Desconfiança complica comércio de EUA e China

David J. Lynch
Em Washington

Aquilo que teve início como uma piada fraca se tornou uma das questões mais conseqüentes com as quais se depara os Estados Unidos: "Quem é Hu?" [Who's Hu, no inglês].

Será que o presidente chinês Hu Jintao é aquele cobiçado cliente imaginado pelo empresariado norte-americano, ou, conforme teme um número cada vez maior de autoridades de Washington, ele seria o mais perigoso inimigo de longo prazo dos Estados Unidos?

Os laços financeiros entre os Estados Unidos --o país mais poderoso do mundo-- e a China --o mais populoso-- nunca foram tão cruciais. O comércio bilateral atingiu um patamar anual de mais de US$ 250 bilhões. E a compra de títulos do Tesouro norte-americano por parte de Pequim é essencial para manter as taxas de juros reduzidas, o que se constitui em boas novas para qualquer um que tenha feito recentemente um financiamento para compra de casa própria.

Mas, quando os presidentes chinês e norte-americano se preparam para um encontro no contexto de uma sessão da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, antigas rixas comerciais sino-americanas estão se aglutinando à ansiedade cumulativa quanto à aceleração dos gastos militares de Pequim e à enérgica iniciativa chinesa para garantir suprimentos de energia. Enquanto o governo Bush luta para equilibrar o comércio e a segurança nacional, as companhias que procuram expandir as suas vendas para a China podem acabar sendo atingidas pelo fogo-cruzado.

"Uma China em ascensão possui uma outra faceta a respeito da qual as pessoas deveriam se preocupar. Não se trata apenas de produtos baratos", alerta Yu Maochun, historiador da Academia Naval dos Estados Unidos.

Neste outono, o Departamento do Comércio pretende baixar uma nova e vasta regulamentação para restringir a venda à China de tecnologias civis que poderiam ter aplicações militares. A nova regra poderia expandir dramaticamente a lista de itens que necessitam de licenças de exportação para serem vendidos à China, superando a pequena lista atual de tecnologias avançadas.

"Estamos muito preocupados com isso... É algo que acabará com uma grande quantidade de comércio legítimo não militar", afirma William Reinsch, presidente do Conselho Nacional de Comércio Exterior, um grupo de defesa do comércio com sede em Washington.

Ele diz que entre 70 e 80 companhias, incluindo a General Electric, a Boeing e a General Dynamics, se uniram para fazer lobby contra a proposta. Os produtos afetados abrangeriam todas as áreas, desde a tecnologia médica até os equipamentos pesados.

Bush deverá falar com Hu, que faz a sua primeira visita aos Estados Unidos desde que se tornou presidente da China, em 2003, no contexto de uma sessão da Assembléia Geral da ONU. O encontro foi marcado às pressas, depois que Bush cancelou a reunião de 7 de setembro, na Casa Branca, devido aos problemas causados pelo furacão Katrina.

O antagonismo em relação à China está em alta por vários motivos. Um dos principais é o fato de a maior fatia do enorme déficit comercial dos Estados Unidos com uma única nação dizer respeito exatamente à China. No início deste mês, negociações bilaterais com o objetivo de estabelecer um limite para as crescentes remessas de têxteis chineses aos Estados Unidos não conduziram a um acordo. Vários fabricantes norte-americanos dizem que a recusa da China em permitir que os mercados mundiais estabeleçam o valor da sua moeda fez com que piorasse o déficit comercial, ao tornar os produtos chineses artificialmente baratos (Pequim deu um primeiro mas importante primeiro passo nesta direção, em julho, quando acabou com a paridade entre o yuan e o dólar).

A histórica emergência da China como uma potência econômica é uma fonte de lucro e de perigo para os Estados Unidos. Em uma nova pesquisa, 66% das companhias disseram que as operações chinesas são tão ou mais rentáveis do que as suas operações globais, segundo o Conselho de Negócios Estados Unidos-China, que representa cerca de 250 corporações que operam em território chinês. Três quartos das empresas pesquisadas planejam fortalecer a sua presença no país.

