Atletas dos X Games agora aceitam Olimpíadas

Sal Ruibal

Shaun White é tudo que se pode esperar de um atleta do festival de esportes alternativos X Games neste final de semana em Aspen, Colorado.

O melhor atleta de snowboard do mundo é multimilionário aos 19 anos; recentemente ele terminou o ensino médio e recebeu créditos acadêmicos para financiar sua casa de US$ 600.000 (em torno de R$ 1,4 milhão) e desenhar sua linha assinada de pranchas Burton para snowboard.

Ele ganhou três carros neste ano, mas seria jovem demais para alugar um se quisesse. Seu apelido é "The Flying Tomato" (Tomate Voador), uma referência ao tufo de cabelo vermelho que sai de seu capacete equipado com um iPod com Led Zeppelin em alto volume.

Ele também é um atleta olímpico de alto perfil; venceu todos os cinco eventos de qualificação de halfpipe e é favorito para a medalha de ouro Olímpica no dia 12 de fevereiro na Itália. A NBC está apresentando White e seu esporte, que requer que os esquiadores façam manobras diante dos juizes enquanto deslizam por um tubo de 140 m congelado.

Apesar dos X Games deste final de semana não terem laços oficiais com as Olimpíadas, o festival de Aspen oferece uma oportunidade para esses dois mundos do esporte se divertirem antes das altas tensões das Olimpíadas em Torino.

Torah Bright, 19, candidato a medalha de halfpipe da Austrália, diz que os dois eventos têm seu espaço: "Os X Games são o maior evento especializado em snowboard e as Olimpíadas o maior evento esportivo em geral. São igualmente importantes."

Em um passado não muito distante, as estrelas dos esportes de ação homenageavam os X Games anuais da Espn e menosprezavam o conservadorismo das Olimpíadas. A atitude mudou dramaticamente nos Jogos de Inverno de Salt Lake City, em 2002, quando a equipe masculina de halfpipe americana tomou o pódio um dia depois da americana Kelly Clark levar a medalha de ouro feminina.

Antes do final dos jogos de 2002, os esquiadores tinham conquistado oito medalhas do recorde americano de 34.

Até Gordon C. Hinckley, líder da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, com 92 anos na época, ficou entusiasmado. "Essa coisa de halfpipe! Nunca tinha visto. Adorei! É uma loucura, subir e virar de cabeça para baixo", disse ao USA Today.

"É impressionante como uma competição pode trazer tanta atenção ao esporte", disse White. "Quando andava de avião e falava para as pessoas que competia nos X Games, alguns sabiam o que era, mas a metade não. Todo mundo, porém, sabe das Olimpíadas. São realmente como os X Games para o mundo!"

Conquistar o reconhecimento olímpico e respeito não foi fácil para o esqui livre e o snowboard.

Tradicionalistas da Federação Internacional de Esqui e da Equipe de Esqui dos EUA não estavam querendo acrescentar "mais contorcido" ao seu lema de "Mais rápido, mais alto, mais forte."

Nos anos 70, a Associação de Esqui dos EUA, na época uma organização separada da Equipe de Esqui americana, promoveu o esqui livre, apesar da oposição em casa. O esqui livre, que requer que os esquiadores se lancem de cima de rampas cobertas de neve e façam manobras complicadas, foi adotado como esporte de demonstração em 1988. A categoria mogul passou a receber medalhas em 1992 e a aérea em 1994.

O snowboard, com suas raízes no surfe e não no esqui, teve problemas porque o esporte vinha de outra cultura. Os maiores rivais do snowboard americano hoje, curiosamente, são Alemanha e Finlândia, duas nações mergulhadas em tradições de esqui alpino e nórdico.

"Alguns pais e organizações locais de snowboard nos procuraram pedindo ajuda. Eles queriam saber como organizar eventos e ter cobertura da televisão, que é o que nós fazemos", diz Tom Kelly, vice-presidente da Associação Americana de Esqui e Snowboard.

O snowboard chegou aos Jogos de Inverno de 1998, mas o choque cultural ficou evidente quando as maiores notícias vinham dos laboratórios e não das
pistas: o exame do medalhista canadense Ross Rebagliati deu positivo para maconha e ele foi temporariamente destituído de sua medalha.

O exame foi rapidamente anulado, mas o estrago estava feito.

