Hillary Clinton ressurge como estrategista militar

Bill Nichols
Em Buffalo, Estado de Nova York

Bill Herberger, 80, ex-comandante da Legião Americana, não votou em Hillary Rodham Clinton quando ela ganhou uma cadeira no Senado em 2000. Mas quando Hillary terminou o seu discurso contra o fechamento da Estação da Reserva Aérea de Niagara Falls perante a comissão de fechamento de bases, no mês passado, este homem de Swormville, Nova York, e centenas de outros veteranos, reservistas e familiares de militares manifestaram a sua aprovação.

Carol T. Powers/The New York Times 
Pesquisa apontou que 53% dos americanos votariam na senadora para a presidência
"Vou te dizer que não a apoiava, porque não achava que ela fosse defender questões como essa", disse Herberger a respeito da ex-primeira-dama. "E te direi que votarei nela na próxima vez. Ela tem sido absolutamente maravilhosa".

Os Estados Unidos jamais tiveram uma mulher comandante-em-chefe. Mas embora Hillary negue sistematicamente qualquer especulação de que esteja de olho na Casa Branca em 2008, as idéias pró-militaristas e a fala dura a favor do setor de defesa que surpreenderam Herberger e outros podem ajudar a ex-primeira-dama a quebrar um dos mais duradouros tabus políticos dos Estados Unidos.

"Como é que uma mulher lida com questões desses tipos a não ser por meio das suas palavras?", diz Marie Wilson, presidente do Projeto Casa Branca, um grupo não partidário dedicado a promover mulheres candidatas de ambos os partidos.

"Não dá para desabotoar a camisa ou arregaçar as mangas... Esses são os tipos de trunfos que as mulheres possuem para contrabalançar a idéia de que elas não são suficientemente duras".

Em uma recente entrevista no Congresso, Hillary descreveu a sua abordagem da segurança nacional da seguinte forma: "É uma tentativa de olhar para todas essas questões sob a ótica daquilo que isso significa para a segurança de Nova York e dos Estados Unidos... Simplesmente tento fazer aquilo que acho que é o correto".

Os críticos dizem que o fato de Hillary acusar o governo Bush de não ser suficientemente duro quanto a questões que vão da guerra no Iraque à ameaça nuclear da Coréia do Norte cheira a uma jogada política no intuito de melhorar as credenciais da senadora no campo da segurança nacional para 2008.

Ao contrário de 21 dos seus colegas democratas à época, Hillary apoiou a guerra no Iraque e rejeitou os pedidos de um prazo para começar a trazer as tropas dos Estados Unidos de volta para casa. Ela apoiou a nomeação de Condoleezza Rice como secretária de Estado --12 democratas votaram contra-- e foi uma dos seis democratas a, no ano passado, se opor a uma medida no sentido de impedir a adoção de um sistema de defesa nacional de mísseis ainda não testado.

"Creio que essas são idéias totalmente recentes", critica William Black, diretor do comitê de ação política anti-Hillary Stop Her Now (Parem-na Agora). "Trata-se de uma pessoa que vem de um governo que desdenhava abertamente as forças armadas".

Hillary nega tais acusações. "Os ataques do 11 de setembro me deixaram grata por ter um lugar na mesa para expressar as minhas idéias sobre aquilo de que necessitamos para nos defender e derrotar os terroristas. Essa é realmente a minha grande preocupação... Precisamos ter uma vitória decisiva", afirma.

Histórico no Senado

Poucos senadores merecem a atenção que é dispensada à ex-primeira-dama. Mas Hillary foi colocada sob um microscópio ainda mais poderoso desde que o senador John Kerry, democrata por Massachusetts, foi derrotado pelo presidente Bush em novembro e as pesquisas começaram a revelá-la como sendo uma das favoritas para a disputa presidencial de 2008.

Uma pesquisa USA Today/CNN/Gallup, conduzida em maio, revelou pela primeira vez que uma maioria dos norte-americanos (53%) disse que provavelmente votará em Hillary se ela disputar a presidência em 2008.

Clinton se esquiva sistematicamente das perguntas sobre 2008 e diz que está se concentrando apenas na sua campanha pela reeleição ao Senado em 2006. "Ela ainda não sabe se concorrerá", disse o seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, no mês passado, no programa "Larry King Live" da CNN.

Existe pouca coisa nos oito anos da senadora como primeira-dama --ou no seu período anterior à Casa Branca, como advogada e ativista das questões da infância-- que permita que se chegue a conclusões a respeito das suas idéias a respeito da política externa ou das forças armadas.

As suas viagens ao exterior como primeira-dama foram em grande parte cerimoniais ou dedicadas a questões da infância e das mulheres. Ela também viajou milhares de quilômetros visitando instalações norte-americanas em todo o mundo.

O porta-voz de Hillary, Philippe Reines, diz que um assunto significativo com o qual ela se preocupa desde os seus dias de Casa Branca é a qualidade de vida das tropas dos Estados Unidos e suas famílias --plano se saúde, moradia e oportunidades educacionais.

No Senado, Hillary possui um histórico bastante consistente de apoio às forças armadas - freqüentemente em conjunto com alguns dos seus colegas do Partido Republicano - e de idéias moderadas quanto à política externa. Eis alguns exemplos:

  • Ela é a primeira representante do Senado por Nova York a se sentar na Comissão de Serviços Armados, em que se concentrou em melhorar o pagamento e os benefícios às tropas, tanto as da ativa quanto as da reserva. Nova York possui o quarto maior contingente de soldados de ambos os sexos estacionados no Iraque. Hillary visitou o Iraque em fevereiro, em uma viagem com o senador John McCain, republicano pelo Arizona, que foi alvo de bastante publicidade.

  • Na semana passada, ela apresentou um projeto de lei, em conjunto como os democratas Joe Lieberman, de Connecticut, e Jack Reed, de Rhode Island, para aumentar o contingente do exército em 80 mil soldados nos próximos quatro anos.

  • Ela foi co-autora de projetos de lei para melhorar os benefícios de saúde, juntamente como os senadores republicanos Lindsey Graham, da Carolina do Sul, e Jim Talent, de Missouri. "Creio que, de forma geral, o seu trabalho na comissão tem sido muito intenso", afirmou Talent.

  • Em uma audiência na Comissão dos Serviços Armados em abril, Hillary gerou manchetes na imprensa depois que o seu questionamento persistente do vice-almirante Lowell Jacoby, chefe da Agência de Inteligência de Defesa, o levou a admitir que a Coréia do Norte talvez já seja capaz de armar seus mísseis com ogivas nucleares.

    "Os norte-coreanos têm a capacidade de armar um míssil que pode atingir os Estados Unidos com um artefato nuclear", disse ela. "Resumindo, eles não eram capazes de fazer tal coisa quando George Bush se tornou presidente, e agora são".

  • Ela foi nomeada pelo Pentágono --um departamento com o qual o seu marido freqüentemente manteve relações contenciosas, especialmente no que diz respeito à presença de gays nas forças armadas-- para participar de um painel que estuda formas de estimular uma melhor cooperação entre os serviços militares.

    O almirante Edmund Giambastiani, comandante do Comando Militar Conjunto dos Estados Unidos, nomeou Hillary para o Grupo de Assessoramento de Transformação. Hillary retribuiu o favor no mês passado ao apresentá-lo em uma audiência na Comissão de Serviços Armados para ser o vice-diretor do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas.

  • Um estudo recente do "National Journal" revelou que o histórico de Hillary nas áreas de defesa, política externa e economia em 2004 fez dela o 34º membro mais liberal do Senado, um ano após ela ter ficado em nono lugar na pesquisa anual.

    Hillary disse que uma combinação de fatores a compeliu a fazer da segurança nacional um dos seus principais alvos no Senado: um antigo interesse pelas questões militares e de política externa, o fato de Nova York ter sido atacada no 11 de setembro, e "a nobre tradição de serviço militar de Nova York", além do fato de o Estado ser a sede de várias importantes empresas do setor de defesa.

    "Simplesmente faz sentido"

    "Por todos esses motivos, simplesmente faz sentido que essa seja uma área à qual eu deseje dedicar meu tempo", afirmou.

