Fãs da F1 condenam fiasco do GP de Indianápolis

Steve Ballard
The Indianapolis Star

Os protagonistas da batalha de egos que acabou transformando o GP dos Estados Unidos de F-1, neste domingo (19/06) num completo desastre, já se dispersaram pelo mundo afora, mas eles dificilmente escaparam da controvérsia.

Reuters 
Participação de somente 6 carros frustra os americanos e compromete a F1 nos EUA
Nesta segunda-feira (20), todos os jornais americanos e internacionais que constituem os maiores alto-falantes da Fórmula-1, publicaram manchetes condenando duramente a retirada de 14 carros pouco antes do início da corrida e a competição entre seis carros que se seguiu, como sendo uma farsa que ameaça o futuro da F-1 não só circuito automobilístico de Indianápolis como em qualquer outro lugar nos Estados Unidos.

"Descanse em paz, Fórmula-1" e "Fórmula Zero" eram as fórmulas mais populares junto aos editores e articulistas do mundo inteiro, diante do episódio que resultou na retirada dos 14 carros promovida pela Michelin.

Este fabricante de pneus, baseado em Paris, anunciou que ele não poderia garantir a segurança dos pilotos por ter fabricado uma série de pneus que se revelaram defeituosos, e tampouco se mostrou capaz de convencer a Federação Internacional de Automobilismo (FIA, a entidade que dirige o esporte) a alterar suas regras ou a modificar o traçado do circuito.

O jornal francês "Le Figaro" previu que a companhia enfrentaria "sérias conseqüências" depois do ocorrido, em artigo intitulado "Michelin provoca um terremoto em Indianápolis".

Já, a revista semanal alemã "Der Spiegel" fez piadas sobre a comemoração, na calada da noite, em Tóquio, dos dirigentes da Bridgestone, que forneceu os pneus para os seis carros que acabaram competindo no domingo, inclusive para a Ferrari do vencedor, Michael Schumacher.

Richard Williams, um articulista da publicação britânica "The Guardian", distribuiu seus vitupérios entre a Michelin e os dois indivíduos os mais poderosos deste esporte, Bernie Ecclestone, o principal dirigente da F-1, e Max Mosley, o presidente da FIA.

"Um purista diria que os carros equipados com pneus Michelin deveriam ter participado da corrida numa velocidade segura e que não competia àquelas sete equipes tentar exercer uma chantagem sobre os organizadores para convencê-los a modificarem o traçado do circuito para compensar as deficiências técnicas [das equipes]", escreveu Williams.

Contudo, enquanto ficou claro que a companhia francesa estará amargando o custo deste desastre de relações públicas ao longo dos próximos anos, as origens do problema despontam como bem mais profundas.

"Juntos, Ecclestone e Mosley andaram promovendo um declínio vertiginoso da credibilidade da Fórmula 1, dentro e fora das pistas. (...) Se ainda existissem quaisquer dúvidas em relação ao fato de eles terem permanecido por mais tempo do que deviam no comando da Fórmula 1, estas foram dissipadas pela farsa deste domingo".

Por sua vez, o comentarista britânico Peter Windsor, que narrou a retransmissão da corrida para o canal Speed, disse no programa de debates desta rede, "Wind Tunnel" (Túnel de vento), na noite de domingo, que a Michelin havia se mostrado "ingênua" por ter achado que ela poderia forçar mudanças nas regras do esporte ao promover um braço-de-ferro na manhã da corrida. Ele também desancou a Michelin por esta companhia não assumir plenamente a responsabilidade pelo seu erro.

"Eles nada fizeram a não ser criticar os outros protagonistas do evento, mas eles nunca dirigiram essas críticas a eles mesmos", comentou Windsor.

Mas a principal questão que este episódio evidenciou, acrescentou o jornalista, é o declínio da influência de Bernie Ecclestone sobre as equipes. Durante o enfrentamento que precedeu a corrida, Ecclestone foi o primeiro a vacilar.

"A tentativa de impor a sua autoridade não funcionou para Bernie", disse Windsor. "Até onde eu consigo lembrar-me, é a primeira vez que tal coisa acontece com ele, e isso terá repercussões sérias".

Os jornais impressos na Inglaterra, o país e a base de Ecclestone, foram os mais contundentes nas suas críticas. Entre as suas manchetes, vale destacar as seguintes:

"Aquele foi o dia em que a corrida na América morreu" - "Daily Mirror"

"Fórmula 1 torna-se uma piada para o mundo inteiro" - "The Sun"

"Um dia de desonra para a Fórmula-1" - "Daily Telegraph"

"A Fórmula-1 implode" - "The Times"

"O dia mais sombrio desde a morte de Ayrton Senna" (num acidente em 1994). - "The Independent"

Na Espanha, o país de Fernando Alonso, o atual líder por pontos da competição, o jornal "El Pais" assimilou a corrida a "uma ópera divertida". Na Finlândia, país do principal rival de Alonso na competição, Kimi Raikkonen, o jornal "Italehti" publicou um editorial no qual é dito que "nenhuma quantia de dinheiro jamais será capaz de recuperar a imagem da Fórmula 1 nos Estados Unidos, que parece destruída para sempre".

E na Austrália, o jornal, "The Morning Herald" avisa que "o futuro da Fórmula-1 nos Estados Unidos está na corda bamba, depois daquilo que desponta como um dos piores desastres de relações públicas na história deste ou de qualquer outro esporte".

Nos últimos minutos que precederam a partida da corrida deste domingo, enquanto circulavam os rumores entre os meios de comunicação sobre aquilo que as equipes associadas à Michelin ameaçavam fazer, o conhecido jornalista britânico Nigel Roebuck lamentou "a estupidez" de tudo isso.

Roebuck, que vem escrevendo na revista "Autosport" desde 1977, previu de maneira bastante acurada que o público de fãs presentes em Indianápolis não acreditaria nem um pouco nas alegações de que a corrida precisava ser cancelada diante da possibilidade de ocorrerem problemas com os pneus numa curva de alta-velocidade.

"Muitas dessas mesmas pessoas estiveram aqui algumas semanas atrás (para as 500 milhas de Indianápolis) para ver carros supostamente menos sofisticados andar muito mais depressa por quatro curvas de alta-velocidade em cada volta sem que houvesse sequer um problema com pneus", comentou Roebuck antes da corrida. "Eles não vão gostar disso".

Alguns minutos mais tarde, esta previsão tornou-se mais do que clara, causando aquilo que até mesmo o site grandprix.com, afiliado da FIA chamou de "o nadir [oposto] da F-1 moderna".

"Michael Schumacher venceu a corrida", concluiu o relatório desta publicação online, "mas nem mesmo o Grand Canyon tem precipícios abissais o suficiente para descrever a queda que a credibilidade da F-1 sofreu neste domingo em Indianápolis". Dirigentes da FIA e fabricante de pneus Michelin são maiores alvos Jean-Yves de Neufville

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