Transplante de sangue de cordão umbilical oferece esperança a crianças com doenças raras

Rita Rubin

Enquanto sua irmã recém-nascida passava por tratamento inovador para um distúrbio genético raro, que tinha destruído o cérebro do irmão, Katie Kristoff, de 5 anos, tinha uma pergunta para seus pais:

"Esse bebê vai sorrir?"

Pamela e Bill Kristoff tinham debatido muito antes de conceber um terceiro filho. Apesar de Katie ser saudável, seu irmão mais novo, Ryan, foi diagnosticado com a doença de Krabbe quando tinha 8 meses de idade. Os médicos disseram que não passaria dos 2 anos de idade.

Os pais de Ryan, devastados, procuraram informações sobre a doença na Internet. O casal, que mora em Colchester, Connecticut, descobriu a Fundação Esperança de Hunter, fundada em 1997 pelo famoso jogador de futebol americano Jim Kelly e sua esposa, Jill, depois que seu filho, Hunter, foi diagnosticado com a doença.

Por meio da fundação, os Kristoff descobriram que os médicos da Universidade de Duke tinham conseguido deter a progressão da doença com o transplante de sangue de cordão umbilical. Mas havia uma condição: quanto mais cedo era feito o transplante, maiores seriam as chances de as crianças terem uma vida normal.

O sangue de cordão refere-se ao sangue contido na placenta e na parte do cordão umbilical ainda ligada a ela após o parto. Em geral, os hospitais descartam esse tecido. No entanto, é uma fonte rica de células-tronco formadoras de sangue, similar às encontradas na medula óssea. Na doença de Krabbe, os pacientes não têm uma enzima crítica, sem a qual a comunicação entre o cérebro e o resto do sistema nervoso se interrompe. No entanto isso pode ser corrigido com a injeção de células-tronco saudáveis.

No mundo todo, foram feitos entre 5.000 a 6.000 transplantes de sangue de cordão desde 1988, diz Pablo Rubinstein, diretor do Programa Nacional de Sangue de Cordão do Centro de Sangue de Nova York, o mais antigo e maior banco de sangue de cordão do mundo.

Tais transplantes foram usados para tratar mais de 70 doenças, inclusive doenças do sistema imune e do sangue, assim como distúrbios metabólicos hereditários como o de Krabbe, de acordo com o programa de Rubinstein. A ampla maioria dos receptores tem leucemia.

Apesar de a doença de Krabbe afetar apenas 1 em cada 100.000 nascimentos, cerca de 1 em cada 5.000 bebês nascidos nos EUA tem algum tipo de distúrbio metabólico que poderia ser tratado com um transplante de sangue de cordão, diz Joanne Kurtzberg, diretora do Programa de Transplante Pediátrico de Medula e de Sangue de Duke. Outros incluem Tay-Sachs e adrenoleucodistrofia, condição que ficou famosa pelo filme de 1992 "Óleo de Lorenzo".

O sangue de cordão é mais fácil de coletar e armazenar do que a medula óssea e, no caso de incompatibilidade de tecido, é menos prejudicial. Menos de um terço dos candidatos a transplantes de células-tronco formadoras de sangue tem um irmão com as características genéticas que compõem um encaixe perfeito.

E milhares de americanos morrem todos os anos esperando por uma medula óssea de um doador não-aparentado, de acordo com um relatório de abril do Instituto de Medicina (IOM). O Congresso pediu ao instituto que estudasse as possibilidades de um sistema nacional de sangue de cordão.

No último ano, quase 2.000 transplantes de medula óssea e cerca de 500 transplantes de sangue de cordão ocorreram nos EUA, diz Rubinstein. Em maio, porém, a Câmara aprovou por grande maioria uma lei que doaria US$ 79 milhões (em torno de R$ 190 milhões) para reforçar o inventário de sangue de cordão para 150.000 unidades --suficiente para 90% dos americanos que precisam de transplantes. No final de junho, um conselho do Senado aprovou projeto de lei similar.

Custa caro guardar sangue de cordão. Cada unidade custa entre US$ 1.500 e US$ 2.000 (entre R$ 3.600 e R$ 4.800) para ser coletada, processada e armazenada, diz Rubinstein. O sangue deve ser testado para assegurar que não vem de uma criança com um vírus ou doença genética e deve ser congelado da forma apropriada, que não destrua as células-tronco.

É por isso que os bancos públicos coletam sangue de cordão em apenas certos hospitais. Por exemplo, o banco de Rubinstein, que coletou cerca de 29.000 unidades desde sua fundação, em 1992, acrescentará seu sexto hospital no mês que vem.

Apesar de aparentemente benigna, a doação de sangue de cordão levanta uma série de questões legais e éticas, de acordo com o relatório do IOM: "É crucial revelar vários tipos de informação ao doador potencial, inclusive quem tem acesso ao sangue de cordão depois de doado, onde é guardado, como é armazenado e como a privacidade do doador é protegida."

Ryan Kristoff parecia perfeitamente saudável depois de seu nascimento, em março de 2001. Aos quatro meses, porém, ele chorava o tempo todo. Não conseguia manter sua cabeça em pé.

