"CSI" conquista o público com tramas fetichistas

Bill Keveney
Em Los Angeles

Em "CSI", a maneira como as pessoas vivem pode ser tão bizarra quanto a forma como morrem.

O episódio desta quinta-feira (CBS, 21h) mostra um pirata de um olho só, experiências com seres humanos semelhantes às praticadas pelos nazistas, e uma mulher dominadora com um chicote. E, é claro, assassinos [a série é exibida às 22h de terça-feira pelo canal pago Sony].

Sendo o programa de TV do gênero de maior audiência, com uma média de 26 milhões de telespectadores por semana, "CSI" mantém a sua ampla base de fãs, ainda que os seus detetives que vasculham as cenas de crimes investiguem os mundos de homens crescidos que preferem o universo das fraldas; de gente que fica excitada com parceiros sexuais obesos, os chamados "chubby chasers"; e dos "plushies and furries", um grupo fetichista para o qual o prazer das peles de animais não tem nada a ver com os desfiles de moda de outono.

Vários telespectadores de "CSI" gostam, ou não se importam, de embarcar nas viagens de uma hora por mundos proibidos, vistos da segurança da poltrona de suas salas de estar. Alguns não apreciam aqueles tópicos que são tabus, mas ainda assim gostam de ver Gil Grisson (William Petersen) e a sua equipe utilizar a ciência para resolver crimes. Outros não assistem mais ao programa devido ao seu conteúdo. O Conselho de Televisão para Pais declarou que "CSI" é um dos piores programas para as famílias.

"É uma questão de gosto individual", diz Mirian Smith, que leciona arte da comunicação na Universidade Estadual de São Francisco.

O programa desta semana, "Piratas do Terceiro Reich" (um tributo ao produtor de "CSI" e de "Os Piratas do Caribe", Jerry Bruckheimer), provavelmente terá um conteúdo que reforçará todas as opiniões. O programa desce até o mundo de um serial-killer que faz experiências nazistas. Uma de suas vítimas é a filha alienada de Lady Heather, mulher sexualmente dominadora dada a relações sadomasoquistas.

A sexta temporada da série mergulha mais profundamente nessas aberrações comportamentais do que as "filiais" da série original ("CSI Miami" e "CSI Nova York"). "A coisa tem a ver com Las Vegas, onde o programa é filmado. E em Vegas acontece de tudo", diz a produtora-executiva Carol Mendelsohn. "E o programa da quinta-feira é um dos nossos episódios mais ousados".

"Piratas" é significativo por duas outras razões. Ele marca o retorno de Lady Heather, cujo relacionamento com Grissom fez dela uma favorita dos fãs. E o episódio foi escrito por Jerry Stahl, um escritor e ex-viciado em heroína, que escreveu um livro sobre o seu vício, "Permanent Midnight" ("Meia-Noite Permanente").

Stahl foi o guia das viagens mais bizarras do programa pelos territórios do infantilismo, das cirurgias clandestinas para mudança de sexo, das modelos que se detestam e do sadomasoquismo. Ele apresentou Heather e a sua queda pelo fetichismo na segunda temporada de "CSI".

"Ela é completamente perversa", diz Petersen, rindo. O astro ajudou a recrutar Stahl para o programa, afirmando que as pessoas sentem fascínio pelos reinos desconhecidos e sombrios. "Não há lugar aonde Jerry não irá. E não há nada que ele não perscrutará".

Stahl, que se recusou a conceder uma entrevista, é uma espécie de ímã para atrair a platéia. Os seus episódios da temporada passada, "Ch-Ch-Changes", cujo tema foi o transexualismo, e "King Baby", carregado de fetiches em relação a bebês, foram o primeiro e o segundo com maior audiência da série "CSI", tendo sido vistos, respectivamente, por 31,5 milhões e 30,7 milhões de telespectadores.

Mas alguns telespectadores não gostaram destes episódios. "King Baby", que fala de amamentação, enemas e excrementos, gerou protestos do Conselho de Televisão para Pais, cujos membros entraram com queixas oficiais junto à Comissão Federal de Comunicações. Segundo o conselho, a comissão ainda não lhes respondeu.

"'CSI' costuma explorar as áreas de fetiches sexuais bizarros", afirma Melissa Caldwell, do Conselho de Televisão para Pais. "Eles mergulham em uma profundidade de detalhes que eu creio ser desnecessária para um programa sobre investigação criminal".

Em "Fur and Loathing", de 2003, que foi ao ar na véspera do Halloween, Stahl levou "CSI" a uma convenção de "plushies and furries", pessoas que tem afinidade por bichos de pelúcia e fantasias feitas com peles de animais. O episódio relatou uma peripécia sexual de grupo conhecida como "pilha de peles".

"Ele apresenta aos norte-americanos mundos que eles normalmente não veriam", explica o produtor de supervisão de "CSI", Richard Lewis, que dirigiu o episódio de quinta-feira. "Quando é Jerry que escreve, o resultado é sempre mais sinistro e ousado".

De acordo com Mendelsohn, "CSI" visita locais tão sombrios com a finalidade de entreter os telespectadores, e muitos deles gostam de viver a aventura virtual. "Procuramos identificar o que os nossos fãs gostariam de ver. A nossa tarefa é fazer com que eles queiram assistir de novo ao programa na semana seguinte, para desfrutarem de uma hora de entretenimento. Este é o critério básico para tudo o que fazemos".

