fiscalização deste.

O poder do povo não reside apenas nas câmaras do governo. E, com o 33º aniversário da invasão ilegal da sede do Comitê Nacional Democrata no dia 17 de junho, as lições de Watergate devem ensinar as novas gerações de americanos.

O Watergate não foi um arrombamento de terceira categoria. Se Nixon e seus principais assessores tivessem assumido a responsabilidade pelo crime em vez de tentar acobertá-lo, Watergate poderia ter sido considerado apenas um episódio de tola espionagem política.

Mas o acobertamento, envolvendo o uso de segurança nacional e do privilégio presidencial, revelou motivos e ações bem mais brutais do que muitos americanos acreditavam que seu presidente seria capaz.

O verdadeiro escândalo de anonimato do Watergate não foi o do Garganta Profunda, mas dos espiões de Nixon e o que --no escuro e com o poder da presidência por trás deles-- estavam dispostos a fazer contra seus inimigos políticos.

Se Nixon não tivesse renunciado em 1974 e tivesse terminado seus dois últimos anos de mandato, qual seria o tamanho final de sua infame lista de inimigos?

Se tivesse mais dois anos para pressionar o FBI, que tinha acabado de perder seu autocrático diretor, J. Edgar Hoover, haveria uma rede doméstica de espionagem, sob a paranóia que foi exposta nas gravações infames de Nixon?

Depois de Nixon vencer com folga o democrata George McGovern na disputa pela Casa Branca em 1972, menos de cinco meses depois do escândalo do "arrombamento de terceira categoria", será que Nixon não teria usado o mandato para reprimir as liberdades civis e dissensão política, dizendo que os fins justificam os meios?

Talvez as ameaças não estivessem tão claras para Felt, hoje frágil, com 91 anos, quando começou a falar com o repórter do "Post" Bob Woodward em estacionamentos escuros.

Talvez, como disseram seus críticos, ele se tornou o Garganta Profunda por pura questão de vingança política egoísta. Afinal, ele foi passado para trás na sucessão de Hoover.

Mas Woodward e seu parceiro de reportagem, Carl Bernstein, escreveram que Felt acreditava que suas vidas estavam correndo perigo por causa de sua cooperação secreta. Isso suscita um motivo muito mais sério do que ciúmes burocráticos.

Quaisquer que fossem os motivos de Felt, é importante os americanos saberem que a fonte anônima do "Post" era uma figura poderosa do governo, e não algum funcionário com credenciais dúbias e nenhum poder.

É igualmente importante entender que, quando esse funcionário não encontrou no governo o ambiente para resolver suas acusações, encontrou um lugar independente para expô-las.

Ultimamente, está na moda condenar o uso de fontes anônimas. Certamente, nós no jornalismo demos aos críticos suficiente munição com reportagens mal feitas ou fraudulentas.

Mas acabar com o uso de fontes anônimas, como propõem mesmo alguns jornalistas, nos deixaria sujeitos ao Discurso Oficial. Comparado com o anonimato do Garganta Profunda, é maior o perigo das meias verdades públicas dos poderosos --o que passamos a chamar de "viés" nesta cidade-- ou mentiras de nossos líderes. Nixon proclamou: "Não sou desonesto", quando suas próprias gravações mostravam coisa diferente.

A revelação do Garganta Profunda deve lembrar aos americanos que o anonimato pode ser um instrumento vital em um jornalismo que questiona o poder, que persegue incansavelmente os fatos e está disposto a fazer as perguntas que os poderosos que nunca perguntam a si mesmos.

Não vamos esquecer que Mark Felt não era a única fonte de Woodward e Bernstein. O Garganta Profunda corroborou o que já tinham descoberto; o informante levou-os à verificação independente da verdadeira história; ele assegurou ao "Post", um dos últimos grandes órgãos e jornalismo investigativo, que a verdade valia a pena, mesmo com a inevitável retaliação de Nixon e seu aliados poderosos.

Ironicamente, quase uma década depois do Watergate, Felt foi condenado e depois perdoado por autorizar a entrada ilegal no FBI de pessoas do grupo contra a guerra do Vietnã, Weather Underground.

Mas no que se refere ao Watergate, a história agradecerá Mark Felt por ter se exposto às trevas. Uso responsável de fonte anônima permite contestar discurso oficial Deborah Weinberg

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