Quando Mickey Mouse encontra Mao Tsé-tung, Disney vê feng shui em vez de vermelho

Lark Borden

Será que a Bela Adormecida, Zangado e o Pateta podem prosperar na terra de Mao Tsé-tung e da Praça Tianenmen?

A Disney acha que pode, após ter aprendido algumas lições desde a controversa inauguração e primeiros anos da Euro Disney (atualmente Disneyland Paris) em 1992.

Mickey terá que fazer reverência à Ásia quando a Hong Kong Disneyland abrir em 12 de setembro. Jay Rasulo, o atual encarregado de todos os parques temáticos da Disney em todo o mundo, cuidou para que as culturas sejam respeitadas e homenageadas ao mesmo tempo em que apresenta sua marca de parque temático para os chineses e para o Sudeste Asiático.

Rasulo reverteu a fortuna do parque de Paris ao superar a percepção de arrogância por parte da empresa quando esta se recusou inicialmente a vender vinho, aplicou regras rígidas para maquiagem, pêlos faciais e trajes e cobrou ingressos a preços caros.

Ao mudar a postura e a estratégia, o parque se tornou um sucesso, levando à abertura de um segundo parque em 2002, o Disney Studios, onde quase todas as atrações prestam homenagem ao caso de amor europeu com o cinema.

Desta vez, disse Rasulo, a empresa fez uma ampla pesquisa para descobrir o que os chineses queriam e esperavam em um parque temático, e então deu início ao seu aquecimento.

Foi um prelúdio, ironicamente, que repete quase passo a passo a forma como Walt Disney desenvolveu o público para a Disneylândia original em Anaheim, Califórnia, 50 anos atrás neste verão: apresentando os personagens via TV, livros e filmes.

Curso básico em Mickey Mouse

Como os "Cinco Grandes" animais de troféu de safári na África, a Disney conta com seu quinteto principal de "astros animados" --Mickey, Minnie, Donald, Pateta e Pluto. Dificilmente há algum lugar no mundo que não reconheça pelo menos o camundongo principal, mesmo no Terceiro Mundo.

Mas quando a Disney planejava o parque, ela se viu em uma cultura familiarizada com as imagens do personagem, mas com pouco ou nenhum conhecimento de suas histórias e como eles se relacionavam uns com os outros e o básico sobre suas personalidades.

Com um mercado e uma mídia controlados pelo governo, a empresa teve que trabalhar junto à República Popular da China para obter acesso à televisão, publicações e distribuidores de produtos, em um esforço para educar aquele que será seu principal público --o sul da China e da Ásia-- em um universo da Disney que a maioria dos ocidentais já conhece desde os anos 30.

"Eles conhecem o ursinho Pooh, mas eles não sabem quem são os amigos de Pooh", disse Rasulo. "Eles não sabem onde eles vivem e como foram parar onde estão e fazendo o que fazem."

"Nós não medimos esforços para instruir tal mercado do sul da China sobre os conceitos básicos de tais personagens. Nossa singularidade depende altamente dos visitantes virem ao nosso parque com o conhecimento destas histórias de emoção humana, de força humana."

"Quando eles conhecem as histórias (...) eles vêm ao parque e experimentam as atrações em um nível diferente."

"Assim, ao longo do último ano e meio, nós temos educado o mercado. Nós fizemos isto introduzindo o 'Mundo Mágico da Hong Kong Disneyland', na televisão de Hong Kong e do sul da China, assim como Walt fez aqui com a 'Disneylândia' e 'O Mundo Maravilhoso da Disney', aqui nos anos 50."

E quem faz o papel de anfitrião que Walt Disney fazia naqueles programas? Em carisma e fama, ele é a contraparte chinesa de Oprah: Jackie Cheung.

Ele é uma astro chinês trilíngüe.

"Ele é um astro pop, um grande fã da Disney e um homem de família", disse Rasulo. (No programa de TV) nós apresentamos --por cerca dos sete a 12 primeiros minutos-- o que os visitantes poderão esperar quando visitarem o parque, e depois disto é exibido um filme de longa metragem ligado a uma das atrações do parque, de forma que os visitantes poderão fazer a ligação emocional.

