"Batman Begins" traz o super-herói mais sombrio

Scott Bowles

Ele se veste de preto. Ele testemunhou o assassinato de seus pais. É tudo o que ele pode fazer para evitar de matar os criminosos com suas próprias mãos.

Então por que Batman se tornou tal criatura ridícula?

Do seriado de TV "camp" dos anos 60 até as duas últimas adaptações para a tela grande do final dos anos 90, o Cavaleiro das Trevas tem sido tudo menos sombrio. Ele foi ofuscado por seus inimigos, foi amenizado pelos chefões do estúdio e atormentado por uma postura suave demais, que o tornou mais parecido com um James Bond com cinto de utilidades.

Mas isto deverá mudar na próxima quarta-feira (15/06), quando "Batman Begins" estréia nos EUA. O filme buscará reviver uma das franquias de cinema baseadas em histórias em quadrinhos mais lucrativas da história, uma que já gerou mais de US$ 1,2 bilhão em venda mundial de ingressos.

O novo homem por trás da máscara é mais sombrio, atormentado, resoluto em busca de vingança. E os homens que criaram o novo "Batman" também são resolutos, determinados a afastar o estigma das adaptações anteriores que quase enterraram o Cruzado Encapuzado.

Não é apenas Gotham City que precisa ser salva. Para o estúdio Warner Bros. e sua subsidiária DC Comics, "Batman" é uma aposta de US$ 150 milhões para voltar ao páreo na corrida dos quadrinhos de Hollywood.

Para a indústria cinematográfica, o encarapuçado representa uma das melhores esperanças restantes de Hollywood de retomar o passo nas bilheterias neste verão, já que a venda de ingressos está US$ 240 milhões aquém em relação ao ano passado.

E para muitos fãs, "Batman" é a última oportunidade de Hollywood de devolver o brilho no cinema ao herói dos quadrinhos de 66 anos.

"Esta provavelmente é a última chance do Batman", disse Mirko Parlevliet, presidente dos sites de fãs ComingSoon.net e SuperheroHype.com. "Se o estúdio não fizer este certo, eu não acho que os fãs vão voltar para assistir outro filme."

Se o homem que interpreta o super-herói, Christian Bale, está preocupado com a ameaça, ele não demonstra em sua voz e rosto soturno. Ele e o restante do elenco estão adotando a postura incomum de não comentar o que este "Batman" é, mas sim o que não é.

"Se você odiou os dois últimos filmes do Batman", disse Bale, "então você precisa conferir este".

A abordagem camp falhou

Milhões de fãs devem e irão aos cinemas com as mesmas expectativas que afundaram a franquia em 1997, com o desastroso "Batman & Robin".

A franquia já estava confusa devido a "Batman Eternamente" de 1995. Apesar de o filme ter sido um sucesso comercial, tendo arrecadado US$ 184 milhões apenas no mercado americano, os fãs do personagem ficaram irritados pela forma como ele se afastou da versões sombrias de Tim Burton, bem-recebidas em 1989 e 1992.

Mas a Warner Bros. considerou a bilheteria de "Batman Eternamente" uma licença para mais camp. Para "Batman & Robin", o diretor Joel Schumacher colocou um novo rosto, George Clooney, na fantasia. Ele escalou como vilões Arnold Schwarzenegger como o Sr. Gelo e Uma Thurman como Hera Venenosa.

O espetáculo de US$ 110 milhões arrecadou US$ 107 milhões de bilheteria doméstica, críticas ferozes da imprensa especializada e uma ordem de restrição por parte dos fãs.

"Por algum motivo, eles decidiram partir para o ridículo como a série de TV costumava fazer", disse David Goyer, co-roteirista de "Batman Begins". "Aqui está um grande personagem, cheio de páthos e trevas. E eles o transformaram em um palhaço."

Goyer disse que não percebeu o tamanho do ressentimento que os dois últimos filmes geraram entre os fãs até ter participado da convenção de quadrinhos Comic-Con em San Diego, no ano passado, para promover "Batman Begins".

"A primeira pergunta que recebi foi de alguém que se levantou e disse: 'Como você pode garantir que este filme não será uma droga?'" disse Goyer. "E a platéia foi à loucura. Foi quando percebi a pressão que estava enfrentando."

Tal pressão foi tamanha que a Warner Bros. e a DC Comics permitiram que a franquia ficasse dormente por oito anos enquanto debatiam como reviver o morcego.

Enquanto isso, a Marvel Enterprises estava decolando. Personagens como "Blade", "Homem-Aranha" e "X-Men" estavam virando ouro nas bilheterias. A Warner Bros. desenvolveu roteiros para "Batman" baseados em tudo, desde a graphic novel sombria de Frank Miller, "Batman: Ano Um", até o desenho animado "Batman do Futuro". Nenhuma vingou.

Finalmente, o diretor Christopher Nolan apresentou ao estúdio um novo conceito: contar a história do motivo de Bruce Wayne ter se tornado o Cruzado Encapuzado, uma que ainda não tinha sido contada pelo cinema.

Para sua surpresa, o estúdio disse sim.

"Eu ainda não sei ao certo como aconteceu, porque é um filme de grande orçamento", disse Nolan, que ganhou fama com filmes sombrios, de baixo custo, como "Amnésia" e "Insônia". "Eles me deixaram fazer o filme que eu queria fazer."

Cenários reais, ação real

O filme lembra mais os grandes sucessos dos anos 70 e 80 do que os filmes baseados em quadrinhos de hoje. Pense no "Superman" de 1978, não no "Homem-Aranha" de 2002.

Nolan construiu grandes cenários em locais exóticos. Ele encontrou suas paisagens urbanas não em estúdios, mas em Londres, Nova York e Chicago. As primeiras cenas do treinamento de artes marciais de Bruce Wayne foram filmadas em aldeias remotas na Islândia.

Os efeitos são feitos principalmente com dublês, e não com técnicos de computador. Há uma cena-chave na qual Batman está no topo de um arranha-céu, olhando para baixo para Gotham City.

"Aquele era um dublê real lá em Chicago, não um efeito gerado por computador", disse Michael Caine, que interpreta o mordomo Alfred Pennyworth. "Quando eu soube disto foi que percebi que não seria um filme típico de quadrinhos."

E ele não exibe o elenco típico de quadrinhos. Como "Superman", que era estrelado por pesos-pesados como Marlon Brando, Gene Hackman e Ned Beatty em papéis coadjuvantes, "Batman" conta com sua própria lista de astros do primeiro escalão, incluindo três atores indicados para o Oscar (Liam Neeson, Ken Watanabe e Tom Wilkinson) e dois ganhadores do Oscar, Caine e Morgan Freeman.

Mas nenhuma escolha foi tão chave quanto Bale, que se tornou um favorito na Internet por papéis em "Psicopata Americano" e "O Operário", um papel para o qual ele perdeu mais de 27 quilos.

Um Bale magérrimo apareceu para o teste de "Batman" prometendo recuperar os 27 quilos, e mais alguma coisa, em um prazo de seis semanas. Ele o fez.

"Ele tem a intensidade que Batman tem que ter", disse Nolan. "Porque ele está basicamente interpretando três personagens: o Bruce Wayne playboy, o Bruce Wayne na vida privada e Batman."

Nolan também decidiu dar uma nova cara aos brinquedos do Cavaleiro das Trevas. De sua armadura e capa até o Batmóvel --um híbrido de Hummer e Lamborghini que custou US$ 1 milhão-- Nolan deu a tudo uma funcionalidade real.

"Eu queria dar motivos plausíveis para a fantasia, suas armas", disse Nolan. "Não é fácil explicar por que o sujeito se veste como morcego para combater o crime."

Não é apenas outro sujeito fantasiado

O fato do personagem criado por Bob Kane em 1939 sobreviver até hoje é uma história de super-herói por conta própria.

Rob Worley, presidente do Comics2Film.com, entende como o Cavaleiro das Trevas se viu satirizado no seriado kitsch de TV, que foi exibido originalmente de 1966 a 1968.

"Você tinha um sujeito vestindo capa, colante e orelhas pontudas, correndo por aí acompanhado de seu amiguinho enfrentando vilões", disse ele. "O mundo da TV da época provavelmente não dispunha da tecnologia para realizar o personagem dos quadrinhos e os efeitos, então ele optou por ser camp. E este é um tom que pegou."

Ainda assim, a personalidade de Batman manteve suas legiões de fãs. "Batman é um de nós", disse Freeman, que interpreta Lucius Fox, o cientista que ajuda Bruce Wayne a criar seu arsenal. "Nós todos temos nosso lado sombrio. Este é o motivo dele ainda repercutir em nós."

Mas será que ele ainda repercutirá com o público em geral? Alguns analistas se perguntam se a febre dos quadrinhos está passando.

"Nós precisamos ver se mais do que nerds de quadrinhos comparecerão", disse Brandon Gray, do Box Office Mojo. "Uma coisa é fazer um filme para os fãs. Outra é fazer um filme que todos os americanos queiram ver."

Goyer não está preocupado com o público em geral, mas sim em restaurar o legado de um herói caído.

"Eu sei que fizemos este filme da forma como devia ser feito", disse ele. "Isto já é uma vitória para nós."

E como saberemos se é uma vitória para os fãs? Goyer planeja comparecer na Comic-Con deste ano, em julho, para ver a reação dos fàs.

"Se eu chegar lá e o pessoal me cumprimentar", disse ele, "eu vou saber que fizemos o filme direito". Batman abandona seu lado "camp" no novo filme da cultuada série George El Khouri Andolfato

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