Maioria acha errado o governo fazer propaganda dos EUA no Iraque, aponta pesquisa

Mark Memmott*
Em Washington

Quase três quartos dos americanos pensam que foi errado o Pentágono pagar aos jornais iraquianos para publicar notícias sobre os esforços americanos no Iraque, segundo uma nova pesquisa do USA Today/CNN/Gallup.

O USA Today informou no início do mês que o Pentágono planeja expandir para além do Iraque uma campanha de relações públicas contra o terrorismo, que incluiu pagamentos secretos a jornalistas e publicações iraquianos para publicarem histórias favoráveis aos EUA. Em alguns casos, as histórias serão preparadas pelos militares americanos, como foram no Iraque.

Os militares nem sempre revelarão que estão por trás das matérias, disse Mike Furlong, vice-diretor do Elemento de Apoio a Operações Psicológicas Conjuntas. O programa global será parte de uma campanha de cinco anos de relações públicas de até US$ 300 milhões (em torno de R$ 690 milhões).

A pesquisa mostra que a maior parte dos americanos não aprova esses programas. Dos 1.003 entrevistados entre os dias 16 e 18 de dezembro, 72% disseram que não seria apropriado as forças armadas americanas pagarem secretamente a imprensa iraquiana para publicar histórias favoráveis aos EUA. E quase dois terços disseram que tais pagamentos eram "razoavelmente" ou "muito" incômodos.

Os pagamentos no Iraque foram revelados pela primeira vez no dia 30 de novembro pelo "Los Angeles Times".

"Parece propaganda. Talvez seja favorável aos EUA, mas não é o que o povo americano está pensando e sim o que o Pentágono quer refletir. Isso não me parece correto", disse Sharyn Barkan, 50, de Blue Bell, Pensilvânia, que respondeu à pesquisa.

Críticos vêem padrão familiar

O programa secreto de relações públicas do Pentágono no Iraque tem sido notícia desde que o "Los Angeles Times" revelou que o Lincoln Group, como parte de um contrato de US$ 6 milhões (em torno de R$ 13,8 milhões), tinha pago à imprensa iraquiana para que publicasse anonimamente histórias escritas por militares americanos. As forças armadas iniciaram uma investigação do programa.

O porta-voz do Departamento de Defesa, Bryan Whitman, disse que o Pentágono entende a preocupação do público com o programa de matérias pagas e está revisando as "políticas, procedimentos e desempenho não só dos membros do serviço envolvidos, mas também de civis contratados para isso".

"É importante admitirmos que estamos lidando com um ambiente de comunicações muito duro no Iraque... onde nossos inimigos e adversários praticam a desinformação e mentem sobre o que está acontecendo", diz ele. O objetivo dos militares é dar aos iraquianos "informação boa, precisa e atual", diz ele.

Não houve evidências que as histórias publicadas pelos americanos na mídia iraquiana fossem enganosas, mas esconder que eram escritas pelos militares americanos fez com que se situassem mais na esfera da propaganda do que de relações públicas, disse William Rugh, ex-embaixador dos EUA no Iêmen e Emirados Árabes Unidos e autor do livro de 2004 "Arab Mass Media: Newspapers, Radio and Television in Arab Politics" (Mídia de Massa Árabe: Jornais, Radio e Televisão na Política Árabe).

No início do ano, o público soube que o governo federal fechou contratos com alguns colunistas de jornais nos EUA que apóiam as políticas de governo de Bush. Os pagamentos incluíram US$ 240.000 (em torno de R$ 552.000) ao comentador Armstrong Williams.

Alguns críticos do governo vêem um padrão.

"Tudo isso faz parte de um esforço por parte do governo de manipular a informação", diz David Brock, presidente do grupo liberal Media Matters for America.

Rugh acredita que esse tipo de prática gera questões preocupantes sobre o compromisso do governo americano com a mídia independente. "É totalmente inadequado os militares fazerem isso", diz ele. "Isso mina a reputação dos EUA e o que estamos tentando fazer."

Outros defendem o Pentágono.

"Não acho que houve ofensa aqui. (No Iraque) eles estavam apenas tentando divulgar boas histórias", diz Bill Cowan, diretor executivo da firma de consultoria Wvc3. Ele consta da lista de consultores do Lincoln Group, firma de relações públicas que implantou matérias na mídia iraquiana em nome do Pentágono. Cowan, porém, diz que é apenas conhecido dos gerentes do Lincoln Group e não trabalhou para a firma.

James Wright, 67, sargento aposentado da Aeronáutica, que divide seu tempo entre suas casas no Michigan e no Arizona, está entre os poucos entrevistados que não se preocupam com o que foi feito.

"Desde que estejam pagando para publicar histórias boas e honestas, sou totalmente a favor", diz ele.

O governo tem permissão legal para disseminar propaganda em nações estrangeiras. Mas isso nem sempre é sábio, diz Nicholas Cull, diretor do programa de pós-graduação em diplomacia pública da Universidade do Sul do Califórnia e historiador de propaganda cujo próximo livro terá o título: "Selling America: U.S. Information Overseas" (Vendendo os EUA: Informação Americana no Exterior). Ele questiona a sabedoria de plantar histórias particularmente no Iraque.

"Se funcionar no Iraque, se o povo iraquiano pensar de forma diferente por causa disso, então é justificável. Mas eu ficaria surpreso se isso acontecesse", disse Cull. "O povo iraquiano sabe muito mais do que nós sobre o que está acontecendo por lá."

Outros dizem que as ações do Pentágono são compreensíveis porque os EUA estão combatendo um inimigo cada vez mais justificável, que pode facilmente capturar a atenção da mídia local e internacional com seus ataques mortíferos.

O Pentágono está "tentando nivelar o campo. A oposição é muito esperta e basicamente têm mídia gratuita por lá", diz Douglas Dearth, outro dos consultores do Lincoln Group que diz que não trabalhou para a firma. Ele foi professor do Colégio de Guerra do Exército Americano e é consultor do Ministério de Defesa britânico.

*Colaborou Matt Kelley. Deborah Weinberg

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