"Nós também introduzimos nos 'palácios das crianças' chineses --centros recreativos dirigidos pelo governo chinês para onde as crianças vão depois da escola para atividades recreativas, esportivas e criativas-- todos os tipos de livros, vídeos e curiosidades Disney, para que as crianças em seu tempo livre possam conhecer mais sobre as histórias da Disney.

"Nós esperamos que assim que chegar 12 de setembro e daí em diante, nós teremos um público que, apesar de nunca ter, como os americanos, crescido com estas histórias, rapidamente recupere o tempo perdido."

Diferente do programa "Disneylândia" original, que contava histórias relacionadas a cada uma das quatro "terras" do parque (Adventureland, Frontierland, Fantasyland, Tomorrowland - Terra da Aventura, Terra da Fronteira, Terra da Fantasia, Terra do Amanhã), os programas de Hong Kong têm temas de romance e amizade, acomodando histórias como "A Bela e a Fera", "A Pequena Sereia" e outras com tons semelhantes.

Feng shui, mitologia e Indiana Jones

Em outra concessão, a Disney se curvou às datas chinesas para a abertura do parque.

"Nós olhamos para tal data (12 de setembro) ligada à arte predominante que eles chamam de feng shui, e o sistema feng shui permite certas datas auspiciosas para a inauguração de um parque. Então nós tratamos com grande seriedade o fato de que estaremos recebendo milhões e milhões de pessoas e, como o feng shui é muito importante para elas, isto realmente nos levou a respeitar isto."

Apesar da "planta" da Hong Kong Disneyland e de seu Castelo da Bela Adormecida, assim como os de qualquer parque temático da Disney, serem parecidos com o original de Anaheim, há claramente um sabor asiático em muitas das atrações --novas e velhas.

"Nós temos o Jungle Cruise (cruzeiro na selva), que faz muito sucesso em nossos parques, e temos o passeio Indiana Jones (da Disneylândia de Anaheim, Califórnia), mas quando fazemos o cruzeiro na selva em Hong Kong, muitas coisas diferentes começam a acontecer", disse Rasulo.

As duas atrações foram combinadas em uma.

"Será uma viagem de barco como aquelas que temos em nossos parques temáticos daqui, mas onde ele faz uma curva e você se vê repentinamente no meio de ruínas cambojanas (...) eu só posso descrever que você se sente como parte de algum tipo de aventura de Indiana Jones, se esquivando de algum perigo", disse Rasulo.

"Nós também sabemos que as pessoas no sul da China, como parte de sua recreação, apreciam caminhar por seus jardins tirando fotografias, então combinamos tal desejo com nossos próprios personagens, e criamos toda uma área chamada Fantasyland Gardens (Jardins da Terra da Fantasia), onde haverá cinco pavilhões, cada um dedicado a uma de nossas princesas de contos de fadas.

Haverá uma trilha que passará pelos jardins com muitas oportunidades para fotos, que terminará com um encontro com Mulan, Cinderela, a Bela Adormecida e as outras, assim como muitas oportunidades para fotos."

A abertura do parque, 50 anos depois da Disneylândia original, é um marco em meio século turbulento.

Hong Kong não é mais uma colônia, após a devolução do território à China. Em 1959, enquanto a Guerra Fria escalava para novas alturas, o líder soviético Nikita Kruschev, famosamente se zangou quando as autoridades policiais de Los Angeles lhe negaram a autorização para visitar a Disneylândia.

Hoje, os comunistas chineses, com a abertura de seu mercado para os interesses comerciais estrangeiros, já receberam o McDonald's e agora a Disney.

Mesmo com as concessões aos anfitriões, ela ainda é inegavelmente americana.

"Eu acho que um visitante familiarizado com um parque americano certamente saberá que está em um parque Disney", disse Rasulo. "Mas por outro lado, ele contém elementos asiáticos específicos." Filial da Disneylândia na China será inaugurada em 12 de setembro George El Khouri Andolfato

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