Mas, à medida que prospera, o apetite voraz da China por energia está levando a conflitos com os Estados Unidos. No mês passado, uma companhia petrolífera estatal chinesa, a CNOOC, abandonou uma proposta para a compra da companhia norte-americana de petróleo Unocal devido à forte oposição do Congresso dos Estados Unidos. Outras companhias chinesas desafiaram os Estados Unidos, assinando acordos com nações antiamericanas como Irã e Sudão.

Cheia de dinheiro, a China também está expandindo generosamente os recursos para as suas forças armadas. Os gastos com defesa neste ano aumentaram 12,6%, chegando a US$ 29,9 bilhões - o dobro do orçamento de cinco anos atrás. E o Departamento de Defesa calcula que o total real pode ser o dobro ou o triplo dessa quantia, embora isso ainda represente apenas uma fração do orçamento militar dos Estados Unidos, que é de US$ 400 bilhões. Um recente relatório do Pentágono alertou que a China está acumulando armamentos necessários para impedir uma intervenção dos Estados Unidos, no caso de qualquer conflito futuro com Taiwan, que aos olhos da China é uma província renegada.

O clima político nos Estados Unidos também mudou com a queda do índice de popularidade do presidente Bush, o que deixou a sua política externa mais vulnerável a ataques partidários. Após os ataques do 11 de setembro, a China forneceu um bem-vindo apoio à guerra dos Estados Unidos contra o terrorismo, incluindo a permissão para que tropas norte-americanas fossem estacionadas em países da Ásia Central com os quais faz fronteira. Tal cooperação ajudou a proteger a política chinesa das críticas norte-americanas. Mas isso não mais ocorre.

"A lua-de-mel que se seguiu ao 11 de setembro está definitivamente terminada. As pessoas estão se pronunciando de forma bem mais contundente com relação à China", diz Minxin Pei, um nativo de Xangai que dirige o programa sobre a China no instituto Carnegie Endowment for International Peace, em Washington.

As preocupações quanto às ambições globais da China ameaçam afetar a política comercial. A Comissão de Revisão sobre Segurança e Economia China-Estados Unidos deve recomendar ao Congresso, dentro de semanas, a adoção de uma legislação que restrinja o acesso das firmas chinesas aos mercados de capital dos Estados Unidos. "Bush realmente corre o risco de perder o controle sobre a política para a China no campo econômico", adverte Bonnie Glaser, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. "A preocupação quanto à China neste país continuará aumentando".

De forma semelhante, as novas regulamentações do Departamento do Comércio, que estão em vigor há meses, têm como objetivo impedir que as forças armadas da China se beneficiem de qualquer tecnologia norte-americana.

Atualmente, menos de 2% de todas as exportações para a China exigem uma licença governamental. E 95% de todas as propostas são aprovadas. O valor total dos contratos negados no ano passado foi de apenas US$ 10,8 milhões, segundo Peter Lichtenbaum, sub-secretário de Comércio para Indústria e Segurança.

Em um depoimento perante uma comissão parlamentar, em junho, Lichtenbaum admitiu que os Estados Unidos precisam ser "cautelosos" quanto à ampliação dos controles de exportação, porque outros países são, freqüentemente, capazes de vender à China aquilo que os norte-americanos decidirem não fornecer aos chineses.

No entanto, os representantes da indústria dizem que as novas regras desencorajarão o comércio com a China, no que diz respeito a produtos como os de tecnologia de processos de fabricação ou sistemas de melhoria de produtos, seja por criarem incertezas ou por cercarem tais operações de proibições. Os executivos temem que as regulamentações propostas venham a atrapalhar os exportadores ao determinarem que os seus produtos auxiliarão o Exército Popular de Libertação.

"A mensagem enviada aos investidores norte-americanos é de que se mantenham bem distantes do mercado chinês", diz William Clements, parceiro da Foley & Lardner, uma empresa de advocacia de Washington.

