Problemas de Bush colam em seu 'vice de velcro'

Susan Page
Em Washington

Digam o que quiserem sobre o vice-presidente Cheney: ele não volta atrás nas suas posições.

O mais poderoso vice-presidente da história se vê atualmente no centro de tempestades relativas às informações de inteligência que antecederam a guerra no Iraque, a uma proposta de proibição da tortura de prisioneiros e à investigação do vazamento do nome de uma agente da CIA, que fez com que o seu principal assessor caísse. Os críticos dizem que ele tem ajudado a moldar uma administração que --com relação à guerra, à política de energia e outras questões-- não aceita admitir os seus erros, está envolta em secretismo e se mostra cada vez mais disposta a combater os críticos.

"O paradoxo desse vice-presidente reside no fato de aquelas coisas que o tornaram tão valioso no início do governo e tão importante para o presidente --a sua disposição de assumir a liderança e de ser um defensor vigoroso e visível de determinadas questões-- terem retornado para assombrá-lo", afirma Paul Light, cientista político da Universidade de Nova York e autor do livro "Vice-Presidential Power: Advice and Influence in the White House" ("O Poder Vice-Presidencial: Conselho e Influência na Casa Branca"). "É quase como se tudo o que há de ruim na administração tivesse voltado para colar em Dick Cheney".

Light o chama de "o vice-presidente velcro".

Mas Cheney não parece preocupado com a possibilidade de alimentar ainda mais a polêmica. Na noite da segunda-feira (05/12) ele lançou, em Houston, um evento para arrecadação de verbas para o deputado Tom DeLay, que foi obrigado a renunciar ao cargo de líder republicano na Câmara ao ser indiciado devido a acusações de má conduta ética no outono. Na terça-feira, o vice-presidente deverá discursar em Fort Drum, no Estado de Nova York, defendendo a guerra no Iraque --uma guerra da qual ele foi um dos principais articuladores.

Os seus defensores repelem a sugestão de que ele esteja encurralado, ou que o seu relacionamento com Bush e com o Congresso tenha se deteriorado. "Os seus trunfos são sempre subestimados, enquanto as suas desvantagens são invariavelmente fabricadas", opina a ex-conselheira Mary Matalin. Ela diz que Cheney reage com uma irritação resignada às notícias da imprensa sobre a sua pessoa.

O vice-presidente foi desprezado pelo Senado em outubro, quando os parlamentares daquela casa aprovaram uma lei para proibir a tortura de suspeitos de praticarem terrorismo. A Casa Branca diz agora que deseja chegar a um acordo intermediário quanto à questão, enquanto a Câmara e o Senado votam a versão final da lei. Essas negociações estão sendo administradas pelo assessor de segurança nacional Stephen Hadley.

E Cheney foi criticado publicamente nas últimas semanas por dois ex-colegas: Brent Scowcroft, que foi assessor de segurança nacional quando Cheney trabalhou no governo do pai do atual presidente, e Lawrence Wilkerson, que foi chefe de gabinete do então secretário de Estado Colin Powell, no atual governo.

Em um discurso feito em outubro para a Fundação Nova América, Wilkerson atacou Cheney, chamando-o de líder de um grupo secreto da administração responsável por intrigas e que enfraqueceu o processo normal de tomada de decisões ao fazer pressões pela guerra. Scowcroft, em uma entrevista à revista "New Yorker", disse que o dogmático vice-presidente mudou muito desde os dias que o conheceu como secretário de Defesa.

A popularidade do vice-presidente também sofreu. Pouco após ter assumido o cargo em 2001, dois em cada três norte-americanos apoiavam o seu trabalho, segundo uma pesquisa USA Today/CNN/Gallup. Esse índice subiu após os ataques de 11 de setembro daquele ano.

Mas, desde então, a popularidade de Cheney vem caindo. No mês passado, uma maioria de entrevistados desaprovou o trabalho do vice-presidente. Uma pesquisa NBC News/Wall Street Journal feita em novembro avaliou a intensidade do sentimento dos eleitores com relação a Cheney. Entre os entrevistados, 33% disseram que possuem sentimentos "muito negativos" em relação ao vice-presidente: enquanto apenas 10% afirmaram nutrir sentimentos "muito positivos".

Pela primeira vez, uma maioria na pesquisa do USA Today feita entre 11 e 13 de novembro --incluindo um entre cada cinco republicanos-- afirmou que Cheney geralmente "não deu bons conselhos capazes de ajudar a administração", e sim "maus conselhos que criaram problemas".

É esse o assunto da capa da edição desta semana da "The New Yorker". Em um desenho intitulado "The Odd Couple" ("O Estranho Casal"), Cheney é um raivoso Oscar Madison, esparramado em uma poltrona em meio a pontas de charuto e latas vazias de cerveja. Bush é um consternado Felix Unger, com uma mão na cintura, observando a bagunça.

Funcionários da administração negam que a única opinião que conta em relação a Cheney --a de Bush-- mostre algum sinal de se tornar negativa. "Estou freqüentemente com eles, e presencio o mesmo relacionamento forte e positivo que eles sempre mantiveram", garante o secretário do Tesouro, John Snow.

Mas alguns indivíduos em Capitol Hill (o prédio do Congresso dos EUA) dizem que a queda nas pesquisas e o indiciamento do chefe de gabinete I. Lewis "Scooter" Libby tornaram o vice-presidente menos efetivo no papel de grande arma da Casa Branca no Congresso. Durante meses Cheney fez lobby por trás dos bastidores contra a emenda que proibe a tortura, proposta pelo senador John McCain, republicano do Arizona.

A emenda foi aprovada no Senado por 90 votos a nove.

Por que a Casa Branca perdeu?

"A resposta simples é que a maioria dos membros não concorda com o vice-presidente", diz o presidente do Comitê de Relações Exteriores no Senado, Richard Lugar, republicano por Indiana, um dos 46 republicanos que divergiram de Cheney quanto à questão. "Para prevalecer, ele teria que indicar de forma mais persuasiva por que a tortura atende aos melhores interesses da segurança dos Estados Unidos".

O senador Charles Schumer, democrata por Nova York, diz que a votação desequilibrada "fala por si própria" ao ilustrar a reduzida influência de Cheney. "Até mesmo a maioria esmagadora de republicanos votou contra ele", diz Schumer. "Não sei se isso poderia ter ocorrido há alguns anos, especialmente em se tratando de uma questão na qual ele investiu tanto".

O assessor de Cheney, Steve Schmidt, nega que isso corresponda à realidade, e Matalin declara secamente: "Capitol Hill o adora". Cheney continua sendo procurado como arrecadador de verbas. Neste ano, ele participou de eventos políticos para 16 candidatos à Câmara e sete ao Senado.

"Isso não significa que Cheney não seja ouvido por muitos em Capitol Hill, mas a sua imagem genérica de o homem sábio da administração acabou", afirma Marshall Wittmann, assessor no Senado para McCain de 2002 a 2004, e que agora está no centrista Conselho de Lideranças Democratas.

"Cheney é nitidamente visto como um dos maiores proponentes da guerra, e, à medida que cai a popularidade do conflito, a de Cheney também diminui", explica Wittmann. "Depois, veio o golpe de misericórdia, que foi o indiciamento do seu chefe de gabinete".

Quando Libby foi acusado pelo conselheiro especial Patrick Fitzgerald de cometer perjúrio e de obstruir a Justiça, Cheney não cedeu. Ele aceitou a renúncia de Libby com "profundo pesar", e chamou o ex-assessor de "um dos indivíduos mais talentosos e capazes que já conheci". Cheney o substituiu por um antigo assessor, David Addington.

O ex-senador por Wyoming, Alan Simpson, diz que Cheney, seu amigo há 40 anos, está sendo massacrado por repórteres frustrados por não conseguirem uma entrevista com o vice-presidente (Cheney se recusou a ser entrevistado para esta reportagem).

"Eles vêm tentando demonizá-lo, e procuram colocar chifres e rabo no vice-presidente", diz Simpson, referindo-se aos críticos de Cheney. "Mas ele não dá a mínima para essa gente".

Segundo Simpson, Cheney está certo de que a história lhe fará justiça. E ele pode se dar ao luxo de olhar as coisas sob o prisma do longo prazo. Desde 1920 todos os vice-presidentes em segundo mandato manifestaram ambições para chegar ao cargo máximo.

Por um lado, a falta de ambição política de Cheney faz com que a sua lealdade a Bush não seja maculada por cálculos pessoais. Por outro, ela faz com que haja uma tendência de se ver o presidente como uma figura decorativa.

"Essa atitude tem encorajado aqueles que alimentam ambições quanto à presidência a virem aqui um pouco mais cedo para se exibirem", afirma Tom Rath, membro do Comitê Nacional Republicano de New Hampshire, Estado onde serão realizadas as primeiras eleições primárias, que definem os candidatos dos partidos Democrata e Republicano à presidência dos EUA.

"À medida que esses indivíduos dão as caras, eles falam mais sobre as suas posições quanto às questões em pauta, e têm menos propensão a se alinharem à rota seguida pela Casa Branca".

Mais uma coisa: isso deixa Cheney à vontade para minimizar a importância dos críticos. Eles o citam como sendo o principal exemplo de autoridade que teria exagerado as informações de inteligência a fim de defender a invasão do Iraque, e que subestimou os custos da guerra que se seguiria.

Quando o grupo liberal MoveON.org Political Action decidiu transmitir pela televisão uma propaganda contra a guerra no fim de semana de Ação de Graças, a imagem inicial mostrava uma foto de Bush.