"Não fomos levados a sério em 1998", diz o veterano de snowboard americano Todd Richards, que vai participar da cobertura dos X Games e das narrações da NBC nos Jogos de Inverno.

"Tivemos meio segundo na televisão", diz o campeão mundial de 2001. "O tema era como estávamos nos dando mal."

Terje Hakkonsen, na época campeão mundial, comparou o Comitê Olímpico Internacional com a máfia e o presidente do comitê Juan Antonio Samaranch ao gangster Al Capone, de 1920. O norueguês foi surfar durante os jogos de Nagano e incitou outros atletas a evitarem serem corrompidos pelas Olimpíadas.

Até hoje é descrente.

"Tanto os X Games quanto as Olimpíadas têm enormes recursos e são voltados para a televisão, mas o X Games é puramente um evento de esportes de ação e fez mais pelos atletas de esportes de ação", diz ele. "As Olimpíadas não têm a capacidade de se concentrar nos detalhes de cada esporte. Além disso tem os sujeitos mais velhos contando medalhas para seu país. Isso não tem nada a ver com o esporte individual."

Em 1998, Shaun White tinha 11 anos e não tinha idéia do que eram os Jogos de Nagano ou quem eram Hakkonsen ou Samaranch.

"Naquela época, gostava mais de Power Rangers", diz.

Como a maior parte das crianças no Sul da Califórnia, tinha plena consciência da cultura de skate, que nasceu do surfe.

A Espn e os X Games, que tiveram sua estréia em 1995, já estavam explorando o fenômeno. Em contraste com o relacionamento difícil das Olimpíadas com o snowboard, o canal de esportes abraçou o espírito dos novos esportes.

"Vimos que não eram esportes de cima para baixo", diz Chris Stiepock, da Espn. "Não havia times ou treinadores promovendo os meninos. Os próprios garotos definiam os esportes e estabeleceram a idéia de progressão constante, cooperativamente encorajando e estimulando uns aos outros. Esses jovens não se encaixavam na mentalidade de time. Uma das primeiras coisas que fizemos foi criar um conselho de atletas."

A Associação de Esqui americana também estava começando a perceber as diferenças. Quando assumiu o snowboard, não chamou a equipe de time. "Tínhamos a Equipe de Esqui dos EUA, mas os atletas de snowboard eram chamados puramente de U.S Snowboarding", disse Kelly da associação. "Sabíamos que tinha que haver uma abordagem diferente."

Aos 14, White tinha se tornado um fenômeno do skate profissional e provável herdeiro do rei do esporte Tony Hawk. Mas ele também tinha começado a fazer snowboard com seu irmão e irmã e considerou o esporte o equivalente de inverno ao ambiente do skate.

"Decidi tentar ir para as Olimpíadas em 2002", diz ele. "Não consegui entrar na equipe por três décimos de ponto, na última qualificação. Depois, quando tivemos a vitória nas medalhas masculinas, soube que tinha que me dedicar a entrar no time e ganhar uma medalha de ouro."

Ele deixou o lucrativo negócio do skate e se concentrou em Torino. Seus pais fizeram mais uma hipoteca de US$ 50.000 (em torno de R$ 115.000) para financiar seus esforços no snowboard.

"Não tínhamos dinheiro para ficar nos hotéis", diz ele. "Então dormíamos na van, nos estacionamentos."

Apesar de demonstrar grande habilidade, o caminho para as Olimpíadas não foi fácil. Aos 17 anos, afligido por contusões, perdeu grande parte da temporada. Nos dois últimos anos, entretanto, White se tornou a força dominante do snowboard, vencendo quase todos os eventos dos quais participou.

"Ganhei dinheiro suficiente para pagar meus pais e comprar uma casa grande (em Carlsbad, Califónria) onde nós moramos", diz ele. "Também comprei dois apartamentos em Park City, Utah, para eu poder treinar lá. Agora, meus pais estão reformando os imóveis."

Ele tem um contrato lucrativo com a Burton Snowboards; ele e seu irmão Jesse desenham as pranchas e roupas para a empresa.

Os Jogos de Inverno de 2006 serão a primeira vez que White vestirá um uniforme de equipe desde os tempos do futebol no ensino fundamental. Ele diz que ele não tem o menor problema com isso.

"Tenho orgulho de usar o uniforme", diz ele. "Tenho orgulho dos EUA. Fizemos coisas incríveis. Vestir nossa bandeira nas Olimpíadas é uma honra." Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos