Peter Jackson faz versão definitiva de 'King Kong'

Susan Wloszczyna
Em Nova York

Quando maior o mito, maior a queda. E poucas lendas do cinema foram maiores, ou tomaram uma queda maior do que King Kong. Aquele tombo do alto do Empire State Building foi extraordinário.

Mas não dá para manter um grande macaco caído indefinidamente.

Esse animal maior que a vida, e que já reinou na Ilha do Esqueleto, infestada por dinossauros, e saiu à solta por Manhattan, na fantasia cinematográfica de 1933, proporcionou às platéias da era da Grande Depressão a dose de escapismo que elas tanto desejavam.

Pierre Vinet/Universal Pictures via NYT 
Naomi Watts na mão de Kong em cena do novo filme do diretor Peter Jackson
Atualmente, Kong expõe corajosamente a sua idade avançada. Os seus dentes estão maltratados (especialmente aquele incisivo inferior direito meio mole), a sua pelagem grisalha está emaranhada e enlameada, e a face e o peito estão cobertos de cicatrizes obtidas em ferozes batalhas.

Mas, conduzido pelo diretor Peter Jackson, ganhador do Oscar e consagrado com a série "O Senhor dos Anéis", um homem que nunca esqueceu o gorila dos seus sonhos de criança, Kong segue a frente em toda velocidade pela traiçoeira vereda da celebridade conhecida como "trilha do retorno".

Ele está maior (o filme de três horas de duração é quase duas vezes mais longo do que o original) e potencialmente melhor, a se acreditar na empolgação inicial (Jack Mathews, do jornal "The New York Daily News", proclama: "Este macaco é demais!"), e abre caminho rumo aos cinemas, nos quais estreará na próxima quarta-feira (14/12).

Andy Serkis, o membro do elenco de "Kong" que entra literalmente na pele do primata como a sua contraparte humana, diz que o seu colega está grato por mais essa chance de se apresentar perante o público. Mas, com a sua falta de habilidade verbal, e a sua timidez digna de uma Greta Garbo, ele tem dificuldade de demonstrar tal gratidão.

"Ele é inamistoso, agressivo e não quer que ninguém mais apareça no seu trailer", imagina o ator britânico que, anteriormente, também foi altamente elogiado pela sua performance, turbinada pelos efeitos especiais, no papel de Gollum, nos filmes da série "O Senhor dos Anéis". "Ele já se machucou muitas vezes. Chuta as coisas pelo cenário e grunhe. 'Esse filme é ruim. Não deveria ter aceitado protagonizá-lo'. Até que alguém o tranqüiliza. 'Tudo bem, você pode fazer esta cena'. Depois disso, ele se empolga".

Tratando King como realeza

Jackson está bem consciente da pesada responsabilidade que carrega sobre os ombros, ao trazer o seu herói favorito do cinema de volta para o foco dos holofotes.

"Eu o adorava como personagem", conta Jackson, relembrando o vínculo que estabeleceu com a besta-feira quando tinha nove anos de idade. "Gostava demais da forma corajosa como ele lutava com os dinossauros, e adorava a emoção transmitida pelo filme. E também o pesar terrível que sentíamos quando ele morria. A gente descobria que os seres humanos sempre acabam destruindo as coisas misteriosas e belas deste mundo. Não conseguimos deixar de bagunçar tudo".

Mas não há nenhuma bagunça quanto a este filme. O tolo peludo está recebendo um tratamento integral classe-A. Um orçamento polpudo de US$ 207 milhões. Uma animação computadorizada de última geração. Seqüências de ação de tirar o fôlego. O apoio da queridinha da crítica, Naomi Watts, no papel da sofrível atriz Ann Darrow. Um enredo embelezado, mas ainda bastante fiel àquele de 1933, e repleto de toques extras de emoção.

Além do mais, há suficiente alvoroço de marketing para agradar ao próprio barão da propaganda do filme, Carl Denham, interpretado com uma alegria insincera por Jack Black, que faz maquinações no sentido de transformar o seu prisioneiro colossal em uma atração da Broadway.

