Madonna na encruzilhada entre família e a música

Elysa Gardner
Em Nova York

Quem quer que tenha dito que tamanho importa obviamente nunca conheceu Madonna.

Pessoalmente, a mais durável e desconstruída ícone pop das últimas duas
décadas é pequenina. O rosto que lançou milhares de tendências tem traços delicados, o corpo moldado pela ioga é tão delgado que você se pergunta como Madonna conseguiu sair intacta após sua queda de um cavalo em agosto, em seu 47º aniversário.

A cantora quebrou quatro costelas, a clavícula e ossos na mão e ombro em conseqüência do acidente, que ocorreu na propriedade que ela divide com o marido, o cineasta Guy Ritchie, e seus dois filhos, Lourdes, de 9 anos, e Rocco, de 5 anos, no interior da Inglaterra. Mas nove semanas depois, Madonna já estava livre do gesso.

"Eu me sinto bem", disse ela, empoleirada confortavelmente no sofá. "Mas então eu tento me exercitar ou fazer algo, e percebo que meus ossos ainda não estão completamente curados."

Mas a mulher que cunhou o termo "ambição loira" não deixará algumas poucas dores interferirem no seu trabalho. Madonna está na cidade para promover "Confessions on a Dance Floor", seu primeiro álbum desde "American Life", de 2003, que será lançado no dia 15 de novembro.

O primeiro single, "Hung Up" --uma produção com batida forte que sampleia o sucesso "Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight)" do ABBA- foi lançado na semana passada no programa "Total Request Live" da MTV e aparecerá nos episódios interligados das séries "CSI: Miami" (7 de novembro) e "CSI: NY" (9 de novembro) da rede CBS.

A MTV também estreou o novo documentário sobre Madonna, "I'm Going to Tell You a Secret", na sexta-feira passada. O filme, que será reprisado nos canais VH1 e Logo Networks, acompanha a estrela dentro e fora do palco durante sua turnê Reinvention de 2004, alternando seqüências de concerto com cenas de Madonna fazendo palhaçadas com seus dançarinos e técnicos, assim como com Ritchie e as crianças. Também há momentos sérios, com Madonna refletindo sobre a evolução de sua vida e seus pontos de vista.

"É como se fosse um diário, mas é visual", disse Madonna, cujos projetos recentes incluem um quinto livro infantil, "Lotsa de Casha", uma linha de roupas infantis inspirada em Lourdes, "que tem uma opinião forte". "Mas nunca foi minha intenção que ('Secret') saísse junto com o disco. É que ele levou o dobro do tempo que eu esperava para editar."

Acentuando o pessoal

"Secret" compartilha com "Confessions" um tom pessoal despudorado. Madonna descreveu o segundo como um álbum de dança assumido "para se divertir direto e sem parar". Mas vendo além das batidas animadas e arranjos neo-disco, você encontrará um tendência pensativa tanto na música quanto nas letras.

"Foi por isso que o chamei de 'Confessions on a Dance Floor'", explicou Madonna. "A maioria das pessoas associa dance music com coisa vazia e superficial; se trata apenas de diversão. Tudo bem, mas não posso compor 12 canções sobre nada. Meus sentimentos ou pontos de vista inevitavelmente acabam entrando."

Como "Ray of Light" de 1998, o primeiro álbum lançado por Madonna depois de se tornar mãe, "Confessions" mistura o que há de mais moderno em produção --Madonna compôs e produziu as canções em parceria como Stuart Price, o diretor musical de suas duas últimas turnês, com ajuda adicional do produtor de "American Life", Mirwais Ahmadzai (também colaborador de Madonna em "Music", de 2000) e outros-- com antigas questões espirituais, geralmente filtradas pela perspectiva da estrela moderna.

"Será que devo prosseguir? Importará quando eu me for?" ela pergunta na introspectiva "How High".

"Eu estou constantemente tentando imaginar qual é meu lugar no mundo", disse ela. "Tal busca foi obviamente instigada pelo nascimento da minha filha. No meu filme, eu falo sobre como acordei um dia e pensei, 'meu Deus, estou prestes a ter um bebê; como vou ensinar à minha filha o significado da vida quando eu nem mesma sei?' Se ela perguntar por que ela está aqui e quem é Deus ou por que as pessoas sofrem, eu quero ter respostas. E também quero fazer estas perguntas."

Uma canção, "Isaac", com sabor de Oriente Médio, já gerou controvérsia na imprensa. "Judeus místicos para Madonna: liberte nosso sábio!" dizia uma manchete, uma referência ao ultraje de certos israelenses sobre a suposta decisão da cantora de citar o fundador de tal movimento, o místico Isaac Luria do século 16.

Mas Madonna alega que o nome "Isaac" veio de Yitzhak Sinwani, um cantor iemenita que aparece na faixa. "O álbum nem mesmo saiu, então como eruditos judeus em Israel sabem do que minha canção se trata? Eu nem mesmo conheço o suficiente sobre Isaac Luria para compor uma canção, apesar de ter aprendido um pouco em meus estudos."

"Mas eu nunca soube que era blasfêmia alguém mencionar o nome de catalisadores. É apenas uma organização religiosa reivindicando propriedade de algo. 'Esta informação é nossa; você não é judia e não pode saber a respeito', ou, 'Você é mulher e não pode saber a respeito'. Este é o pensamento religioso."

Religião versus espiritualidade

Madonna, cuja formação católica continua moldando seu trabalho, é perspicaz em distinguir tal pensamento do tipo de reflexão que a atraiu à Cabala. "Eu gosto de traçar uma linha entre religião e espiritualidade. Para mim, a idéia de Deus, ou a idéia de espírito, não tem nada a ver com religião. Religião se trata de separar pessoas, e não acho que esta tenha sido a intenção do Criador. Esta é apenas a necessidade das pessoas de pertencerem a um grupo e se sentirem bem consigo mesmas.

"Quase toda guerra já travada foi iniciada em nome de Deus. É, 'eu pertenço a este grupo; meu grupo é melhor do que o seu grupo, então se você não está no meu grupo, nós vamos matar você'. Para mim, pensamento religioso é sinônimo de tribalismo. Você não pensa por si só; você faz as coisas porque é o que outra pessoa fez, ou é como sua família lhe ensinou a se comportar e pensar."

Em sua própria família, disse Madonna, ela encoraja uma abordagem mais inclusiva ao ensino espiritual. "Como eu estudo a Cabala, meus filhos estão expostos a ela. Nós vamos a uma leitura do Torá toda manhã de sábado. E minha filha freqüenta aulas de espiritualidade para crianças. Mas não tem denominação; há crianças que são muçulmanas, judias, cristãs, atéias, o que for."

Lourdes e Rocco também parecem ter incorporado o amor da mãe pela dança, apesar dos resultados muito diferentes. A filha de Madonna faz aulas de balé desde os 4 anos. "Eu só comecei quando tinha 12, o que no mundo do balé é tarde, e passei do balé para dança moderna e jazz. (Lourdes) tem um corpo de bailarina, com aqueles belos pés de bailarina."

"Mas meu filho não faz aulas. Seu estilo é de rua. Quando peço para ele dançar para mim, ele nunca dança, mas se há música na sala, ele dança para si mesmo. Eu preciso pegar ele de surpresa. Ele adora R&B e hip-hop e dança desta forma. É muito engraçado. Eu não sei de onde ele tirou --quero dizer, ele vai ao Lycée (Français School) em Londres. Mas eu acho que coisas como dançar, e o que lhe atrai musicalmente, são instintivas."

Durante o ano letivo, Madonna, seus filhos e Ritchie ficam em Londres. "Nós vamos para a casa de campo no fim de semana, ou no verão", disse ela. "Eu sou uma garota da cidade. Se não tivesse me casado com Guy, eu certamente não teria amadurecido para apreciar a beleza do campo. Há uma paz idílica lá que você não encontra em lugar nenhum.

Agora eu consigo tolerar estar na cidade porque tenho um local para o qual escapar, onde eu posso deixar a porta aberta e meus filhos podem correr do lado de fora. É um lugar onde eu posso me sentir como uma pessoa comum."

Bem, quase como uma pessoa comum. Sobre os relatos de que ela não permite que Lourdes e Rocco assistam a TV, Madonna primeiro disse: "Eu fui criada sem televisão. Eles assistem a filmes e minha filha sempre está com o nariz enfiado em um livro. Eu não tenho a sensação de que se sintam privados. Eu não sei por que isto é chocante."

Mas Madonna também admite estar preocupada com o impacto que uma cultura pop contemporânea em excesso pode ter sobre seus filhos em particular. "A TV é horrível", disse ela. "Tudo é tão obcecado por celebridades e eu sou uma celebridade. Por que confundir meus filhos com isto?"

Mas, é claro, os filhos de Madonna "são fotografados em todo lugar onde eles vão. Há muito mais paparazzi agora. Por causa da Internet, há todas estas novas agências. Isto criou toda uma nova linha de trabalho para as pessoas, onde você precisa seguir as pessoas até o fim do mundo e escalar cercas."

Táticas de sobrevivência

Tais comentários podem parecer irônicos vindos de alguém cuja ascensão e fama contínua são creditados em parte ao marketing brilhante, e que é amplamente considerada como a primeira superestrela feita pela e para a era do vídeo. E Madonna não quer morder a mão que a alimenta.

"Enquanto você continua gravando álbuns, todos ficam prevendo o seu fim", disse ela. "Quase parece que eles querem que você falhe. Você precisa encontrar uma forma de ser criativa e ter liberdade para fazer o que quer fazer, tendo ao mesmo tempo consciência das exigências do mercado e do que as pessoas gostam. É uma linha tênue para se caminhar e há muita concorrência."

Certamente, os imitadores e herdeiros de Madonna são legião, de novatas adolescentes a Britney Spears e Gwen Stefani, 36 anos, cujo álbum solo apresentava homenagens virtuais a quem ela obviamente idolatra. "Ela me copiou, de forma que concordamos mutuamente que posso copiar ela", Madonna brincou sobre Stefani. "Nós trabalhamos com muitas das mesmas pessoas. Ela é casada com um britânico, ela tem cabelo loiro e gosta de moda. Mas não me importo. Eu acho ela um doce e realmente talentosa."

Além disso, Madonna ainda tem alguns referenciais próprios. Ela continua sentindo uma forte ligação com a pintora mexicana Frida Kahlo. "O trabalho dele era muito confessional, lhe dizendo muito sobre o que estava transcorrendo na vida dela. Mas você nunca sabia exatamente o que era verdadeiro e o que era falso e o que ela estava exagerando. Ela estava criando um mito em torno de si mesma. Ela o usou como uma ferramenta educativa para si mesma e, eu acho, outras pessoas.

"É como penso no meu trabalho. Eu faço auto-retratos. As pessoas me colocam em todas as diferentes categorias: sou uma 'material girl', deusa do sexo, mãe, espiritualizada. Mas eu amo a contradição. Há sempre um mistério, sempre toda uma outra vida transcorrendo." Auto-retratos: sou material girl, deusa do sexo, mãe espiritualizada George El Khouri Andolfato

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