O amor não é mais separado pela cor na televisão

Ann Oldenburg*

Uma das cenas mais doces apresentadas pela televisão recentemente foi a muito esperada reunião de Bernard, o sujo sobrevivente do avião de "Lost", com sua mulher calma e amorosa, Rose.

Rose é negra. Bernard é branco.

Além disso, um dos relacionamentos mais apimentados da televisão atualmente desabrocha entre médicos de "Grey's Anatomy", a mal humorada e atraente Cristina Yang, que é asiática, e Preston Burke, que é negro.

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Isaiah Washington interpreta o Dr. Burke, que vive em "Grey's Anatomy" um caso amoroso com ...
Casais inter-raciais subitamente fazem parte de vários programas da televisão, inclusive "Grey's", "Lost", "My Name is Earl" e "ER".

Mas esses casais na telinha não geram mais o tipo de atenção e reação dos anos 60 e 70. Os romances entre pessoas de diferentes cores estão sendo encarados com mais naturalidade, e a diferença racial não é mais uma questão problemática ou importante do roteiro.

"Honestamente, nós nem falamos sobre isso, nem pensamos que é um casal inter-racial", disse o produtor executivo de "ER", David Zabel, quando os personagens Neela Rasgotra, que é de descendência indiana, casou-se com Michael Gallant, que é negro.

Pessoas mais jovens hoje nem observam a diferença racial, diz ele. "Não traçam esses limites. Assista à MTV e verá vídeos com todo tipo de pessoas interagindo."

Em "Grey's Anatomy", a diferença de raça entre os amantes não foi abordada. Em vez disso, outras diferenças foram ressaltadas. A personagem de Sandra Oh é bagunçada; o de Isaiah Washington é arrumado. Ela é judia; ele não é; ele é espiritualizado; ela não é.

A autora/produtora executiva Shonda Rimes disse que o casal surgiu do processo de seleção de atores, tendo em mente quem seria melhor para o papel.

Washington, que faz o papel de Burke, não quis falar sobre o romance de seu personagem, dizendo que o importante é que o casal existe tranqüila e alegremente, sem se tornar uma questão.

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... a Dra. Cristina Yang, a tímida e apaixonada médica vivida pela atriz Sandra Oh; série é sucesso
Foi este também o sentimento exposto por Morgan Freeman, no programa "60 Minutes" de domingo, que a idéia de um mês de história negra é "ridícula" porque separa a história negra da história americana e faz parte de um processo de rotulação que fomenta o racismo.

Mas será que isso reflete um verdadeiro amadurecimento da opinião pública ou é a visão das lentes coloridas de Hollywood?

"A realidade é que casais inter-raciais ainda lidam com o preconceito e o ódio. É bom que tenha menos o elemento trágico. A televisão apresenta o que devemos pensar sobre as pessoas; realmente determina nossos tabus e o que é aceitável. Quanto mais as pessoas vêem representações positivas e normais, menos temores e tabus nutrirão", disse Carmen Van Kerckhove, co-diretora da New Demographic, uma empresa de treinamento em diversidade.

ER

Apesar da indústria de televisão ter sido acusada por muito tempo de não usar atores e atrizes de diferentes raças e etnias, Zabel diz que isso vem mudando lentamente, e "ER" esteve na vanguarda.

Casais de diferentes raças estão no ar desde que o Dr. Peter Benton (Eriq La Salle) e a Dra. Elizabeth Corday (Alex Kingston) formaram um par quente no final dos anos 90. "Esse programa sempre tentou ter uma ampla gama de origens --étnicas, religiosas e culturais", diz Zabel.

Parminger Nagra, que faz o papel de Neela, diz que seria mais estranho se "ER" subitamente contratasse um indiano fazer par com ela. Sua história com Gallant funciona, diz ela.

"Por que essas pessoas não ficariam juntas? São muito apaixonadas pela vida e uma pela outra. Em um nível maior, isso dá esperança às pessoas". E o romance, diz ela, envolve os telespectadores, fazendo-os esquecerem da raça.

Talvez mais tarde a história aborde a raça por meio da família, disse Zabel. É justamente quando a tradição é rompida que há confrontos, e a raça torna-se uma questão.

"Eu sabia que certas pessoas iam olhar e dizer: 'Uma garota indiana saindo com um cara negro.'"

Mas o que elas devem observar é a paixão, diz Nagra. "É importante ter isso na tela. Há tantos relacionamentos assim. Não acho que aparecem suficientemente na televisão."

O racismo é freqüentemente refletido na televisão por crimes de ódio e outras histórias violentas, diz Nagra. "Sabemos que o racismo existe. Vamos mostrar as pessoas se dando bem. Vamos ser positivos."

Nunca houve muitos romances de pessoas de raças diferentes na televisão, pois o veículo sempre teve medo de com isso afastar espectadores e anunciantes.

Em 1957, no programa semanal de rock 'n' roll de Alan Freed, o cantor negro Frankie Lymon foi visto dançando com uma mulher branca. A ABC prontamente cancelou o programa.

Em "Star Trek", quando a tenente Uhura e o capitão Kirk se beijaram (contra sua vontade) em 1968, o evento foi alardeado como o primeiro beijo inter-racial na televisão.

E quando Norman Lear apresentou uma mulher negra e um homem branco como vizinhos casados no programa "The Jeffersons", de 1975, foi considerado um marco.