Já sem fôlego, os analistas de desempenhos nas bilheterias já pensam em números da ordem de grandeza do "Titanic" --o que significa que o gorila precisará arrecadar mais de US$ 600 milhões no mercado doméstico para superar o maior sucesso de bilheteria de todos os tempos.

Por ora, tudo não passa de conversa. Mas se Sylvester Stallone é capaz de fazer mais um episódio de Rocky, ou de se realistar como Rambo, por que Kong, que bateu os recordes de bilheteria na sua época, não poderia atuar mais uma vez?

"Não creio que se possa jamais descartar a atração básica exercida por um macaco gigante foragido", diz Lisa Dombrowski, professora de cinema da Universidade Wesleyana. Embora alguns candidatos ao Oscar, como "Munich" e "Memoirs of a Geisha" façam sucesso nas telas multiplex, "King Kong" poderia ser aquela estória correta, que jamais envelhece, capaz retirar os cinéfilos do estado de tédio atual em que se encontram.

"Sem dúvida alguma, esse é um entretenimento escapista, mas que traz o potencial para nos tocar emocionalmente", explica Dombrowski. "E foi nesse terreno que a maioria dos últimos filmes grandiosos fracassou. Há menos coisas em jogo. O truque é nos fazer acreditar naquele mundo de dinossauros e macacos gigantes, e conseguir que nos preocupemos com os personagens ameaçados por essas criaturas".

John Landis, o diretor veterano ("Trocando as Bolas", EUA, 1983; "Clube dos Cafajestes", EUA, 1978) que se apaixonou por gorilas desde que bateu os olhos pela primeira vez em King Kong, descarta a idéia de que a criatura possa estar com o prazo de validade vencido.

"'King Kong' é realmente um dos mais potentes mitos do cinema", insiste ele. "Ele está junto a Homero. O mito é retumbante, e é possível lê-lo sob os aspectos racial, sexual ou sócio-político. Kong é sempre relevante".

Ressuscitando uma carreira realmente grande

Mas a tarefa de trazer o desajeitado King de volta a um trono do século 21 não é tão fácil quanto parece.

A criatura pesadona jamais foi um ator dos mais versáteis. O símio simplesmente interpreta variações de si próprio no filme. Ele se assanha todo quando se depara com mulheres bonitas. O seu fim trágico pode ter feito com que corressem rios de lágrimas, mas a besta ruidosa jamais fará um solilóquio como Hamlet.

E ele tampouco está tão enérgico e viril como há 72 anos, quando, como um jovem ruidoso e irado, carregou a bela e barulhenta Fay Wray até o alto do maior arranha-céus do mundo.

Assim como ocorreu com os biplanos que o derrubaram cruelmente do seu mirante urbano, a capacidade da Oitava Maravilha do Mundo de assustar diminuiu com o passar dos anos. As incontáveis retransmissões na TV do seu triunfo cinematográfico original em preto-e-branco são uma ducha de água fria para uma geração sintonizada nas resplandecentes maravilhas digitais de "Guerra nas Estrelas" e de "Harry Potter". Os japoneses fizeram sushi da sua reputação com o absurdo "King Kong versus Godzilla", em 1962.

A reedição de 1976, com o cenário contemporâneo, cercada de sensibilidades ecológicas e marcada por um diálogo fatal da era da discoteca (Jessica Lange se sacode desafiadoramente e acusa a criatura de ser um "macaco-porco chauvinista"), reduziu ainda mais o impacto do personagem.

E o primeiro superastro dos efeitos especiais de Hollywood é muitas vezes vítima da concorrência de seres menos evoluídos. Nesta temporada de "Survivor", da CBS, o desajeitado concorrente Judde confessou que se sentiu tão confiante quanto King Kong. Assim como Kong, ele foi abatido pela tribo na semana passada.

