Para onde foram todos os loucos por cinema?

Anthony Breznican e Gary Strauss

Este verão poderá ficar conhecido como aquele no qual os loucos por cinema rejeitaram as salas de projeção.

Embora ir ao cinema continue sendo uma diversão popular, as quedas
persistentes nas bilheterias neste ano indicam que um número cada vez maior de fãs prefere ver os filmes mais tarde em suas casas do que se juntas às massas nos multiplex.

Com os caros sucessos do cinema caindo rapidamente em termos de números de bilheteria, as vendas de ingressos, medidas continuamente por períodos de um ano, sofreram reduções por 17 semanas seguidas, na maior curva de queda desde 1985. As vendas iniciais de ingressos neste verão - tradicionalmente a maior temporada - diminuíram cerca de 8% desde 2004, segundo a empresa Nielsen EDI.

Muitos motivos para isso são citados. Filmes medíocres. Ingressos caros nas salas de exibição que são muito barulhentas e cobram um preço alto pelas guloseimas. Filmes que podem ser encontrados em DVD em um prazo de quatro meses, em uma tentativa por parte dos estúdios de compensar as perdas da pirataria de vídeo. Aumento das vendas de sistemas de entretenimento doméstico que têm a mesma qualidade das telas de cinema. Os jogos de computador. A Internet. O fato é o seguinte: 48% dos adultos dizem que estão indo aos cinemas com menos freqüência do que o faziam em 2000, segundo uma pesquisa USA TODAY/CNN/Gallup realizada com 1.006 indivíduos.

O anúncio feito na última terça-feira da fusão entre a AMC Entertainment e a Loews Cineplex - duas das maiores operadoras de cinema dos Estados Unidos - evidencia a tentativa do setor de aumentar os lucros em uma era de declínio de audiência e de concorrência de outras fontes de entretenimento. Na última quarta-feira, as ações da Movie Gallery, a segunda maior rede nacional de vídeo-locadoras, caíram 15% após a empresa ter afirmado que a série de filmes "inexpressivos" prejudicaria as futuras vendas.

Não está claro se a atual curva descendente é apenas o início de uma queda permanente da audiência nos cinemas. Alguns analistas do setor dizem que ainda não dá para dizer que as salas de projeção estão com os dias contados.

"É uma questão legítima, mas é cedo demais para se prever um cenário
apocalíptico", afirma Peter Bart, editor da revista da indústria de
entretenimento "Variety". "Certas conclusões apocalípticas são prematuras".

Dick Westerling, diretor de marketing da rede de cinemas Regal Entertainment Group, diz que os problemas enfrentados pela indústria são temporários.

"Os produtos e a audiência podem variar significativamente em qualquer
espaço de tempo", afirma. "Nós não antecipamos mudanças de longo termo na audiência às salas de exibição".

Alguns dizem que cinemas mais confortáveis e filmes de qualidade são
condições fundamentais para que as pessoas voltem a freqüentar os cinemas.

"É mais divertido assistir a um filme divertido em uma sala cheia de pessoas que dão gargalhadas do que vê-lo em casa. Se lhes for proporcionada a experiência física correta, as pessoas deixarão as suas casas e desfrutarão dos filmes nos cinemas", diz Art Levitt, diretor da empresa de vendas de ingressos online Fandango.com.

Mas com lançamentos de verão aclamados pela crítica como "Cinderella Man" e "Kingdon of Heaven" deixando de atrair a atenção do público, outros se perguntam se a experiência de ir ao cinema - especialmente com os DVDs sendo lançados poucos meses após a estréia nas telas - perdeu o seu encanto.

Os filmes estão perdendo as audiências mais rapidamente do que nunca. A
Nielsen EDI diz que a típica queda de bilheteria de segunda semana - que
indica se o filme está gerando bons comentários entre a população após a
semana de abertura - foi de 46% neste ano, contra 39% em 2000. "Mr. E Mrs. Smith", por exemplo, estreou muito bem, com vendas de ingressos no valor de US$ 50,3 milhões, caindo para US$ 26 milhões na segunda semana.

