Neva sobre a cultura de crise em Washington

Chuck Raasch
Comentarista político
Em Washington

John F. Kennedy certa vez descreveu esta cidade como um modelo de encanto do norte e eficiência do sul. Quando caiu a primeira nevasca da temporada, no início de dezembro, não poderia haver uma observação mais verdadeira.

A cidade basicamente ficou aterrorizada. Com previsões de 15 centímetros de neve, as pessoas deixaram o trabalho cedo e correram para casa, as escolas fecharam e os telejornais aconselharam os espectadores a comprar papel higiênico e leite antes que fosse tarde. (Nunca ficou claro por que papel higiênico é considerado um artigo básico em emergências no Distrito de Colúmbia, mas é. Talvez as pessoas pensem que serão forçadas a hibernar.)

Como alguém que cresceu em Dakota do Sul, onde a neve pode ser tão pesada que os veículos hasteiam bandeiras para evitar colisões nas estradas rurais obstruídas, nunca deixou de me surpreender como a mera sugestão de neve provoca uma reação de hecatombe na capital do país.

Mesmo depois de morar aqui há quase um quarto de século, ainda acho divertido ver as pessoas abandonar os carros porque não conseguem dirigir em dez centímetros de lama, ou ver os estudantes ficar em casa por causa de uma precipitação rápida.

Existem diversas teorias sobre por que este lugar fica tão paranóico sob o manto branco de alguns bilhões de flocos. Minha favorita é a teoria do motorista sulino --isto é, já que Washington fica na fronteira entre o norte e o sul, a metade de seus motoristas cresceu sem experiência de condução na neve, e assim entra em pânico só de pensar.

Outra teoria alega que com tantos níveis governamentais administrando a reação, a coordenação é muitas vezes deficiente. Mensagens confusas vêm de diversas jurisdições, dependendo do medo de superintendentes de escolas, policiais municipais, autoridades federais, militares e empresas privadas espalhados por dois Estados e o Distrito de Colúmbia.

Quando essa última "tempestade" acabou sendo pouco mais que uma poeira branca --os meteorologistas se enganaram mais uma vez--, a lenda da falsa reação em Washington cresceu. Mas também provocou outro pensamento: a maneira como a capital lida com a neve é muito parecida com o modo como enfrenta tudo o mais.

  • Ponto 1:

    Em Washington, tudo é uma crise --esteja caindo sobre nós hoje ou não. Existe uma "crise" na previdência social que nos atingirá em algum momento desta década ou em 2018 ou 2042, dependendo de em quem você acredita. Existe uma crise de imigração --as fronteiras são porosas, milícias civis estão se formando e somos atropelados por trabalhadores ilegais e potenciais terroristas.

    Dependendo do dia da semana, existe uma crise no atendimento de saúde, nas aposentadorias, em ações jurídicas frívolas, no clima, no uso da energia, na dívida, no aborto ou nos direitos ao aborto, na formação da Suprema Corte, no uso de drogas nos esportes.

    Temos uma crise de crises. Por isso, quando a neve literalmente cai do céu --algo que de fato ninguém pode controlar--, ora, bem, o céu está realmente caindo.

  • Ponto 2:

    Para toda crise existe uma burocracia ávida para abordá-la em Washington. O Departamento de Administração de Pessoal dos EUA emitiu no mês passado um memorando de 15 páginas --sim, 15-- intitulado "Procedimentos de Dispensa ou Fim de Expediente na Área de Washington, D.C." Ele se destina a fazer frente a qualquer coisa, de terrorismo a tempestades de neve.

    Se você pensa que tudo foi abordado nas 15 páginas, engana-se: havia pelo menos sete referências a sites na web com detalhes da diretriz, de modo que ela é na verdade muito mais longa. É duvidoso que exista um cenário imprevisto, incluindo orientações para reagir à crise para um "funcionário de telesserviço" em "horário de trabalho alternativo" que não tenha um cargo "de missão crítica".

    O memorando indica que há pelo menos cinco cenários possíveis para o governo durante um desastre: "Aberto", "Fechado", "dispensa não agendada", "chegada retardada" e "dispensa antecipada". Depois existem subcategorias destas e categorias separadas para as pessoas chamadas de "funcionários de emergência" e aquelas chamadas de "funcionários de emergência em missão crítica".

    Esta última categoria me chamou a atenção. Com as indústrias privadas americanas cortando empregos em busca de eficiência e maior produtividade, todos os funcionários federais não deveriam ser "de missão crítica"? Reação da capital à neve ilustra o atual pensamento americano Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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