Mas trabalhar com Jackson equivale a ganhar um prêmio multimilionário na loteria. Um devoto do filme original que está no topo da lista de diretores mais famosos, Jackson tem um grande apetite pelas narrativas de estilo tradicional. Ele poderia ser a pessoa perfeita para resgatar o outrora poderoso personagem da prateleira kitsch que ocupa na nossa psique cultural.

Jackson sabe que as audiências de hoje, que assistem a tudo, não se deixam impressionar tão facilmente como as de 1933. "Provavelmente dois ou três anos atrás nós cruzamos um ponto a partir do qual a tecnologia passou a permitir que tudo pudesse ser feito", explica o diretor.

"Tudo o que você imaginar pode ser colocado na tela de uma maneira realista. Quando se atinge tal ponto, o problema não é mais a técnica, e sim o conteúdo. Possivelmente chegaram ao fim os dias das superproduções de grandes efeitos especiais, mas destituídas de conteúdo".

Aprovação de Wray

A filha de Wray, Victoria Riskin, 59, cuja mãe morreu no ano passado, aos 96 anos, diz que a atriz aprovou o envolvimento de Jackson, ainda que tenha recusado uma oferta para fazer uma ponta no filme. "Ela gostou muito de Peter, e não sabia sequer que ele ganhou todos aqueles Oscars. Se Merian C. Cooper (co-diretor do "Kong" de 1933) estivesse fazendo o filme hoje, ele teria usado as mesmas técnicas utilizadas por Peter".

Bob Burns, historiador especializado em cinema e colecionador, que faz uma ponta no filme, diz que Jackson não está tentando tirar proveito do velho macaco. "Dino De Laurentiis (produtor do "Kong" de 1976) fez o filme por dinheiro. Já Peter está fazendo o seu filme pelo animal. Isso aparece na tela. O que ele consegue atingir na tela por meio da sua equipe de animação é algo equivalente a um macaco original".

Fazia muito tempo que Kong não era levado tão a sério. A falta de ribaltas abalou a sua confiança e azedou o seu comportamento.

"Ele está um pouco ranzinza e velho", admite Jackson. "Mas Kong é uma alma bastante genuína. Não precisamos ser pretensiosos com relação a ele, e tampouco elogiá-lo excessivamente ou polir demasiadamente o seu ego. Tudo o que temos que fazer é tratá-lo como um gorila normal".

Para Kong, o sucesso nas telas reside integralmente na maneira como se atua

Peter Jackson e a sua equipe de artistas neozelandeses não obtiveram mais de US$ 3 bilhões em todo o mundo e conquistaram 17 Oscars simplesmente surfando na onda de fama da série literária "Lord of the Rings". Eles orquestraram o retorno de King Kong com uma precisão similar. Qualquer profissional do setor de olho na fama faria bem em ouvir algumas dicas a respeito da reabilitação de Kong:

  • Aja de acordo com a sua idade

    Em 1933, Kong era como um adolescente desajeitado passando por uma fase de erupção hormonal, demolindo barreiras, esmagando todos os inimigos e espiando o seu objeto de desejo sobre as suas mãos enormes --a contorcida e loura Ann Darrow (Fay Wray), que reagiu com medo.

    Mas ninguém deseja ver o mesmo velho e sujo animal agarrar uma doce jovem. Acabaram as cócegas na barriga, o farejamento dos dedos e a remoção da lingerie como se esta fosse a casca de uma banana. Ele e Naomi Watts, como Ann, estão mais unidos como parceiros platônicos.

    "O amor deles é incondicional", explica Andy Serkis. "Ela o revigora. Ele é novamente o macho alfa".

    "A sexualidade não está realmente no cerne da história de Kong. As pessoas se focalizaram nisso em retrospecto. Há excelentes fotos de uma gorila chamada Koko que se comunica com linguagem de sinais. Ela certa vez recebeu um gatinho como animal de estimação, e há ótimas imagens dela o abraçando maternalmente. Eu sempre vi Ann e Kong dessa maneira".

