'Brokeback Mountain' - obra é marco da história do cinema ou apenas o filme da semana?

Scott Bowles*

Ele ainda precisa ganhar um Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Ele nunca foi o filme número um nos cinemas. E não foi visto por tanta gente assim. Mas "O Segredo de Brokeback Mountain" ("Brokeback Mountain, EUA, 2005) já é considerado "O Filme".

Ele é o tema de piadas, objeto de paródias na Internet e o favorito para os Oscars em 5 de março. Oprah discutiu o drama gay-caubói no seu programa. Howard Stern disse que gostou muito. "Você já assistiu a 'Brokeback'?", se transformou em uma espécie de prova de Rorschach nos jantares de gala para determinar a tolerância com relação aos gays.

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Jake Gyllenhaal e Heath Ledger foram indicados ao Oscar; filme é apontado como favorito

"Brokeback" também carrega uma quantidade enorme de expectativas, algo que há muitos anos não se via em um filme. Ele lidera uma safra de filmes sobre questões sociais que estão dominando a temporada do Oscar. Alguns dizem que este é o filme que não apenas modificará a forma como Hollywood mostra os seus personagens gays, mas também a maneira como gays e lésbicas são aceitos pelos Estados Unidos tradicionais.

Estas são previsões fortes para um faroeste de US$ 14 milhões que foi visto, nos três meses desde o seu lançamento, por um público menor do que aquele que viu o programa "Dancing with the Stars" na televisão na semana passada.

Os admiradores dizem que o filme está apagando os estereótipos homossexuais e elevando a consciência em relação às questões dos direitos dos gays. Os críticos dizem que o destino de "Brokeback" é ser lembrado mais pelo marketing que o cerca do que pelas suas qualidades artísticas.

"É preciso ter coragem para fazer um filme como esse", afirma Terrence Howard, um dos indicados para o Oscar de melhor ator pela sua atuação em "Hustle & Flow" ("Ritmo de Um Sonho", EUA, 2005). "Às vezes, é necessário que se diga: 'Ao inferno com a reação da platéia. Temos algo a dizer'. E o público está ouvindo. Podemos estar no início de uma revolução cultural".

Outros sustentam que "Brokeback" se transformou em um instrumento da esquerda política, e na evidência de que Hollywood perdeu o contato com o cidadão comum dos Estados Unidos. Alguns membros da indústria cinematográfica questionam se a agitação em torno de "Brokeback" não seria mais o resultado de uma esperta estratégia de marketing do que uma mudança radical nas atitudes sexuais.

"Isso é ridículo", diz o crítico de cinema Michael Medved. "Todos estão cientes deste filme devido à publicidade constante, e não por causa da grande controvérsia que gerou ou da sua popularidade. Estou de fato cansado da propaganda. Acho tudo isto muito chato. Tenho que lembrar a mim mesmo de que se trata de um bom filme".

Ninguém parece mais impressionado com a atenção despertada do que o diretor de "Brokeback", Ang Lee, o cineasta nascido em Taiwan que diz que sempre foi fascinado pelos gêneros clássicos do cinema norte-americano, mas que afirma ter ficado abismado com a reação à sua versão do conto de Annie Proulx, que serviu de inspiração para o filme.

"É meio impressionante", diz Lee. "E eu só temia que não fosse capaz de recuperar o dinheiro investido nas filmagens".

A história de dois caubóis que lutam contra o amor que sentem um pelo outro foi vista por cerca de 12 milhões de norte-americanos e gerou até o momento US$ 73 milhões. Ele está na frente de todos os concorrentes, com oito indicações ao Oscar, e é tido como franco favorito para ganhar os prêmios de melhor filme e melhor diretor.

"O mais importante é que 'Brokeback' reflete o zeitgeist (espírito do tempo)", opina Dave Karger, da revista "Entertainment Weekly".

A passagem do filme citada com freqüência, "Eu gostaria de saber como te deixar", está se firmando no circuito da cultura popular, e se tornou uma espécie de matéria-prima para os programas noturnos dos Lenos e Lettermans.

O presidente Bush e o vice-presidente Cheney foram caricaturados em cartazes que imitam o pôster oficial do filme. O título também se transformou em um termo depreciativo: alunos da Universidade Gonzaga, em Spokane (Estado de Washington), foram repreendidos neste mês pela instituição por gritarem "Brokeback Mountain" para os jogadores de basquete adversários, sugerindo que estes eram gays.

Encorajando a discussão

Enquanto isso, os grupos de defesa dos direitos dos gays estão encampando o filme da mesma forma como as igrejas fizeram com "A Paixão de Cristo" ("The Passion of the Christ", EUA, 2004).

A Aliança de Gays e Lésbicas Contra a Difamação (GLAAD, na siga em inglês) criou um guia de recursos "Brokeback" online, com links para artigos e grupos de apoio, dirigido a caubóis e fazendeiros gays. A Campanha dos Direitos Humanos está lançando "kits da festa do Oscar", com pôsteres de "Brokeback" e cartões com os dizeres, "Fale Sobre Isso", a fim de encorajar a discussão das questões relativas aos direitos dos homossexuais.

O crítico cinematográfico e historiador Leonard Maltin gostaria que "Brokeback" fizesse com que as pessoas repensassem as relações homossexuais, da mesma forma que "Acorrentados" ("The Defiant Ones", EUA, 1958), "No Calor da Noite" ("In the Heat of Night", EUA, 1966) e "Adivinhe Quem Vem Para o Jantar" ("Guess Who's Coming to Dinner", EUA, 1966) elevaram a consciência coletiva sobre as relações raciais no final da década de 1950 e na década de 1960.

"O filme navega por certas águas não mapeadas, porque mostra como se sentem dois homens tomados por tal tipo de paixão e desejo mútuos, e as pessoas não estão acostumadas a isso", explica Maltin. "Nenhum filme provocará uma revolução, mas filmes podem ser blocos para a construção de novos valores. E esse pode ser o legado de 'Brokeback'".

Mas será necessária alguma ajuda da platéia. Charlize Theron, que ganhou um Oscar por interpretar uma serial killer que também era lésbica em "Monster - Desejo Assassino" ("Monster", EUA, 2003), afirma que o apoio do público a esses temas desafiadores, não importa se o tema seja politicamente carregado ou diga respeito ao homossexualismo, é o fator-chave para que haja uma mudança em Hollywood.

"Todos estão sempre apontando o dedo para Hollywood e dizendo: 'Hollywood não está escrevendo papéis centrais femininos, ou eles não fazem filmes socialmente relevantes'", diz ela. "Mas o problema é que os estúdios costumam perder dinheiro com tal tipo de filme. Por quê? Porque o público não vai assistir. Temos que fazer com que a platéia volte aos cinemas para assistir a estes filmes, de forma que os estúdios não sintam que correm grande risco ao investir neles".

Felicity Huffman, que foi indicada para o prêmio de melhor atriz pelo seu papel trans-sexual em "Transamérica" ("Transamerica", EUA, 2005), teme que "Brokeback" esteja enfrentando resistências.

"Não sei se os Estados republicanos receberam tão bem o filme como os Estados democratas", diz ela. "Se os Estados conservadores gostaram do filme, eu diria esperançosamente que isso seria um sinal de que os Estados Unidos estão ficando mais tolerantes. É claro que sei que há um movimento contra o filme, mas no fim das contas, aquelas coisas que nos unem superam em muito aquelas que nos dividem".

Outros filmes exploraram temas de conflito sexual, obtendo sucesso no Oscar. William Hurt ganhou o Oscar de melhor ator por fazer o papel de um prisioneiro gay em "O Beijo da Mulher Aranha" ("Kiss of the Spider Woman", EUA, 1985). Tom Hanks também ganhou o prêmio de melhor ator pela sua atuação como um advogado homossexual em "Filadélfia" ("Philadelphia", EUA, 1993). E Hilary Swank obteve o seu primeiro prêmio da Academia pelo personagem transsexual em "Meninos Não Choram" ("Boys Don't Cry", EUA, 1999).

Segundo o crítico Emanuel Levy, uma diferença entre "Brokeback" e esses outros filmes é o fato de o filme de Lee injetar questões contemporâneas em um arquétipo de Hollywood.

