Presidente Bush busca salvar segundo mandato

Susan Page e Judy Keen
Em Washington

Um assessor passou uma nota ao presidente Bush durante uma reunião de equipe no Escritório Oval, na manhã da última sexta-feira (28/10), com as notícias: o chefe de Gabinete do vice-presidente Cheney seria indiciado no caso de vazamento da CIA --o final terrível de uma semana muito ruim.

Após sofrer o fracasso de uma indicação à Suprema Corte e defender uma guerra impopular que já custou mais de 2 mil vidas americanas, Bush vê cair ainda mais a aprovação à sua presidência. Uma pesquisa USA Today/CNN/Gallup realizada entre sexta-feira e domingo mostrou que uma maioria sólida de americanos, 55%, agora considera a presidência de Bush um fracasso. Mas sua estratégia de recuperação começou nesta segunda-feira.

Bush partiu na sexta para Camp David, com sua mente quase que totalmente voltada para sua próxima indicação à Suprema Corte. O anúncio do conservador Samuel Alito na segunda visa reconquistar os conservadores decepcionados com sua escolha fracassada da advogada da Casa Branca, Herriet Miers. Na terça, ele deverá anunciar um plano para combate à ameaça de pandemia de gripe aviária, um esforço para demonstrar que seu governo aprendeu as lições da sua resposta falha ao furacão Katrina.

Mas pessoas de fora da Casa Branca --incluindo senadores de ambos os partidos e veteranos de presidências anteriores-- questionaram se Bush está preparado para promover as mudanças abrangentes que os presidentes Ronald Reagan e Bill Clinton promoveram após encontrarem sérios reveses no segundo mandato.

"A verdadeira questão para o presidente Bush é: ele será como (Richard) Nixon --protegendo-se, entrando em um bunker, não admitindo erros" disse o senador Charles Schumer, democrata de Nova York, no programa "Face the Nation" da rede CBS, "ou, como Reagan, reconhecendo erros, fazendo uma correção de curso e trazendo novas pessoas, pessoas bipartidárias, pessoas acima de reprovação ética, para a Casa Branca?"

O senador Trent Lott, republicano do Mississippi, disse no programa "Fox News Sunday" que Bush deveria procurar por "sangue novo, energia nova, uma nova equipe qualificada, novas pessoas no governo".

Assessores da Casa Branca disseram que esperam que Bush recupere o equilíbrio se concentrando nas questões que acredita que mais interessam aos americanos de fora de Washington: economia, Iraque, imigração e gripe aviária.

"Muitas das questões com as quais estaremos lidando (...) afetam o dia-a-dia das pessoas fora do Cinturão (de Washington)", disse Nicolle Wallace, a diretora de comunicações da Casa Branca.

"Nós contornaremos o filtro (da mídia) para nos comunicarmos diretamente com o povo americano sobre as coisas com as quais se importam."

Quatro assessores presidenciais disseram que não há planos para mudanças de política dramáticas, mudanças de pessoal ou "mea culpa" públicos. Os assessores se recusaram a falar "on the record" porque não estão autorizados a discutir assuntos internos. Dois descreveram a cena da reunião de sexta-feira, quando o presidente soube o que o promotor especial Patrick Fitzgerald faria.

"Uma investigação que durou quase dois anos equivale a ter uma adaga balançando sobre você", disse Dan Bartlett, o assessor de Bush. "Nós todos estamos tristes (com o indiciamento do assessor de Cheney, I. Lewis 'Scooter' Libby) e entendemos a gravidade das acusações apresentadas pelo promotor especial, mas isto nos dá uma oportunidade de olhar para a frente."

Mas os céticos notam que os planos de Bush de se concentrar na reforma da imigração, reforma tributária e conseguir a confirmação do indicado conservador à Suprema Corte seriam difíceis até mesmo para um presidente no ápice de sua força.

E alertaram que a reconstrução do apoio entre a população exigirá mais do que retórica e determinação. Isto exigirá, segundo eles, resultados.

"É difícil saber onde o presidente Bush buscará uma grande iniciativa nacional ou internacional no momento --uma iniciativa na qual poderá realmente ser bem-sucedido", disse David Gergen, um assessor de quatro presidentes. Ele chamou a situação de "uma tempestade categoria 4 para a Casa Branca de Bush".

Maldição do segundo mandato?