  • Aja naturalmente

    O Kong original desrespeitou várias regras básicas referentes ao comportamento dos gorilas. Ele mastigou vítimas de carne e osso (os gorilas são vegetarianos), deu início a episódios violentos (eles são criaturas mansas, que só lutam quando ameaçadas), e andou de pé (os gorilas são quadrúpedes).

    Mas Serkis, que criou vínculos com os gorilas que estudou nas selvas de Ruanda, exigiu que as ações de Kong fossem as mais realistas possíveis. "Pete queria que ele mastigasse uma perna de dinossauro. Mas eu lhe disse que era preciso preservar a integridade do comportamento do gorila".

  • Trabalhe o relacionamento

    O gorila amadureceu consideravelmente como ator. Com a assistência de Serkis, Kong e Watts foram capazes de, juntos, expressar emoções de uma forma que não era possível em 1933.

    "Embora o Kong atual não emita palavras, ele é bastante expressivo, mas, às vezes, repleto de fúria, e, a seguir, incrivelmente gentil e compassivo para com os outros. É algo similar a um relacionamento doméstico. Ok, ele está de mau-humor. O negócio então é simplesmente deixá-lo ler o jornal e voltar à sua caverna cerca de duas horas depois", diz Watts.

    E Serkis acrescenta: "Em se tratando de Kong, tudo se resume aos olhos, às manifestações físicas e ao movimento corporal. Por meio dos olhos, Ann Darrow projeta aquilo que sente com relação a ele, e o que ele sente em relação a ela".

    Jackson, que tentou recriar "Kong" pela primeira vez ao 13 anos de idade, no quintal da sua casa, achou difícil dizer adeus ao grandalhão.

    "Sou muito emotivo com relação a Kong", explica o diretor. "O último rolo de filme foi realmente difícil de editar. Precisei vê-lo no Empire State Building diversas vezes, e isso foi algo realmente difícil. Em determinado momento, tive que sair da sala e caminhar um pouco, porque a sensação era muito intensa".

    Kong ontem e hoje

    Eis aqui alguns fatos sobre o macaco, enquanto você espera a nova versão do filme:

  • A altura de Kong

    1933 - Os cartazes sobre o filme anunciavam uma besta-fera de 15 metros de altura. Mas, na realidade, o macaco, interpretado por um boneco de 46 centímetros, foi ampliado para 5,5 metros na Ilha dos Esqueletos, e 7,3 metros em Manhattan.

    2005 - A animação por computadores mantém a altura de Kong fixa em 7,6 metros.

  • O peso de Kong

    1933 - o pioneiro da animação, Willis O'Brien, que deu vida ao macaco gigante, certa vez fez uma estimativa excessiva do peso de Kong, calculando que ele tinha 38 toneladas.

    2005 - 3,6 toneladas.

  • O orçamento de Kong

    1933 - O filme custou entre US$ 513.242,02 e US$ 670 mil.

    2005 - US$ 207 milhões.

  • Desempenho de Kong nas bilheterias

    1933 - Um recorde de US$ 89.931 durante os primeiros quatro dias de exibição em Nova York (quando os ingressos custavam 15 centavos) e US$ 1,7 milhão na sua exibição inicial pelo mundo.

    2005 - Os ingressos começarão a ser vendidos na quarta-feira.

  • As continuações de Kong

    1933 - "O Filho de Kong". Filmado e lançado apenas nove meses após a estréia do primeiro "Kong", essa continuação apressada mais uma vez estreou Robert Armstrong como o showman Carl Denham, que retorna à Ilha dos Esqueletos e se depara com uma versão menor do grande macaco morto.

    2005 - Ainda não há nenhuma continuação planejada. Como brincadeira de 1º de abril, Peter Jackson anunciou que estava trabalhando com os filmes "King Kong: O Filho de Kong", e "King Kong: No Covil do Lobo", em uma passagem do seu diário de vídeo online. Piadas a parte, ele insiste em dizer que não fará nenhuma continuação. Mesmo assim, a Universal Pictures poderia criar uma série com base em "Kong". Segundo analistas, o filme poderá alcançar a bilheteria de "Titanic" Danilo Fonseca
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