Os tópicos que são tabus também expandem a gama potencial de roteiros, um fator importante em se tratando de um programa que precisa produzir mais de 20 episódios por temporada. E a competição da TV a cabo, com as suas restrições mais flexíveis aos conteúdos da programação, pressiona as redes de televisão a apresentarem um material mais ousado, diz Smith, da Universidade Estadual de São Francisco.

Em termos de mensuração da audiência, "CSI" mais do que atingiu o seu objetivo, só perdendo para "American Idol".

Mas "CSI" fica em quinto lugar --um degrau à frente de "Desperate Housewives", da ABC-- na mais recente lista de programas que o Conselho de Televisão para Pais considera como os mais inapropriados para serem vistos por famílias. Este patamar é uma combinação de tópico e de grande audiência, o que significa que um número maior de jovens está exposto aos episódios, alerta Caldwell.

Alguns telespectadores confirmam que gostam de espiar de vez em quando os estilos de vida incomuns. "Assisto a 'CSI' todas as semanas, e não tive nenhum problema com os temas abordados. Embora eu tenha achado alguns deles bem esquisitos, para dizer o mínimo, também acho fascinante conhecer outros pontos de vista sobre a vida, além da forma como a equipe de 'CSI' é capaz de resolver os crimes", afirma Sam Vowell, de Lennon, Michigan.

No entanto, Jane Lansing, de Minneapolis, desistiu de assistir à série. "Eu era uma viciada em 'CSI' quando a série foi lançada, e neste ano parei de assistir porque as histórias estão indo longe demais", diz ela.

Embora admita que certos episódios de "CSI" como os de Stahl possam enveredar por mundos bizarros, a CBS está satisfeita com o seu "sistema de autocontrole" que garante que certos programas sejam apropriados para os telespectadores e os patrocinadores, diz o porta-voz da rede, Chris Ender.

"Atualmente, os telespectadores geralmente sabem também o que esperar de 'CSI'", explica Ender. "Também há textos no início do programa, para alertar os telespectadores".

Mas até mesmo os produtores de "CSI" dizem que tem as suas preocupações quanto ao conteúdo, e que às vezes retrocedem. "A palavra-chave para este episódio é comedimento", afirma Lewis durante uma pequena pausa nas gravações. E, na era pós-Janet Jackson, cenas que antes eram consideradas normais, agora são tidas como demasiadamente ousadas, diz Mendelsohn, admitindo que existe preocupação com a possibilidade de a série se tornar um alvo para os grupos de fiscalização dos conteúdos da programação televisiva.

A ampla gama de reações não deve ser motivo de surpresa, diz S. Robert Lichter, presidente do Centro de Mídia e Questões Públicas, um grupo sem fins lucrativos e apartidário de monitoramento da mídia. "Uma cena chocante pode ser considerada genial por um telespectador, e horrorosa por outro. Um programa como "CSI" procura manter um equilíbrio, tentando preservar o 'fator choque' sem que isso custe dinheiro aos produtores, devido à perda de publicidade e a sanções governamentais".

Para Petersen, o produtor de "CSI", qualquer tema bizarro precisa fazer sentido para a trama. "Não queremos nenhuma bizarrice gratuita".

No que diz respeito aos fãs, não há nada de gratuito quanto a Lady Heather, que surgiu por iniciativa de Stahl em "Slaves of Las Vegas", de 2001. Ela conduz Grissom, Catherine Willows (Marg Helgenberger) e os telespectadores por um mundo de sadomasoquismo, repleto de chicotes, correntes, artefatos de couro e roupas de látex, mas também apresenta um personagem complexo.

Lady Heather despertou o interesse de Clarke devido aos seus contrastes: ela é a gerente bem-sucedida de um clube de fetiche e mãe de uma estudante de Harvard, uma mulher que seria capaz de dar uma chicotada em um homem ou, como no caso de Grissom, servir-lhe chá. "Ela é uma pessoa multidimensional que não fora vista antes, uma dominadora muito mais evoluída --enigmática e poderosa", diz Clarke.

O que fez da personagem uma favorita junto ao público, apesar de ela só ter aparecido em dois episódios anteriores, foi a sua capacidade de decifrar o geralmente opaco Grissom. Ela está em pé de igualdade com ele.

"A relação entre os dois é elétrica. Esse relacionamento revela facetas da personalidade de Grissom que não afloram em nenhum outro relacionamento dele. Tolerância. Profundidade. Humanidade. Ele sente", diz a fã Tammy Hoganson, de New Prague, Minnesota, que diz que se sente satisfeita quando "CSI" explora "temas nada açucarados".

Grissom, sempre um estudioso, tem curiosidade pelo campo de trabalho de Heather, assim como sente fascínio pela convenção dos "plushies and furries". "Grissom e Heather são, ambos, antropólogos", opina Petersen durante uma pausa nas filmagens. "Ele é fascinado pela ciência dela, pela visão da psique sexual dos seres humanos".

Existe também uma tensão sexual entre os personagens.

O equilíbrio delicado entre eles vai se alterar no episódio de quinta-feira, que segundo Mendelsohn pode ser perturbador, não pelo seu conteúdo sexual, mas pelas horríveis experiências de um cientista brilhante que ela descreve como "um Grisson que não deu certo".

E Lady Heather, uma mulher que depende do seu controle férreo, sairá perdendo como uma mãe vitimada.

"O equilíbrio de poderes se alterará no deserto", afirma Mendelsohn. "Grisson terá que salvá-la dela mesmo" Série campeã de audiência explora temas como o sadomasoquismo Danilo Fonseca

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