Todo presidente em segundo mandato desde Dwight Eisenhower enfrentou algum tipo de catástrofe. Mas os analistas descrevem os apuros de Bush como mais difíceis de consertar do que os escândalos que colocaram em dúvida a Casa Branca de Reagan e o comportamento pessoal de Clinton.

"Com Clinton, as pessoas diziam: 'Eu não me casaria com ele, mas acho que ele tem feito um bom trabalho'", disse a pesquisadora democrata Celinda Lake. "No caso de Bush, elas estão dizendo: 'Eu tenho problemas com o trabalho que ele tem feito'."

Para Bush, os reveses que têm minado seu apoio público e força política estão relacionados a desdobramentos que afetam o dia-a-dia dos americanos. A incerteza sobre se o governo estará presente para ajudar em caso de um desastre natural. A violência enfrentada por 159 mil soldados americanos em serviço no Iraque. O preço pago pela gasolina e pelo óleo para aquecimento doméstico.

As pressões financeiras e a inquietação econômica são um motivo para os índices de Bush terem caído 10 pontos percentuais desde sua nova posse em janeiro.

Uma análise de 10 pesquisas USA Today/CNN/Gallup --seis realizadas entre a eleição e a posse e quatro realizadas nas últimas semanas-- mostra que a queda tem sido particularmente forte entre os eleitores de classe operária que Reagan ajudou a atrair para o Partido Republicano. A posição de Bush caiu 15 pontos entre aqueles que têm apenas o segundo grau e 14% entre aqueles que ganham entre US$ 20 mil e US$ 30 mil por ano.

Na pesquisa USA Today realizada neste fim de semana, o índice de aprovação de Bush está em 41%. Esta é uma posição mais baixa do que a de Reagan em qualquer momento durante a controvérsia Irã-Contras ou o índice de aprovação de Clinton durante o escândalo Monica Lewinsky.

Quando o Gallup perguntou em 1993 se o mandato do primeiro presidente Bush foi um sucesso ou um fracasso, 53% o consideraram um sucesso apesar de ter sido derrotado por Bill Clinton na disputa pela reeleição um ano antes. Durante a presidência de Clinton, a maioria nunca considerou seu mandato um fracasso. Apenas uma vez, após a derrota na questão do atendimento de saúde, em 1994, a maioria disse que era um fracasso, 50% contra 44%.

Em janeiro de 1999, após ter superado impeachment na Câmara e enquanto aguardava o julgamento no Senado, 71% consideravam o mandato de Clinton um sucesso.

Mas em agosto, por 51% a 47%, os pesquisados pelo USA Today consideraram a presidência do atual Bush um fracasso. Tal proporção cresceu para 55% contra 42% na pesquisa realizada no fim de semana.

Os resultados são consistentes com os de uma pesquisa realizada em outubro pelo Centro Pew de Pesquisa. Naquela pesquisa, pela primeira vez desde que Bush assumiu a presidência em 2001, a maioria dos americanos disse que a longo prazo ele seria visto como um presidente malsucedido. Apenas um entre quatro disse que Bush seria visto como bem-sucedido.

A pesquisa USA Today revelou pouco otimismo de que a estratégia de recuperação de Bush será bem-sucedida. Por 55% a 41%, os pesquisados disseram que os três anos restantes da presidência de Bush serão um fracasso.

Ele tem estado na defensiva há quase três meses --desde que saiu em férias em agosto, apenas para ser atormentado pelo protesto antiguerra de Cindy Sheehan perto de seu rancho e depois pela devastação provocada pelo furacão Katrina na Costa do Golfo.

"Ele teve uma série de más notícias e falhas terríveis", disse Charlie Black, um ex-assessor de Reagan que tem ligações estreitas com a Casa Branca de Bush. "Você busca sair disto aos poucos. Você tenta manter uma agenda positiva, tratando das questões que estão na cabeça do americano comum."

Havia um sentimento de alívio na Casa Branca na sexta-feira, disseram os assessores. Antes do anúncio do indiciamento, devido aos temores de que seriam convocados para testemunhar, eles não realizavam reuniões de gerenciamento da crise e tinham medo de discuti-la entre eles.

E apesar de Libby ser uma figura importante na Casa Branca, o vice-chefe de Gabinete da Casa Branca, Karl Rove, o assessor mais influente de Bush, não foi indiciado.

