Democratas vencem ao expandir idéia de valores

Chuck Raasch
Comentarista político
Em Washington

Se os republicanos acham que os resultados eleitorais de terça-feira em várias partes do país apenas reafirmaram o status quo, como argumentou o presidente nacional do partido, eles correm o risco de ignorar uma mudança potencialmente significativa no debate de valores.

Esta deve ser a lição tirada da disputa pelo governo da Virgínia, vencida pelo democrata Tim Kaine, o atual vice-governador.

O presidente do Comitê Nacional Republicano, Ken Mehlman, disse que a população da Virgínia apenas quis manter o curso com o popular governador democrata Mark Warner, que não podia concorrer novamente devido à proibição do Estado a dois mandatos consecutivos.

Mas o que Kaine disse durante a campanha sobre valores também é digno de nota. Sua vitória poderá fornecer um mapa da estrada para outros democratas, especialmente nas crescentes áreas semi-rurais e nas áreas rurais do país, mais presas às tradições, que têm sido fortalezas republicanas nas últimas eleições.

O candidato republicano Jerry Kilgore atacou Kaine como um liberal fora de sintonia, usando a posição de Kaine contra a pena de morte como argumento.

Mas as propagandas de Kilgore exibindo os entes queridos de vítimas de assassinato podem ter surtido o efeito contrário. Em vez de ficar na defensiva, como os democratas costumam fazer, Kaine baseou sua resposta em suas crenças e sua formação.

Ele atuou como missionário na América Central e disse que sua posição sobre a pena de morte é produto de valores religiosos, que não mudariam mesmo se isto significasse discordar da maioria da população da Virgínia. Kaine então expandiu com sucesso sua definição de valores para incluir impostos justos, saúde, educação, emprego e um governo eficiente voltado tanto à classe média quanto aos mais necessitados.

"As pessoas estão mais interessadas em responsabilidade fiscal do que em disputas ideológicas", disse Kaine em sua comemoração da vitória em Richmond.

As famílias americanas "não estão sentadas lá dizendo: 'Nossa vida seria melhor se cuidassem do casamento gay'", disse Steve Jarding, um professor de Harvard e ex-conselheiro de Warner, um candidato potencial à presidência em 2008. "Elas estão dizendo: 'Nos dêem alguma dignidade, nos dêem empregos que paguem bem, nos dêem atendimento de saúde'."

Normalmente é difícil encontrar relevância nacional em eleições menores, e o resultado costuma depender do ponto de vista de quem está olhando. Mas os republicanos parecem ter sofrido de amnésia após as eleições de terça-feira, nas quais o senador democrata Jon Corzine também conquistou o governo de Nova Jersey.

Apesar de Corzine ter tentado retratar sua vitória como um repúdio aos republicanos em Washington, sua disputa contra o republicano Douglas Forrester foi tão suja e tão pessoal que é difícil fazer tal argumento. A única relevância nacional em Nova Jersey pode ter sido a indicação da contínua inclinação do Estado democrata para a esquerda. Se representou algo, o tom da disputa Corzin-Forrester a tornou uma disputa antivalores.

Mehlman argumentou que os Estados da Virgínia e Nova Jersey raramente são representativos e que os resultados deste ano não servem de indício sobre como transcorrerão as eleições de 2006 ao Congresso. Ele descartou o baixo índice de aprovação do presidente Bush --41% na mais recente pesquisa CNN/USA Today/Gallup-- como sendo um fator.

Mas esta é uma drástica revisão da análise republicana de 1993, depois que o partido venceu as disputas pelos governos de Nova Jersey e Virgínia e pela prefeitura de Nova York. O índice de aprovação do então presidente Clinton era de 48% na pesquisa CNN/USA Today/Gallup do final de outubro, e os republicanos foram rápidos em atribuir suas vitórias à baixa popularidade de Clinton e previram os grandes ganhos que obteriam em 1994, quando assumiram o controle do Congresso pela primeira vez em 50 anos.

Após aqueles sucessos de 1993, a estrategista republicana Mary Matalin disse que havia "um inegável toque nacional nestas eleições" e que os eleitores estavam "furiosos, particularmente com Clinton".

Mehlman rebateu que haverá bem menos cadeiras realmente em disputa em 2006 em comparação a 1994. Ele acha que isto torna a maioria republicana bem menos vulnerável do que a democrata há 12 anos.

Mas como Kaine provou na Virgínia, quando o debate de valores se expande além do aborto e dos direitos gays, antigos números e antigas estratégias se tornam relíquias da história. Vitória na Virgínia deve-se à discussão de "valores" na economia George El Khouri Andolfato

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