Na vida real, a diferença está lentamente diminuindo. De acordo com o mais recente censo, os casamentos inter-raciais passaram de menos de 1% em 1970 para quase 6% em 2000. Na medida em que o mundo vai se tornando um caldeirão único, os relacionamentos inter-raciais também aparecem mais freqüentemente na televisão, apesar de tangencialmente, muitas vezes. Alguns exemplos:

  • Grace, de Debra Messing namorou o convidado especial Gregory Hines, em "Will & Grace" em 2000;

  • O personagem de David Schwimmer, Ross, apaixonou-se por Charlie, de Aisha Tyler, em "Friends" em 2003;

  • O Warrick de Gary Dourdan tem uma história com Catherine de Marg Helgenberger em "CSI".

    Então, com a evolução do cenário televisivo, a questão agora é menos sobre a existência de casais de diferentes raças nos principais programas, mas se os autores farão da questão uma parte da história.

    Lost

    Como Hurley, de "Lost", observou pouco depois de ver Bernard: "Então o marido da Rose é branco. Não imaginava isso." Jack, incomodado, rapidamente mudou de assunto.

    Os produtores decidiram que era necessário admitir as diferenças raciais do casal.

    "A coisa que mais gostamos em Hurley é que ele, de alguma forma, é capaz de dizer o que as pessoas estão dizendo em suas casas, mais ou menos ao mesmo tempo em que elas estão falando", diz o produtor executivo de "Lost" Carlton Cuse. "Pensamos que a expectativa de todos seria que o marido dela fosse negro. Queríamos confundir essa expectativa. Todo mundo ia ficar procurando um negro de 50 anos."

    No caso de Rose e Bernard, a história de um casal misto mais velho poderia dar uma história interessante, trazendo questões de segregação e direitos civis. O produtor executivo Damon Lindelof diz: "Isso é algo que estamos planejando", mas não antes da próxima temporada.

    Scott Caldwell, atriz que faz Rose em "Lost", diz que pelo bem da autenticidade da cena de reencontro ela não queria ver ou encontrar seu marido na televisão, então ela e Sam Anderson tomaram cuidado para não usarem a mesma van para as filmagens e evitaram se encontrar enquanto filmavam no Havaí.

    "Como eu não sabia que Bernard era branco, fiz apenas o papel de uma mulher cujo marido estava desaparecido. Na minha mente, eu usava meu marido de verdade, que é um negro de 1m94. Eu estava atuando a partir da minha própria realidade."

    E quando ela descobriu? "Não fiquei chocada, mas surpresa."

    Os telespectadores "reagiram imediatamente", diz ela. "A maior parte da reação foi positiva. Algumas pessoas disseram: 'Por que isso?'"

    Ela acha que teria sido pouco realista não fazer nenhuma menção ao fato nos diálogos do programa, "porque a idéia de um relacionamento inter-racial ainda importa para alguém em algum lugar, então é muito melhor explorá-la do que ignorá-la."

    A observação de Hurley fez sentido, disse ela: "Por que, se você vê 'Lost' como um microcosmo da sociedade, alguém naquela sociedade vai notar o fato. Seria estranho se ninguém notasse. Ainda é uma questão importante."

    Anderson diz: "Foi perfeito Hurley ter dito. E foi perfeito Jack tê-lo ignorado."

    Com ele, pessoalmente, os fãs têm sido positivos. "As pessoas respondem à humanidade da situação. As pessoas não me param para dizer: 'Meu Deus, você tem uma mulher negra'. Elas dizem: 'Se eles não deixassem vocês se reencontrarem, eu ia desligar minha televisão para sempre.' Isso supera tudo."

    Na comédia da NBC "Earl", a raça é tratada com humor irreverente. A ex-mulher de Earl, Joy, é branca e acaba de casar-se com Darnell, que é negro. Ela não quis que seu pai soubesse, temendo uma reação de fúria. No final, ele adora mulheres negras --literalmente.

    Greg Garcia, produtor executivo e autor, diz que os personagens simplesmente se encaixam na situação. "Eles estão agindo normalmente, falando como pessoas de verdade falam."

    Rompendo limites

  • "Grey's Anatomy"
    ABC, domingo, 22h [apresentado no Brasil às quintas às 21h no canal Sony]. O casal: Dra. Cristina Yang (Sandra Oh); Dr. Preston Burke (Isaiah Washington). O relacionamento: importante cirurgião se apaixona por residente. Os opostos se atraem.

  • "Lost"
    ABC, quarta-feira, 21h [no Brasil, às segundas às 20h, pelo AXN].
    O casal: Bernard (Sam Anderson) e Rose (L. Scott Caldwell) O relacionamento: Os telespectadores não sabiam que o marido de Rose era branco, mas sabiam que ela acreditava nele plenamente.

  • "ER"
    NBC, quinta-feira, 22h [no Brasil às 22h das quintas no Warner Channel]. O casal: Dr. Neela Rasgotra (Parminder Nagra) e Dr. Michael Gallant (Sharif Atkins). O relacionamento: Ela é médica do pronto-socorro, ele acaba de voltar do Iraque. Terá sido boa a idéia de casar tão rapidamente?

  • "My Name Is Earl"
    NBC, quintas às 21h [ainda Žnão é exibida no Brasil]. O casal: a ex-mulher de Earl (Jaime Pressly) e Darnell (Eddie Steeples). O relacionamento: Ele trabalha no Crab Shack; ela está atrás do prêmio da loteria de Earl. Earl e Darnell continuam melhores amigos.

    *Colaborou Bill Keveney. Séries agradam ao apresentar novos casais com naturalidade Deborah Weinberg
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