"Os cinemas (como entretenimento) perderam o seu caráter único", diz Peter Guber, diretor-executivo da Mandalay Pictures. "Além do mais, as pessoas que tem de 12 a 25 anos de idade, que são as que mais compram ingressos, parecem estar perdendo o interesse nos lançamentos, afirma. "Hollywood se focalizou nesse mercado porque ele é o mais quente. Mas os jovens de hoje praticam diversões múltiplas", afirma Guber.

Mas os loucos por cinema mais maduros também podem estar alterando os seus hábitos. Joyce Davis é um exemplo desse tipo de público. Em quase todos os finais de semana, desde 1981, Davis e o marido passam as noites de sexta-feira em uma sala multiplex. "Adoro ir ao cinema", afirma Davis, 53, uma assistente administrativa de Vancouver, no Estado de Washington. "Até mesmo quando o filme é ruim".

Davis se acostumou aos rituais incômodos: aguardar nas filas para a compra de ingressos, e assistir aos incontáveis comerciais e trailers que precedem a atração principal. E tentava ignorar os telefones celulares, pagers e assistentes pessoais digitais.

Mas foi um homem que se recusou a parar de falar que pôs um fim à tradição de um quarto de século dos Davis. "Ficamos furiosos. Pedimos para ele se calar, mas o homem se mostrou realmente hostil. Ele disse algo a respeito de sairmos para uma briga no estacionamento".

E eles saíram - não para um confronto, mas para pegar o carro e partir.
"Agora, simplesmente compramos DVDs", afirma.

E muitas outras pessoas fazem o mesmo. Os consumidores gastaram US$ 15,5
bilhões comprando DVDs no ano passado, um aumento de 33% com relação a 2003, diz o Grupo Digital de Entretenimento. E os filmes passaram a sair em DVD cerca de 135 dias após o lançamento nas salas de exibição, ou seja, uma semana antes da média para o lançamento de DVDs em 2004. Isso se deve em parte às tentativas dos estúdios de neutralizar as perdas potenciais resultantes da pirataria.

Mas alguns cinemas e estúdios estão tentando fazer com que os Davis e outros loucos por cinema retornem às salas de exibição. Os atrativos incluem amostras visuais de alta tecnologia em terceira dimensão, projeção digital e versões IMAX dos filmes.

Nos anos 50, quando a TV fez com que as vendas de ingressos de cinema
despencassem, os estúdios lançaram atrativos como os óculos 3-D ou filmes para telas "super-wide screen" (telas muito compridas), como "Ben-Hur", a fim de atrair as pessoas de volta para uma experiência visual que eles não eram capazes de obter em suas casas.

E os cinemas 3-D estão de volta. Robert Rodriguez, que lançou "The
Adventures of Sharkboy and Largirlin 3-D", diz que o diretor da Dimensions Films, Bob Weinsten, lhe pediu que fizesse um filme infantil que usasse os mesmos óculos azuis e vermelhos utilizados no seu sucesso de 2003, "Spy-Kids 3-D: Game Over", que gerou US$ 111 milhões. Mas nem mesmo a técnica 3-D foi suficiente para atrair multidões para "Sharkboy". O filme só gerou uma receita de US$ 24 milhões em duas semanas.

A projeção digital é uma outra tentativa de criar interesse pelos filmes. O diretor de "Titanic", James Cameron, e o criador de "Star Wars", George Lucas, se especializaram em tecnologia 3-D mais sofisticada, que utiliza lentes incolores polarizadas para filtrar as imagens, criando visuais de tirar o fôlego.

Mesmo assim, a projeção digital provavelmente demorará muitos anos para
estar disponível em rede nacional. Somente cerca de 100 das quase 37 mil
telas nos Estados Unidos contam com projetores digitais, e uma mudança geral de equipamentos é uma evolução bastante cara.

Projetar filmes em telas IMAX é uma outra forma de os estúdios tentarem
trazer o público para os cinemas. No Natal passado, a história da Warner
Brothers, "The Polar Express" ("O Expresso Polar"), gerou US$ 45 milhões em apenas 83 telas IMAX de oito andares, quase 25% da arrecadação doméstica da empresa, que é de US$ 163 milhões.

