Foram más notícias: um olhar sobre os motivos que tornam fácil deixar este ano para trás

Marco R. Della Cava
em Point Reyes National Seashore, Califórnia

Uma faixa de floresta perto do Pacífico abriga beleza, tranqüilidade e terror.

Quando o terremoto que dizimou San Francisco nesta área, em 1906, a
terra aqui se rachou e moveu-se uns sete metros. As evidências são uma
cerca interrompida neste parque nacional varrido pelos ventos, onde os
visitantes literalmente passeiam pela irritadiça Falha de San Andréas.

Quase 100 anos depois da terrível comoção, não é preciso passear ao
longo da Trilha do Terremoto para se lembrar que às vezes o mundo pode
sair assustadoramente do eixo.

O ano foi tão lotado de eventos -alguns naturais, outros da sociedade-
que pareceu validar o pessimismo do Galinho Chicken Little. Se o céu
não estava realmente caindo, certamente estava escuro com tempestades
que varreram Nova Orleans e a costa do Golfo do Mississippi.

Os furacões Katrina e Rita, por si sós, já tornaram 2005 um annus
horribilis. Mas esses flagelos de nomes doces não foram nem o início
nem o fim de um ano cheio de sofrimento.

O início não era promissor: uma pesquisa em janeiro do USA
Today/CNN/Gallup revelou que 46% dos entrevistados estavam otimistas
com a situação nos EUA no ano que se iniciava, caindo de 56% quando o
presidente Bush assumiu o poder, em 2001. Em vez de oferecer alívio, o
ano continuou trazendo eventos dramáticos que conspiraram para criar
um desejo coletivo: "Quando vai terminar?"

Hora de jogar a toalha? "Veja, se você acha que a grama era mais verde
no passado, tenho uma palavra para você: odontologia", diz o
historiador Douglas Brinkley, que está trabalhando em um livro sobre a
inundação de sua amada Nova Orleans. "O papel crucial da história é
nos lembrar que nossos tempos não são extraordinariamente opressivos."

Mas 2005 esforçou-se para ganhar a coroa. Tudo começou há um ano, no
Natal, quando uma tsunami no sudeste asiático levou mais de 275.000
vidas. O verão trouxe os furacões e depois a notícia de um terremoto
no Paquistão. O índice de aprovação de Bush mergulhou depois da lenta
resposta do governo ao Katrina e das investigações sobre Valerie
Plame. Durante tudo isso, nem um momento se passou sem que alguém
mencionasse a gripe das aves, uma ameaça fatal que paira sobre o globo
como um urubu.

Sombrio, sim. Mas trazemos cinco razões para mostrar que esse ano não
foi tão ruim quanto você pensa:

- Sobrevivemos a piores.
No outono, soubemos que 2.000 americanos morreram no Iraque. Um número
trágico, mas Brinkley acrescenta uma observação respeitosa: "Isso é
menos do que um dia (na batalha da Guerra Civil) em Antietam, e muito
menos que os 48.000 mortos no Vietnã. Este não foi um ano maravilhoso,
mas eu não o colocaria nem mesmo entre os piores 50 dos 229 anos de
nossa nação."

Desastres naturais são capazes de provocar muito mais mortes. A Peste
Negra arrasou mais de um terço da população européia, enquanto duas
enchentes do rio Huang He da China mataram mais de 4 milhões de
pessoas nos dois últimos séculos. Os tempos modernos permitem que
esqueçamos com facilidade a fragilidade da existência humana nesta
esfera fundida que gira.

"O único conselho que tenho é tentar aceitar que o planeta é total e
friamente indiferente à humanidade. Somos infinitesimalmente
desprezíveis", diz Simon Winchester, autor de "A Crack in the Edge of
the World" (uma falha no limite do mundo), uma descrição geológica do
terremoto de San Francisco. "Como disse o historiador Will Durant: 'A
civilização existe por permissão geológica, sujeita à mudança sem
aviso prévio.'"

- 2005 pode vir a parecer um passeio no parque.
"Vivemos em um mundo sísmico, e este parece ser um momento
extraordinariamente ativo", diz Winchester, cujo livro situa a famosa
calamidade de 1906 em um ano de extrema volatilidade que incluiu a
erupção do Monte Vesúvio.

