Republicano corrupto sinaliza queda do partido

Chuck Raasch
Comentarista político
Em Washington

Antes de renunciar em desgraça da Câmara dos Deputados dos EUA, o deputado Randy "Duke" Cunningham era famoso por questionar o patriotismo dos outros, de Bill Clinton a quem se opusesse aos sistemas de armas.

Piloto de guerra condecorado da guerra do Vietnã, o heroísmo de Cunningham nunca foi questionado. Sua ética, porém, agora foi.

A queda de Cunningham talvez seja a vanguarda de um escândalo que pode engolfar outros membros do Congresso. O deputado poderá enfrentar até 10 anos de prisão por aceitar mais de US$ 2 milhões (em torno de R$ 4,4 milhões) em suborno --de todo tipo, desde casas até carros e uma privada antiga-- em troca de contratos para as empresas que o cobriam de presentes. Duas das empresas citadas como co-conspiradoras conseguiram grandes contratos com o Pentágono.

Cunningham, republicano que se dizia modelo para o filme "Top Gun - Ases Indomáveis", foi um membro exibicionista e controverso da revolução republicana.

Primeiramente eleito em 1990, ele conquistou notoriedade nacional durante a campanha presidencial de 1992, quando se uniu ao bombástico deputado Bob "B-1 Bob" Dornan, da Califórnia, bombardeando as atividades estudantis do então governador Bill Clinton.

Em discursos no plenário da Câmara, Cunningham e Dornan tentaram retratar Clinton como um "Candidato da Manchúria" moderno, porque Clinton tinha participado de movimentos contra a guerra e tinha feito uma viagem a Moscou durante a guerra do Vietnã, quando era estudante. Cunningham chegou a comparar Clinton à "Rosa de Tóquio" --personalidade do rádio da Segunda Guerra que tentou minar a moral de soldados e marinheiros americanos no Pacífico.

Em 1995, o esquentado deputado James Moran, democrata da Virgínia, empurrou Cunningham após um tenso debate sobre o envolvimento americano na Bósnia. Em seus 15 anos no Congresso, Cunningham freqüentemente propunha gastos altos com defesa, invocando seu próprio serviço militar.

Em 1997, ele disse que os republicanos deviam defender o presidente da Câmara, Newt Gingrich, que estava sendo questionado eticamente, da mesma forma que pilotos leais protegiam colegas feridos.

Mas no fim, foi sua disposição de explorar os dólares da defesa para satisfazer sua própria ganância que afundou Cunningham. Falando em dever e honra ao país.

A história de Cunningham serve de advertência para o poder em Washington. De certa forma, o deputado encarna a razão pela qual o poder político tende a trocar de lado em ciclos de 12 a 14 anos, desde a Guerra do Vietnã.

Os movimentos começam a ficar sem gás, comprometem seus princípios ou perdem sua base ética. O governo federal ficou tão grande --e sua grandeza ficou tão prolífica e sedutora-- que até os que vêm para esta cidade prometendo deter os excessos são levados pela cultura da ganância.

Hoje, ao menos quatro membros do Congresso estão sendo investigados ou foram indiciados. Algumas reportagens sugerem que outros congressistas podem ter feito lobby para as empresas citadas como co-conspiradoras. Várias figuras que caíram em desgraça, inclusive Cunningham e um ex-secretário de imprensa de Tom DeLay, ex-líder da maioria na Câmara, estão cooperando com a promotoria federal.

Será que isso é um sinal de outro ciclo de limpeza da casa de 12 a 14 anos? Considere as tendências:

  • Em 1968, Richard Nixon venceu a presidência com base na insatisfação com a guerra no Vietnã, mas os democratas mantiveram o Congresso.

  • Em 1980, Ronald Reagan, cuja ascensão nacional datava da campanha malsucedida de Barry Goldwater 16 anos antes, levou a Casa Branca. Os republicanos conquistaram o Senado, depois de o país se voltar contra Jimmy Carter e uma economia cambaleante.

  • Em 1994, o Partido Republicano derrubou 40 anos de domínio democrata na Câmara, acusando os congressistas democratas de corrupção e alienação. O democrata Bill Clinton havia vencido a presidência dois anos antes, argumentando que o então presidente Bush tinha perdido o contato com os americanos.

    Estamos entrando no 12º ano desta fase de 1994. Clinton é cônjuge de uma candidata presidencial de 2008. Gingrich e muitos outros líderes da revolução republicana de 1994 hoje redigem discursos, escondem-se na academia ou são lobistas.

    Muitos que vieram ao poder questionando a ética e a moral do status quo deixaram o cargo sob denúncias.

    Apenas uma coisa é constante na política: a mudança. Muitos que vieram ao poder questionando a ética e a moral do status quo deixaram o cargo sob denúncias Deborah Weinberg
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