Existem cerca de 250 telas IMAX nos Estados Unidos. Há cerca de 50 mais
planejadas para o ano que vem. "Ao contrário da maior parte dos home-theaters, montar um IMAX custa um milhão e meio de dólares", explica Richard Gelfond, vice-presidente da IMAX Corporation. "A menos que o seu círculo social inclua Bill Gates, o IMAX dá ao público um bom motivo para sair de casa".

Fazem com que os filmes sejam mais atraentes é uma coisa. Tornar a
experiência de freqüentar o cinema mais agradável é algo mais complicado.

Os assentos arrumados em estrutura de estádio, que melhora a visão, está se tornando um padrão. Outros cinemas estão optando por ambientes que servem bebidas alcoólicas para freqüentadores com mais de 21 anos.

Mas quando se trata do comportamento incivilizado que os Davis presenciaram, o que pode ser feito?

A resposta pode ser encontrada em cinemas como o conjunto Multiplex de 15 salas Pacific Theatre, na Sunset Boulevard, em Los Angeles. Ele oferece assentos reservados, não há propagandas, e um funcionário apresenta ao vivo os filmes e manda os presentes desligarem os celulares.

Mas há um preço pelo cinema civilizado: os ingressos ns dias de semana
custam US$ 11 (US$ 14 nas sextas e sábados). O preço médio do ingresso para os cinemas comuns nos Estados Unidos é US$ 6,21, segundo a Associação Nacional de Proprietários de Cinemas. Mas os fregueses parecem dispostos a pagar o preço, diz o presidente da Pacific Theaters, Chris Foreman.

Foreman também atribuiu o comportamento civilizado da audiência à política de banimento das propagandas.

Outros cinemas também estão seguindo uma rota mais sofisticada. John
Fithian, presidente da Associação Nacional de Proprietários de Cinemas, diz que os fregueses terão que se acostumar a pagar por tais serviços. Por exemplo, a Muvico Theaters, na Flórida, em Maryland e no Tennessee, conta com restaurantes, serviços de babá e camarotes. Ingressos para serviços "de luxo" custam US$ 18, mas incluem pipoca, motorista para estacionar o carro e assentos reservados. Por US$ 8 dólares é possível deixar o filho em uma sala de diversões com babá.

"O serviço de babá é legal, mas tudo se baseia naquilo que as pessoas
desejam assistir", diz Levitt. "A pergunta é: elas vão sair de casa para ver o filme?".

A diretora de documentários Penelope Spheeris concorda: "Ao fim do dia, a questão diz respeito à qualidade dos filmes", diz Spheeris, que dirigiu o sucesso de bilheteria de 1992 "Wayne's World", mas que logo saiu do circuito de filmes convencionais. "Os efeitos especiais ocuparam o espaço da substância da história".

Guber diz que as pessoas não pararam de assistir aos filmes. "O que ocorre é que elas nem sempre os assistem nos cinemas. Mais gente está assistindo a mais filmes. Só que não se trata mais de um único mercado, mas de vários".

Duas pesquisas distintas revelaram que os cinemeiros estão insatisfeitos com a experiência de ir aos cinemas por uma série de motivos.

Uma pesquisa USA TODAY/CNN/Gallup feita com 1.006 adultos de 20 a 22 de maiorevelou que:

- 33% dos adultos dizem que o principal motivo para não irem aos
cinemas com mais freqüência é o fato de preferirem ver filmes em casa.

- 24% afirmam que ficou mais caro ir aos cinemas.

- 19% dizem que os filmes são de baixa qualidade.

E o que os faria voltar às salas de projeção?

- Ingressos mais baratos e concessões, para 71% dos entrevistados.

- Filmes melhores, para 70%.

- Melhor controle do comportamento da audiência, 48%.

- Uma pesquisa da Associated Press/America Online News com 1.000
adultos, realizada entre os dias 13 e 15 de junho apresentou resultados
similares:

- 73% preferem ver os cinemas em suas casas.

- 47% dizem que a qualidade dos filmes está em declínio.

- 25% não vão ao cinema há 12 meses. Danilo Fonseca

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