Televisão atinge ocupação máxima

Bill Keveney

O horário nobre está tendo uma explosão demográfica.

Alguns dos principais programas do outono têm os maiores elencos. "Desperate Housewives", da ABC, tem 19 atores em sua lista de créditos e é o segundo em audiência. "Lost" da ABC, que está em quarto lugar, tem 15 atores regulares. E "Grey's Anatomy", com um conjunto de nove, está em quinto.

Depois tem o "Prison Break", da Fox, cujo episódio piloto incluiu 34 papéis. E vem aí "Windfall", um drama da NBC que acompanha 20 personagens -todos vencedores de um enorme prêmio da loteria.

As séries dramáticas com muitos atores estão em alta, e há razões para isso. Apesar de ter suas desvantagens -inclusive maiores custos de produção e competição entre os atores- os executivos e produtores dizem que oferecem mais chances atingir o público.

"Você pode ter maiores interações entre os personagens e criar personagens mais diversos e histórias paralelas, mais triângulos amorosos", diz Bryan Burk, produtor executivo de "Lost".

Programas com grandes elencos ficaram fora de moda por uma década, com "ER" da NBC e "The West Wing" sendo exceções à regra.

Dramas de grande elenco têm maior chance de virarem novelas, que perderam força em parte por seu limitado valor de reprise. As comédias, com elencos menores, foram quentes por um tempo, depois veio o domínio de dramas criminais, liderados por "Law & Order" e "CSI". Os dois gêneros, em geral, têm episódios que terminam em si mesmos, e se saem melhor em reprises e revendas.

Mas séries como "Lost" e "24" da Fox provaram seu valor com fortes vendas de DVDs, fornecendo uma nova fonte de renda para justificar os custos extra de um grande elenco. Os salários dos atores e custos de cenários e locações adicionais podem somar US$ 500.000 (em torno de R$ 1,1 milhão) a mais por episódio, em relação a um programa padrão de uma hora de duração, diz Dana Walden, presidente da 20th Century Fox Television, que produz "24" e "Prison Break".

"Quando você vê o mercado de DVDs, parte do que os consumidores querem são os personagens que foram colecionando com o tempo", diz ela. "Além disso, há um forte apetite no mercado internacional para séries dramáticas."

Sucessos geram imitações. "Lost" e "Housewives" fizeram a ABC dar a volta por cima, quando estava decadente. A possibilidade de sucesso similar leva outros a assumirem o risco.

Os programas de realidade podem ter ajudado a tendência, diz David Bushman, curador do Museu de Televisão e Rádio. "Survivor" da CBS, diz ele, é um dos sucessos de realidade cujo grande número de competidores e histórias podem ter levado o público a se acostumar com a expansão dos elencos das ficções.

Grandes equipes têm vantagens e desvantagens. Entre as vantagens:

- Captar o ritmo da vida real. Mais personagens significa mais histórias. Em "Windfall", cada personagem ganhou US$ 20 milhões (em torno de R$ 44 milhões) na loteria, e suas histórias refletem uma variedade de experiências, com perspectivas diferentes sobre a sorte, disse a produtora executiva Laurie McCarthy.

"Você tem uma série de pessoas de quem pode tirar histórias", diz ela. "Parece mais natural" do que ter todos os eventos acontecendo com alguns principais personagens.

Isso também dá maior possibilidade dramática -como a morte de um ator
principal- sem destruir o programa. Na última temporada, "Lost" matou Boone (Ian Somerhalder). E perderá outro personagem nesta semana.

A morte dos personagens arrisca alienar alguns fãs, mas os produtores dizem que é necessária para dar credibilidade às ameaças de vida na ilha. E, da perspectiva dos autores, o programa chegou ao nível máximo de atores sem ficar espalhado demais, então a partida de um personagem pode criar espaço para um novo.

- Ser mais diverso. Grandes elencos podem facilmente apresentar uma mistura de grupos raciais, étnicos e socioeconômicos. Os médicos de "Grey's Anatomy" , por exemplo, refletem uma variedade de culturas. Sayid (Naveen Andrews), de "Lost", ex-membro da Guarda Republicana do Iraque, dificilmente seria escalado em um programa enxuto.

"É mais fácil ter um espectro maior quando você tem 10 pessoas em um elenco" , disse o diretor de entretenimento da ABC Steve McPherson.

- Flexibilidade. Um número maior de personagens confere ao programa mais opções, caso um ator tenha algum problema.

Durante a primeira temporada de "Las Vegas" da NBC, o ator Josh Duhamel, que faz o papel do personagem central Danny, rompeu o tendão de Aquiles. Como havia outras histórias para explorar, o programa pôde continuar rodando enquanto o roteiro era ajustado para a história de Danny refletir sua contusão, disse o produtor executivo Gary Scott Thompson.