Os americanos querem ver seu governo ser bem-sucedido na solução de problemas como a reforma da imigração e a prevenção da pandemia de gripe, disse Bartlett. A atenção de Bush nestes assuntos visa "demonstrar que o governo está cumprindo suas responsabilidades essenciais tanto na execução quanto na ênfase".

O discurso do Estado da União que Bush fará em três meses já está sendo preparado. Assessores disseram que ele lhe dará uma chance de revigorar sua agenda política antes das eleições para o Congresso no segundo semestre.

"Há união dentro do partido em torno das metas gerais que queremos cumprir e temos uma oposição que está terrivelmente dividida", disse Ken Mehlman, presidente do Comitê Nacional Republicano. "O presidente é o primeiro desde Lyndon Johnson a entrar no segundo mandato contando com uma maioria no Congresso. Ainda há uma energia tremenda no Executivo e em torno da agenda."

A resposta de Bush quando as coisas azedaram na campanha de 2000 indica que ele dificilmente mudará seu pessoal. Após sua derrota devastadora para o senador John McCain nas eleições primárias de New Hampshire, Bush se reuniu com seus assessores, incluindo vários que trabalham para ele até hoje e lhes disse que ninguém seria demitido. Ele pediu a eles que se unissem e trabalhassem mais arduamente.

A equipe de Bush "sempre levanta a blindagem quando está com as costas contra a parede", disse Mary Matalin, uma ex-advogada de Cheney.

"Este presidente não sai dançando quando as coisas estão boas e nem joga a toalha quando as coisas estão ruins", disse Mark McKinnon, diretor de mídia nas campanhas presidenciais de Bush. Ele previu: "Grande parte da loucura já ficou para trás".

A decisão de Bush de não promover mudanças por atacado entre seus principais conselheiros poderá ser um erro, disse Leon Panetta, que foi trazido como chefe de Gabinete de Clinton durante uma crise em seu primeiro mandato, em torno do seu plano para atendimento de saúde.

"Ele precisa agir, sacudir as coisas", disse Panetta sobre Bush. Particularmente durante o segundo mandato, quando os conselheiros que estão com você desde o início começam a ficar desgastados, os presidente necessitam de "pessoas novas com novas idéias e nova energia", disse ele.

A presença de Rove poderia ser problemática, acrescentou Panetta. "Esta nuvem continuará pairando sobre a cabeça dele."

A história fornece algum conforto para Bush: antecessores modernos conseguiram se recuperar durante o segundo mandato. Apesar de Nixon ter renunciado em desgraça, Reagan encerrou seu mandato com um índice de aprovação de 63%, Clinton com um de 59%.

O cenário poderá melhorar

Para Bush, o cenário também poderá melhorar, até mesmo a tempo das eleições do próximo ano para o Congresso.

"É possível imaginar um cenário no qual a economia melhore, os preços da gasolina caíam um pouco e a reconstrução esteja em andamento na Costa do Golfo", disse Gary Jacobson, um cientista político da Universidade da Califórnia, em San Diego. Seu estudo da presidência de Bush, "A Divider Not a Uniter" [Um Divisor, Não um Unificador], será publicado em fevereiro.

"Talvez Osama Bin Laden seja pego. Os iraquianos tenham outra eleição e pareçam ter um governo e algum progresso seja visível na frente de guerra."

Mas não há garantia disto, notou Jacobson. Após os reveses de segundo mandato, nenhum dos antecessores modernos de Bush conseguiu emplacar grandes vitórias na frente doméstica. O maior feito doméstico de Reagan em seu segundo mandato, a simplificação tributária, foi sancionada antes do estouro do escândalo Irã-Contras.

As esperanças de Clinton de fechar um acordo com os republicanos para garantir a solvência de longo prazo do Medicare, o atendimento de saúde para os idosos, foram abandonadas quando ele foi forçado a depender dos democratas liberais para defende-lo durante o processo de impeachment.

Todos eles desviaram suas energias para a política externa. Nixon se concentrou na abertura da China. Reagan negociou acordos de armas nucleares com o líder soviético Mikhail Gorbachev. Clinton fez um grande esforço para mediar um acordo entre israelenses e palestinos em torno dos assentamentos, mas fracassou.

E Bush? Ele tem pouca escolha a não ser se concentrar na situação no Iraque. E partirá da cidade novamente na quinta-feira. Destino: América do Sul. Sua gestão é um fracasso para 55% dos americanos, diz pesquisa George El Khouri Andolfato

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