Poucos meses depois, exames revelaram que ele tinha a doença de Krabbe, transmitida pelos dois pais. Os Kristoff não tinham razão para suspeitar de que estavam entre os 2 milhões de americanos que carregam a mutação genética causadora da doença.

Crianças com Krabbe não têm uma enzima necessária para a formação da mielina, a cobertura protetora dos nervos. Sem um transplante imediato de células-tronco que carreguem o gene codificando a enzima, os bebês com a doença rapidamente perdem suas habilidades motoras e mentais. O neurologista de Ryan disse aos seus pais para levá-lo para casa e dar-lhe conforto durante seus últimos meses de vida.

Pamela Kristoff, 33, ex-professora escolar, engasga-se ao lembrar. "Achei que ele era um pouco lento", lembra-se, "mas não achei que estava morrendo".

Os Kristoff decidiram lutar. A mãe de Ryan ligou para o programa de transplante da Duke. "Você tinha que estar aqui ontem", disseram. "Quando pode chegar?"

No que concerne o transplante de sangue de cordão em crianças com a doença de Krabbe, "poucas semanas podem fazer toda a diferença", diz Kurtzberg.

Em maio, ela foi co-autora de um artigo na revista "The New England Journal of Medicine", sobre transplantes de sangue de cordão em 25 bebês com a doença de Krabbe.

O estudo incluiu 11 recém-nascidos que, como tinham irmãos mais velhos com a doença, foram diagnosticados antes do aparecimento dos sintomas. Eles foram comparados com 14 bebês --em alguns casos, seus próprios irmãos-- que receberam transplantes depois da doença começar a atacar.

Primeiro, os bebês passam por nove dias de quimioterapia em alta dose, para aniquilar sua medula óssea impedir que seu sistema imunológico ataque as células-tronco do doador. No décimo dia, eles recebem as células por via intravenosa.

"É como plantar sementes em um jardim", diz Kurtzberg. As "sementes" brotam em um mês, mais ou menos. As contagens sangüíneas começam a subir, assim como os níveis da enzima desejada. No entanto, apesar de os transplantes terem dado "benefícios indiscutíveis" aos bebês, aqueles que sofreram o tratamento mais velhos continuavam severamente deficientes, disseram os pesquisadores. Somente o tempo dirá se o transplante em recém-nascidos de fato impedirá o declínio mental ou simplesmente o adiará, escrevem os autores.

Na Duke, os exames mostraram que Ryan "estava bem no limite" e que cabia aos pais decidirem se fariam o transplante, disse Kristoff. Ryan teve dano cerebral severo. Mas, segundo a mãe, Kurtzberg achou que o transplante poderia melhorar sua qualidade de vida. Os Kristoff decidiram tentar.

Eles terminaram passando dez meses em Duke. "Como o cérebro de Ryan estava comprometido, ele teve um caminho difícil", disse Kristoff. Ele perdeu a visão e apresentou água no cérebro e pneumonia. "Chegamos muito perto de desistir".

Todo dia, os pais de Ryan se perguntavam se tinham feito a coisa certa. Nos primeiros anos após o transplante, Ryan não parecia melhor, diz Kristoff. Hoje, ele ainda precisa de sonda alimentar e não se move, não vê, nem fala.

"Ele é severamente debilitado", diz Kristoff. "Requer muito cuidado". Mas ela diz que o transplante "lhe deu mais conforto. Ele adora que alguém o mova. Antes, nem conseguíamos segurá-lo." Melhor de tudo, diz ela, "há seis meses ele começou a sorrir novamente".

Apesar da batalha de Ryan, os Kristoff não abandonaram seu sonho de ter uma casa cheia de crianças. Kurtzberg lembrou-os que tinham 75% de chance de conceber um bebê saudável. E agora que eles sabem como identificar a doença, poderiam testar seu terceiro filho antes do nascimento e, se necessário, preparar um transplante de sangue de cordão para imediatamente após o parto.

"Prometo que seu filho vai passar pelo processo tranquilamente", teria dito Kurtzberg a Kristoff. "O caminho não vai ser tão duro quanto foi para Ryan."

Os Kristoff receberam a ligação em abril de 2004. A amniocentese revelara que seu terceiro filho, uma menina, tinha a doença de Krabbe. "Foi como se tivesse levado um soco no estômago", diz Kristoff.

A família chegou a Duke no dia 5 de julho, e Alyssa Ryan Kristoff nasceu duas semanas depois. Se não fosse por Ryan, Alyssa, que recebeu um transplante com 3 semanas de idade, não teria a menor chance, disse Kristoff.

Apesar de ser extremamente pequena para a idade e suas habilidades motoras estarem atrasadas, Alyssa superou em muito as conquistas de Ryan.

Ela ainda precisa de uma sonda alimentar e talvez nunca ande. Mas, diz sua mãe, ela consegue levantar a cabeça, segurar brinquedos e sorrir, sorrir, sorrir. "A primeira vez que ouvimos um de seus brinquedos tilintar, choramos", diz Kristoff. "Ela está rompendo barreiras que ele nunca conseguiu." Tratamento com células-tronco estabiliza o mal de Krabbe, que deteriora a capacidade mental e motora Deborah Weinberg

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