Hu enfrenta os seus próprios problemas domésticos, e eles poderiam trazer conseqüências ruins para as firmas norte-americanas. Apesar do crescimento dos salários, nos últimos anos houve um aumento estonteante na incidência de protestos públicos na China. O ministro da Segurança Pública, Zhou Yougkang, disse no mês passado que 3,8 milhões de chineses participaram no ano passado de 74 mil manifestações públicas de protesto contra o não pagamento de pensões, a corrupção oficial e a destruição do meio-ambiente.

Tais manifestações estão muito longe de se constituírem em um movimento nacional antigoverno, mas a China é uma sociedade cujos líderes tradicionalmente - e por boas razões - têm se mostrado obcecados com os perigos do "luan", ou caos. No mês passado, o governo anunciou que está criando brigadas de elite antimanifestações em 36 grandes cidades, a fim de debelar futuros distúrbios sociais.

Esse clima poderia fazer com que alguns executivos pensassem duas vezes a respeito de futuros investimentos. "É possível que presenciemos certas companhias instalarem três fábricas na China e uma na Índia, quando há três ou quatro anos instalariam todas as quatro na China", diz Kenneth Lieberthal, ex-diretor de políticas asiáticas do Conselho de Segurança Nacional.

Desde que assumiu os principais cargos no governo e no partido, Hu consolidou o seu poder, reprimindo a mídia, os acadêmicos e as igrejas não autorizadas. Isso alimentou os temores norte-americanos quanto ao péssimo histórico chinês referente à questão dos direitos humanos e fez com que aumentasse o antigo desconforto em relação a uma ditadura comunista cada vez mais próspera.

Essa ambivalência se refletiu na maneira como o governo lidou com a, agora cancelada, visita de Hu à Casa Branca, marcada para 7 de setembro. As autoridades chinesas, tradicionalmente muito sensíveis com relação a questões de simbolismo político e respeito, procuraram sem sucesso articular uma sensacional visita de chefe de Estado para Hu.

Houve vários precedentes. Em 1997, o presidente Clinton organizou um jantar de honra para o predecessor de Hu, Jiang Zemin. Um ex-presidente, cinco ex-secretários de Estado, líderes parlamentares e dirigentes de 30 corporações, incluindo a IBM, a AT&T, a Boeing, a Time Warner e a General Electric, compareceram para ouvir o presidente chinês citar Henry Wadsworth Longfellow.

Autoridades chinesas ficaram irritadas com a recusa dos Estados Unidos de estender o mesmo tratamento a Hu, segundo June Teufel Dreyer, especialista em estudos chineses da Universidade de Miami, que esteve recentemente em Pequim. "Isso é algo que importa para os chineses. Eles são muito sintonizados com nuanças", diz ela.

Mesmo se essa irritação se desvanecer, não é provável que a qualidade do relacionamento melhore tão cedo. Até o mês que vem, os senadores Charles Schumer, democrata de Nova York, e Lindsey Graham, republicano de Carolina do Sul, poderão implementar uma votação no senado no sentido de aprovar uma legislação, da autoria de ambos, que imporia uma tarifa de 27,5% sobre todas as importações chinesas. A medida, que obteve 67 votos em um teste inicial de força política neste ano, visa forçar os chineses a permitirem que o yuan sofra uma valorização.

Schumer diz que o ajuste inicial de 2% no valor do yuan, feito pela China, foi insuficiente para aliviar o temor do Congresso quanto às práticas comerciais. "A China precisa fazer mais", disse ele aos jornalistas na semana passada.

A abordagem do ano eleitoral de 2006 também não tornará as coisas mais fáceis. E se a economia fraquejar devido ao impacto generalizado dos altos preços da gasolina e dos problemas causados pelo furacão Katrina, neste caso as tensões comerciais entre China e Estados Unidos poderiam realmente se inflamar.

Mas, considerando-se os vínculos financeiros e comerciais entre Pequim e Washington, nenhuma das nações é capaz de suportar uma ruptura. "Os dois lados estão tentando manter o processo nos trilhos", diz David Lampton, diretor de estudos sobre a China da Universidade Johns Hopkins. Americanos vêem chineses ora como parceiros, ora como inimigos Danilo Fonseca

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