Al Gore, Trent Lott e o poder da política redentora

Chuck Raasch
Comentarista político
Em Washington

Se alguém observar esta cidade por tempo suficiente, chegará à conclusão de que o número de políticos que ficam no cargo por tempo demasiado é dez vezes maior do que o daqueles que saem antes da hora.

Estes últimos muitas vezes desaparecem do cenário de forma súbita e trágica, como ocorreu quando John F. Kennedy, Paul Wellstone e alguns outros morreram no apogeu de suas carreiras políticas.

É por isso que Al Gore e Trent Lott --dois políticos sulistas veteranos, donos de imagens bem distintas-- protagonizaram histórias tão interessantes nesta semana. De maneiras diferentes, o democrata de esquerda Gore e o republicano de direita Lott provaram que até mesmo nesta cidade cínica, velhas garrafas são capazes de fermentar vinho novo.

Teria sido fácil para o ex-vice-presidente Albert Gore Jr. ter passado o resto da vida como um eremita, algo que muita gente achou que de fato ocorreria quando ele deixou crescer a barba e saiu do cenário público depois de uma agonizante derrota por uma margem insignificante para George W. Bush, em 2000 [quando Gore venceu no voto popular, mas perdeu no Colégio Eleitoral, após a contestada apuração no Estado da Flórida]. Um desapontamento dessa magnitude poderia ter destruído homens de menos fibra.

Mas, nesta semana, em um dos seus discursos mais bem escritos e declamados, Gore expressou de forma contundente aquilo no qual muitos democratas, e até mesmo alguns republicanos, haviam começado a pensar, mas que não conseguiam dizer. Ou seja, que a utilização, por parte do governo Bush, de operações de busca e vigilância eletrônica sem mandades judiciais, assim como outras tentativas de ampliar o poder presidencial, são questões que justificam um vigoroso debate nacional, mesmo em tempos de guerra --e especialmente em tempos de guerra.

"Quando quer que o poder deixe de ser fiscalizado e atue sem responsabilidade, ele conduz, quase que inevitavelmente, a erros e abusos", alertou Gore em um discurso no Constitution Hall, em Washington, sede da organização Filhas da Revolução Americana. "Na ausência de rigorosa responsabilidade e prestação de contas, a incompetência floresce. A desonestidade é encorajada e recompensada".

Ao criticar Bush, Gore sabia que isso seria um convite a um contra-ataque da Casa Branca. Tanto o procurador-geral Alberto Gonzalez quanto o secretário de Imprensa da Casa Branca, Scott McClellan, argumentaram que a utilização de interceptações eletrônicas sem autorização judicial é prática legal e constitucional para um presidente em tempos de guerra. McClellan chamou Gore de hipócrita porque, segundo McClellan, o governo Clinton fez essencialmente a mesma coisa ao invocar poderes de segurança nacional típicos de tempos de guerra ao promover a caçada ao espião Aldrich Ames.

Em todas as vezes que ressurge, Gore deixa atrás de si um resíduo de especulações. Ele não expressou ambições presidenciais para 2008, ainda que, com 57 anos, seja dois anos mais jovem que Bush, e mais novo do que dois terços dos atuais cem senadores dos Estados Unidos.

Aqueles que o conhecem ou que conversaram com ele nos últimos meses dizem que o discurso no Constitution Hall foi mais um exemplo de que Gore se manifesta quando sente que existe algo a ser dito. Desta vez, ele também tinha críticas a colegas democratas, tendo dito sem rodeios que membros dos dois partidos no Congresso estão ou muito atemorizados com relação a Bush ou demasiadamente preocupados com a reeleição para desempenharem as suas tarefas de fiscalização e inspeção do governo.

Enquanto isso, Lott --que poderia ter desaparecido de cena depois de ter sido praticamente rotulado de racista por elogiar desastradamente o falecido Strom Thurmond no aniversário de cem anos do nascimento deste-- anunciou nesta semana que tentará se reeleger. Lott poderia ser perdoado por não tentar conquistar outro mandato depois de ter sido obrigado a renunciar à liderança do Senado em 2002, após os comentários relativos a Thurmond, e certamente depois que a sua casa em Pascagoula, Mississipi, foi arrasada pelo furacão Katrina no verão passado.

Mas Lott está vagarosamente reconstruindo a sua rota de retorno a um potencial cargo de liderança no Partido Republicano. Ele disse que, com 64 anos, se sente tentado a passar bons momentos com a família e a reconstruir a sua casa em paz. "Mas estou escolhendo novamente o Mississipi e os Estados Unidos", afirmou ele.

Lott se transformou em um modelo de perseverança e de trabalho para toda a Costa do Golfo, que necessita desesperadamente destas duas coisas, à medida que se recupera da destruição causada pelo furacão Katrina. Ele disse que a tempestade lhe ensinou que embora o governo possa fazer muita coisa, não pode fazer tudo; que o voluntarismo e a ajuda interpessoal demonstrados após o Katrina são igualmente importantes.

A atitude de arregaçar as mangas e partir para o trabalho, demonstrada por Lott, contrasta intensamente com os divinos comentários do prefeito Ray Nagin, de Nova Orleans, que mergulhou em um jogo de colocar a culpa nos outros. Em observações que fazem lembrar o tele-evangelista Pat Robertson, Nagin disse que o Katrina e outros furacões vieram porque "Deus está furioso com a América" devido ao fato de os Estados Unidos terem invadido o Iraque, e ainda devido ao fato de os negros norte-americanos "não tomarem conta de si próprios". Ex-vice-presidente é um político como vinho --melhora com o tempo Danilo Fonseca

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