Teme-se que o próximo ano traga furacões de maior intensidade, um
surto de gripe de aves que, segundo os especialistas, pode matar até 2
milhões de pessoas e uma prolongada participação militar americana no
Iraque.

"Não há dúvidas de que 2005 foi um ano ruim, mas não há indicações de
que 2006 será melhor. George Will escreveu que os anos 90 foram umas
férias da história. Bem, parece que ela agora voltou à ativa", diz
Rick Shenkman, professor de história da Universidade George Mason em
Fairfax, Virgínia, e editor do site History News Network.

O fato de muitos estarem na linha de fogo não ajuda. "Há porções cada
vez maiores da população sendo expostas a climas extremos. Apesar de
haver enorme negação por parte das pessoas que moram nessas áreas, a
realidade está ficando mais difícil de ignorar", diz James Halpern,
diretor do Instituto de Saúde Mental em Desastres da Universidade
Estadual de Nova York-New Paltz.

- Estamos recebendo todas as más notícias.
Como a notícia hoje viaja pelo mundo no ritmo de uma conexão de
Internet de alta velocidade, parece que estamos no final dos tempos.

Em 1906, poucos moradores de San Francisco tinham consciência dos
tremores que abalavam cidadãos em terras distantes. Então, enquanto
suas vidas estavam arrasadas, suas preocupações não eram multiplicadas
pelo sofrimento dos outros. A ignorância não era sinônimo de paz, mas
era mais fácil para os nervos. "Nesta era, em que somos alimentados
pela Fox News e CNN, não há como escapar", diz Winchester.

E não vai diminuir. "Espere mais de nós, não menos", diz Jonathan
Klein, presidente da CNN/US. "O relógio interno do telespectador está
mais rápido, seu metabolismo para informações aumentou."

Uma advertência bastante óbvia nascida de tanta informação: vigie seus
filhos com cuidado. Imagens de tragédia tendem a "permanecer mais
tempo nos jovens", diz Halpern. "Seus filhos devem ser informados dos
eventos, mas não precisam ser expostos a corpos mortos boiando nos
rios."

- O ser humano é um animal teimoso -no bom sentido.

O que mais explicaria o fato de San Francisco, longe de ser uma cidade
fantasma, hoje abrigar alguns dos imóveis mais caros -e instáveis- do
país? Por que outro motivo as pessoas pensariam em reconstruir Nova
Orleans, se não para provar que o homem pode triunfar sobre os
elementos?

"É nossa natureza; construímos em cima de falhas e moramos perto de
praias arrasadas por tempestades", diz Lee Davis, autor de "Natural
Disasters: From the Black Plague to the Eruption of Mount Pinatubo"
(desastres naturais: da peste negra até a erupção do Monte
Pinatubo). "Esses hábitos não morrem."

- 2005 mostrou que, chova ou faça sol, estamos nisso juntos.
Há duas formas de reagir a uma avalanche de más notícias. Uma é fugir.
A outra é recebê-la como evidência de uma luta comum pela
sobrevivência. "Esta é a luz no fim do túnel que prefiro ver, uma
indicação de nossa humanidade e vulnerabilidade comum", diz Jamie
Drummond, diretor executivo do grupo Data (das iniciais em inglês para
dívida, Aids, comércio e África), fundada por Bono. "O cansaço da
compaixão acontece não quando há muitos desastres, mas quando as
pessoas não entendem o que aconteceu e se distanciam."

Os americanos se aproximaram muito no ano passado, doando US$ 1,5
bilhão (em torno de R$ 3,45 bilhões) para as vítimas da tsunami e
quase o dobro disso depois do Katrina e Rita. O total para o terremoto
deve ultrapassar os US$ 2,8 bilhões (cerca de R$ 6,45 bilhões) doados
depois de 11 de setembro.

Então, com a chegada do ano novo, trazendo ninguém sabe o quê, há
conforto em saber que a humanidade provavelmente já enfrentou e
sobreviveu a coisa parecida. E não pelo individualismo duro, mas pela
humanidade compartilhada. Então, que venha 2006; juntos, podemos
enfrentá-lo.

"Apesar da dureza das tragédias, no longo prazo todos compreendemos
que somos pessoas de compaixão", diz o free-lance Kevin Lockett, que
assistiu aos desastres do ano passado na segurança de seu lar em
Akron, Ohio.

"Ainda acredito que o futuro é brilhante". Deborah Weinberg

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