"Eu sugeri que colocássemos uma foto de Cheney também", conta Tom Mazzie, diretor do grupo em Washington. "Cheney é visto como um tipo de supervilão de revista em quadrinho por muitos norte-americanos", um "arquiteto da burla" quanto à guerra.

A versão final da propaganda mostrava Bush e Cheney juntos.

Nas últimas semanas, Cheney assumiu no seu gabinete o tradicional papel de cão de ataque, denunciando os críticos do presidente com uma linguagem dura.

Em um discurso em um jantar de gala, o vice-presidente disse que as acusações de que Bush enganou propositadamente os norte-americanos são "desonestas e censuráveis".

No dia seguinte, o deputado John Murtha, democrata pela Pensilvânia, um veterano do Corpo de Fuzileiros Navais que atuou nesta força durante 37 anos, pediu que as tropas dos Estados Unidos fossem retiradas o mais rapidamente possível do Iraque.

Contra Cheney, Murtha disparou o seguinte torpedo: "gosto de caras que conseguiram cinco dispensas de serviço militar, e que nunca estiveram em combate, mas que ainda assim enviam pessoas para a guerra, e depois não gostam de ouvir sugestões sobre aquilo que precisa ser feito". Cheney recebeu cinco dispensas do serviço obrigatório, e não serviu nas forças armadas durante a Guerra do Vietnã.

Uma semana depois, Cheney elogiou o serviço militar de Murtha, mas continuou atacando, sem citar nomes, os críticos que acusam a Casa Branca de promover uma "falsificação deliberada" ao fazer a guerra. "Esse é um revisionismo da variedade mais corrupta e desavergonhada", afirmou Cheney.

Esse discurso foi proferido no American Enterprise Institute, um grupo de pesquisa empresarial em Washington no qual a sua mulher, Lynne, trabalha. Ele costuma discursar para colaboradores republicanos, soldados e outras platéias que lhe são amigáveis. Cheney quase nunca responde a perguntas feitas por repórteres. Quando ele concede entrevistas, os seus interlocutores geralmente são jornalistas conservadores.

No entanto, até mesmo o apresentador Rush Limbaugh pressionou Cheney em outubro, quando ele compareceu ao seu programa de televisão para apoiar a nomeação de Harriet Miers para a Suprema Corte. "Os conservadores estão um pouco cansados de atenderem aos desejos da esquerda com relação a todas essas escolhas", disse Limbaugh.

"Bem, creio que não concordo com a afirmação de que isso seja uma tentativa de agradar a esquerda", retrucou secamente Cheney. "Essa não é exatamente uma marca registrada de George Bush".

No mês passado, Cheney discursou perante uma audiência mais diversa na inauguração de um centro de políticas públicas na Universidade do Tennessee que homenageia o líder da maioria no Senado, Howard Baker. Cerca de meia-dúzia de pessoas o vaiou, gritando, "Guerra, para que serve?", e segurando uma faixa com os dizeres: "Paz, já!".

Cheney com relação ao Iraque

  • Antes da guerra:

    Em 26 de agosto de 2002 (convenção de veteranos de guerra, em Nashville): "Colocando as coisas de forma simples, não há dúvida de que Saddam Hussein atualmente possui armas de destruição em massa. Não há dúvida de que ele as acumula para usá-las contra os nossos amigos, contra os nossos aliados e contra nós".

    30 de janeiro de 2003 (Conferência de Ação Política Conservadora, em Arlington, Virgínia): "O regime de Saddam Hussein ajuda e protege terroristas, incluindo membros da Al Qaeda".

    16 de março de 2003 (programa "Meet the Press", da rede de televisão NBC): "Creio que as coisas vão tão mal no Iraque, sob o ponto de vista do povo iraquiano, que a minha crença é que seremos, de fato, saudados como libertadores...".

  • Nos últimos meses:

    20 de junho de 2005 (programa "Larry King Live", da CNN): "Creio que a insurgência está dando os seus últimos estertores".

    16 de novembro de 2005 (jantar da organização Fronteiras da Liberdade, em Washington, D.C.): "E a insinuação que foi feita por alguns senadores norte-americanos de que o presidente dos Estados Unidos ou qualquer membro desta administração enganou propositadamente o povo norte-americano no que diz respeito a informações de inteligência antes da guerra é uma das acusações mais desonestas e censuráveis que já foram divulgadas nesta cidade".

    21 de novembro de 2005 (American Enterprise Institute, em Washington, D.C.): "As falhas da inteligência são, em retrospecto, bem óbvias, mas qualquer sugestão de que as informações do pré-guerra foram distorcidas, exageradas e fabricadas pelo líder da nação é totalmente falsa". Famoso por nunca admitir erros, vice-presidente americano, Dick Cheney, é visto como um tipo de supervilão de revista em quadrinho por muitos norte-americanos, um arquiteto da burla quanto à guerra Danilo Fonseca
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