"É melhor não depender de um único ator", disse Thompson. "Paul Michael Glaser ("Starsky & Hutch") esteve aqui fazendo direção e frisou isso. Ele disse que como 'Starsky & Hutch' eram só os dois, sem eles, não havia programa."

Outra vantagem para os produtores é que, com personagens menos insubstituíveis, a negociação dos contratos com os atores é mais fácil, apesar dos entrevistados para esta matéria não terem se aproveitado disso, disseram.

As desvantagens:

- Fazer todo mundo caber. Muitos personagens em um tempo limitado significa que alguém fica de fora.

Nos primeiros episódios de "Lost" desta temporada, alguns dos principais personagens, como Charlie (Dominic Monaghan), praticamente desapareceram. O programa se concentrou na mitologia da ilha e na introdução de passageiros da traseira do avião.

Alguns críticos reclamaram que "Housewives" perdeu o foco criando histórias separadas para suas principais personagens, prejudicando o charme do laço entre elas. McPherson discorda, mas diz que o mistério deste ano da nova vizinha secreta de Betty (Alfre Woodard) é "um pouco periférico" se comparado com a história do suicídio de Mary Alice Young da última temporada.

- Recrutar atores e mantê-los entusiasmados.

Rob Lowe, que originalmente seria o personagem principal de "The West Wing", deixou a série depois de algumas temporadas, porque achava que seu papel estava encolhendo.

"Se você tem um bom agente e há demanda por seu trabalho, você vai preferir estar em um programa com quatro pessoas que te dá muitas falas, ou num com 15?" diz Tim Brooks, co-autor de "The Complete Directory to Prime Time Network and Cable Shows" (guia completo dos programas de horário nobre da televisão aberta e paga).

Com um elenco de 15, os atores de "Lost" expressaram ocasionalmente o desejo de mais cenas. "Eles se sentem como reservas que querem entrar no jogo. Não é tanto 'acho que você não está me usando', uma reclamação egoísta", disse o produtor executivo Damon Lindelof.

Isso poderia ser mitigado com alguns papéis recorrentes, com atores secundários aparecendo com menos freqüência do que os regulares (o que também economiza dinheiro). Mas esses atores têm mais liberdade de assumir outros trabalhos, o que pode limitar opções de histórias.

- Dificuldade de promoção. Quando se tenta explicar ao telespectador uma nova série, é fácil conseguir reconhecimento com um ou dois grandes nomes. Os conjuntos de atores muitas vezes não têm grande fama e são um desafio para a propaganda.

"Não dá para ficar tão confortável com 20 pessoas quanto com três ou quatro" , disse Vivi Zigler, que gerencia a atual programação da NBC. A NBC apresentará os personagens individuais em propagandas estilizadas de "Windfall", para que o público não fique perdido com o grande elenco.

O tamanho também complica a organização. "Só para juntar todo o pessoal para uma grande foto publicitária dá um trabalhão", disse Zigler.

- Política complexa. A publicidade pode se tornar uma competição, como foi o caso das fotos de "Housewives" para a Vanity Fair na primavera. A série evitou tensões neste outono com uma campanha de várias fotos, com cada uma das donas-de-casa em uma posição central.

Editores de revistas estão acostumados com os agentes dos atores fazendo lobby por fotos e histórias. A competição por atenção pode aumentar quando uma série conta com 10 atores principais em vez de três. "Todos querem a mesma posição", diz Debra Birnbaum, editora executiva da Inside TV.

Mas, ao menos por enquanto, as vantagens superam as desvantagens. As possibilidades são praticamente infinitas.

"Se 'Grey's Anatomy' tivesse um único personagem principal, talvez pudéssemos fazer uma história por mês. Com nove, podemos voltar toda semana."

Outros grandes elencos a caminho.

Além de "Windfall" da NBC, estrearão entre hoje e a primavera
norte-americana:

"The Unit" (CBS), 9 atores regulares. Drama que acompanha uma unidade militar de elite e suas famílias.

"Love Monkey" (CBS), 7. Apresenta as experiências de namoro e casamento de quatro amigos.

"The Loop" (Fox), 7. Comédia sobre solteiros em Chicago.

"South Beach" (UPN), 6. Amigos passam por experiências de amor e perigo em Miami.

"What About Brian" (ABC), 7. Sobre um rapaz solteiro em um grupo de amigos casados e com seus familiares.

"Sons & Daughters" (ABC), 15. Comédia dramática sobre uma grande família. Deborah Weinberg

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