Fim de seguro contra terrorismo preocupa norte-americanos

Elliot Blair Smith

Uma rede de seguro de US$ 100 bilhões para compensar as perdas dos trabalhadores e das empresas norte-americanas causadas por um ataque terrorista deverá ser extinta ao final deste ano, em meio aos crescentes temores de que não haja nenhum projeto substitutivo à vista.

Os analistas do setor de seguros temem que um ataque aos EUA possa desorganizar terrivelmente a economia, fazer com que milhares de trabalhadores percam seus empregos e levar dezenas de seguradoras à falência, caso o Congresso não renove ou reforme o Terrorism Risk Insurance Act of 2002 (Lei de Seguro contra Risco de Terrorismo de 2002), que faz com que, temporariamente, o governo arque com os custos para a compensação das perdas causadas pelo terrorismo.

Mas o Departamento do Tesouro indicou recentemente que as seguradoras privadas e os mercados de capital deveriam agora entrar em cena para fornecer cobertura pelas perdas causadas pelo terrorismo. Os atentados a bomba em Londres na semana passada deram um caráter de urgência a esse debate. Vários governos europeus procuram determinar a forma de proteger suas economias daquilo que muitos acreditam ser um risco não-quantificável.

"Se o terrorismo é uma questão de segurança nacional, então planejar como se recuperar de um ataque terrorista também deveria ser uma questão da mesma natureza", afirma Erwann Michel-Kerjan, estudioso do terrorismo do Centro de Gerenciamento de Riscos e de Processos Decisórios da Escola Wharton, da Universidade da Pensilvânia.

Apenas dois dias antes dos atentados a bomba em Londres, a Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OECD na sigla em inglês), em Paris, publicou um relatório de 289 páginas que chamou atenção para a lacuna pendente de seguro contra terrorismo nos Estados Unidos e na Europa, além da falta de entusiasmo por parte de seguradoras e investidores por arriscar seu próprio capital.

Dois exemplos: O Aeroporto O'Hare, de Chicago, contava com um seguro contra terrorismo de US$ 750 milhões, pagando por ele US$ 125 mil anuais, antes dos ataques do 11 de setembro. Após os ataques, passou apagar US$ 6,9 milhões anuais por uma cobertura de US$ 150 milhões. E a o Golden Gate Park, de São Francisco, não conseguiu cobertura contra terrorismo após o 11 de setembro, e a sua cobertura contra prejuízos não-relacionados ao terrorismo sofreu uma redução de 80%, ficando em US$ 25 milhões, e o custo anual dobrou, para US$ 1,1 milhão.

O relatório da OECD informou: "Um ataque terrorista em grande escala poderia causar mais prejuízos hoje do que antes de 2001". Isso porque menos da metade de todas as companhias norte-americanas e somente 3% das companhias alemãs disporia de seguro contra atos terroristas.

Os pesquisadores da OECD também descobriram que embora os investidores tenham revelado certo apetite por aquilo que é conhecido como títulos-catástrofe --títulos de alto rendimento criados para proporcionar uma proteção financeira contra desastres naturais pelos títulos-terrorismo.

"A capacidade do mercado privado é inadequada", afirma Peter Ulrich, diretor da Risk Management Solutions, que elabora modelos de riscos catastróficos.

No outono passado, o ex-assessor econômico Glenn Hubbard, do governo Bush, divulgou sua própria análise, concluindo que os mercados privados não estão prontos para assumir o ônus do governo de fornecer seguro acessível contra o terrorismo. Hubbard previu que a economia e os empregos cresceriam mais vagarosamente e que os valores de propriedades poderiam sofrer redução na ausência de um seguro contra terrorismo acessível.

Tais preocupações contradizem um relatório do Tesouro divulgado em 30 de junho, que revelou que a indústria de seguros e de mercados de capital está "cada vez mais capaz de fornecer cobertura relacionada ao terrorismo. O relatório do Tesouro diz que a expiração da Lei de Seguro contra Risco de Terrorismo "deveria encorajar o desenvolvimento de um recado privado de resseguros e outros mecanismos de transferência de riscos".

Segundo o programa norte-americano de seguro contra terrorismo, o governo paga 90% das perdas do segurado, até um máximo total de US$ 100 bilhões por ano.

O Instituto de Informação sobre Seguros anunciou no ano passado que as perdas seguradas vinculadas aos ataques de 11 de setembro chegaram a quase US$ 32,4 bilhões. Isso custou à indústria de seguros 30 vezes mais do que qualquer ataque terrorista anterior e uma vez e meia mais do que os US$ 21 bilhões vinculados ao furacão Andrew, em 1992, o desastre natural que mais prejuízos causou nos EUA. As perdas da indústria de seguros com o 11 de setembro não param por aí. Pesquisadores da OECD descobriram que os pagamentos aos associados, combinados às quedas nas bolsas de valores, nas quais as seguradoras investiram pesadamente, lhes custaram cerca de US$ 200 bilhões em capital.

Pensando no futuro, a Copa do Mundo de futebol de 2006 na Alemanha serve como um modelo de como os mercados de capital poderiam acabar complementando as seguradoras privadas na cobertura dos riscos do terrorismo. Para proporcionar uma garantia financeira ao anfitrião da competição, o banco de investimento Credit Suisse First Boston vendeu US$ 260 milhões em títulos que fornecem uma compensação por um cancelamento do torneio.

Subscritos em 2003, os títulos da Copa do Mundo foram vistos como um progresso em se tratando de diluir o risco financeiro provocado pelo terrorismo. Os títulos do futebol pagam aos investidores um bom rendimento e os submetem ao riso de perderem até 75% do seu capital. Mas os mercados financeiros foram lentos para localizar o apetite dos investidores pelos títulos relacionados à ameaça terrorista em outras áreas.

Por ora, é provável que o Congresso procure determinar se as seguradoras deveriam receber incentivos fiscais e contábeis para se tornar mais ativas na área de seguro contra o terrorismo. Mas o Departamento de Contabilidade do governo diz que tais incentivos reduziriam a arrecadação fiscal e "poderiam não gerar um aumento significativo da capacidade da indústria de seguros de pagar as suas obrigações". Danilo Fonseca

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