    Analistas de política externa dizem que a sua estratégia também contribui para um bom desempenho político. "Ela está mostrando a face nas questões de política externa, e essa é uma medida inteligente. Esse é o nível de liderança que para ela faz sentido", afirma David Leavy, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional durante o governo Clinton.

    Leavy diz que, se Hillary está pensando em disputar a presidência, ela precisa tentar se imunizar contra as críticas debilitantes que Kerry recebeu dos republicanos.

    "Isso é crítico", diz ele. "Os republicanos fizeram um ótimo trabalho no que diz respeito a pintar Kerry como sendo inaceitável e fraco. Não foi justo nem correto, mas eles realmente mutilaram a imagem do candidato democrata".

    Idéias recém-adotadas?

    Porém, alguns republicanos reclamam de que as idéias de Hillary sobre segurança nacional e política externa são politicamente montadas, devido à animosidade que os militares sempre tiveram pelo seu marido.

    "Toda a sua iniciativa para ingressar na Comissão de Serviços Armados foi uma manobra política calculada com a meta de melhorar as suas credenciais referentes à segurança nacional e à defesa", diz Black, um consultor de Virginia que lidera um grupo anti-Hillary. "Ela antes certamente não pareceu se importar nem um pouco com as forças armadas".

    A crítica da direita a Hillary se estende aos seus comentários mais moderados sobre as questões domésticas. Em discursos do início deste ano, ela disse que o aborto freqüentemente representa "uma escolha triste, e até trágica, para muitas mulheres", e a seguir elogiou a religião e a oração, dizendo que estes são componentes centrais da sua vida.

    Alguns analistas do Partido Republicano dizem que, se Hillary disputar a presidência, os eleitores poderão questionar a sua dureza, porque ela não se divorciou do marido depois que este admitiu ter tido um caso com a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky em 1998.

    "Ela ainda terá problemas em reconciliar a pena dos eleitores pelo que passou como primeira-dama com a sua apresentação como uma figura com talento para a política externa e as questões de defesa", afirma a analista republicana Kellyanne Conway. "Essa é a questão crucial sobre a qual ninguém quer falar, o gorila de 400 quilos que ela carrega nas costas".

    Comentários como o de Conway fazem com que as pessoas que estudam o papel da mulher na política questionem que credenciais em política externa e segurança os eleitores esperarão da primeira mulher candidata presidencial, seja ou não Hillary.

    A ex-congressista pelo Colorado, Patricia Schröder, que se engajou em uma pré-campanha presidencial pelo Partido Democrata em 1988, antes de decidir abandonar a disputa, diz que a experiência do país com duas mulheres no cargo de secretária de Estado ajudou. Mas frisa que ainda existe um tabu.

    "Nós modificamos a situação", diz ela, falando da imagem de mulheres como líderes em política externa após Madeleine Albright e agora Rice terem atuado como secretárias de Estado. "Mas ainda temos um caminho pela frente".

    Schröder, que atualmente dirige a Associação de Editores Norte-Americanos, diz que ainda se preocupa com o fato de as mulheres não serem vistas como iguais quando se trata da capacidade de dirigirem as forças armadas.

    Ela observa que embora Rice e Albright possam ter ajudado a melhorar a imagem das mulheres no campo da política externa, os telespectadores raramente vêem mulheres coronéis ou generais da reserva fazendo comentários na televisão.

    "Para mim sempre foi fascinante olhar para nossos presidentes", diz Schröder. "Alguns deles, como Eisenhower, Kennedy e o primeiro presidente Bush, tinham históricos militares, mas a maioria não. E ninguém nunca disse de fato uma só palavra a esse respeito. Mas quando se trata de mulheres muitos dizem que elas não servem para o serviço".

    "Os Estados Unidos fizeram um tremendo progresso para ir além dos estereótipos e das imagens ultrapassadas. Espero que estejamos a nos concentrar nos indivíduos, naquilo que eles têm para contribuir. Quanto a mim, tento fazer o meu trabalho da melhor forma possível. E é isso o que realmente sou... Outros podem julgar da forma que preferirem", disse Hillary Clinton. A atuação da senadora na área poderá catapultá-la à Casa Branca Danilo Fonseca
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