"Trata-se de um faroeste integral com caubóis durões, narrando uma história clássica de amor que simplesmente diz respeito a sentimentos não correspondidos", diz Levy, autor do livro "All About Oscar" ("Tudo Sobre o Oscar"). "Por outro lado, o filme mostra dois homens mantendo intercurso sexual, o que é uma novidade para um filme de Hollywood dirigido às massas. E foi isso que deu o que falar. A platéia simplesmente não sabe como reagir com relação a isso".

A hora dos filmes que "têm algo a dizer"?

O filme também se beneficia do momento em que foi lançado. George Clooney, indicado ao Oscar pela sua direção de "Good Night, and Good Luck" (EUA, 2005), diz: "'Brokeback' representa uma grande safra de filmes que têm algo a dizer. Tem gente em Hollywood que acha que já é hora de não ficar simplesmente sentado nos bastidores, mas de falar em voz alta sobre política, questões raciais ou a mídia".

Segundo Levy, o resultado sobre o produto de Hollywood poderia ser um distanciamento dos personagens do tipo "gay infeliz" em seriados de TV como "Will & Grace" e filmes como "Os Produtores" ("The Producers", EUA, 2005) e "Os Boêmios" ("Rent", EUA, 2005). "Creio que veremos personagens gays mostrados de uma forma nova e mais complexa".

Nem todos concordam. Robert Knight, diretor do grupo de políticas conservadoras, Instituto da Cultura e da Família, alega que a renda obtida por "Brokeback" nas bilheterias é relativamente modesta, quando comparada aos dez principais programas de TV ou a filmes com "A Paixão de Cristo" e "As Crônicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa" ("The Chronicles of Narnia: The Lion, the Witch and the Wardrobe", EUA, 2005), ambos sucessos de bilheteria.

"Não creio que esse filme signifique que os norte-americanos passaram a considerar a homossexualidade um comportamento aceitável", diz Knight. "Ele é apenas o produto de duas décadas de uma agenda pró-homossexual por parte de Hollywood e da mídia, o que fez com que passasse a ser banal mostrar algo desse tipo na televisão ou no cinema".

Alguns integrantes da indústria cinematográfica questionam aquilo no qual Hollywood acredita. O ator Ian McKellen, falando na semana passada no Festival de Cinema de Berlim, disse aos repórteres que duvida que o filme abra as portas para os atores assumidamente gays.

"É muito, muito, muito difícil para um ator norte-americano que aspira a uma carreira se abrir sobre a sua sexualidade", argumenta McKellen, que é gay. "A indústria cinematográfica é bem conservadora na Califórnia".

O ator e escritor gay Bruce Vilanch diz: "Embora eu aplauda o fato de 'Brokeback' ter focado um novo tipo de gay em Hollywood, a indústria está muito longe de sair do armário. Não creio que veremos gays em papéis principais ou como heróis de filmes de ação, enquanto não virmos jogadores de futebol e hóquei que sejam gays assumidos. Este é o último patamar do estereótipo do machão. Mas pelo menos o filme fez com que as pessoas falassem sobre o assunto".

E isso, segundo Judy Shepard, pode ser tudo o que o filme precisava fazer. A morte, em 1998, do seu filho gay, Matthew, provocou indignação nacional e debate sobre a violência contra os gays, e há uma alusão vaga ao assassinato em uma cena de "Brokeback".

Pouco antes da sua morte, o seu filho lhe deu uma cópia da história que inspirou o filme, conta Shepard.

"Duvido que o filme venha a ter um efeito imediato sobre as questões relativas aos direitos dos gays, porque algumas pessoas têm vergonha de assistir ao filme nos cinemas. Até mesmo alguns dos meus amigos --meus amigos-- dizem achar que esse é apenas um filme sobre caubóis gays, e temem algo desse gênero", diz ela.

"Mas, no longo prazo, quando as pessoas começarem a alugar os filmes nas locadoras de vídeo, creio que o verão da forma como o vejo: como uma história que apenas tenta dizer que não dá para evitar a paixão por uma determinada pessoa", afirma Shepard. "Se o filme conseguir apenas abrir algumas mentes para esta idéia, creio que já terá feito uma grande coisa".

*Com a colaboração de Anthony Breznican. Para muitos críticos, a história de amor dos caubóis será lembrada mais pelo marketing que a cerca do que por qualidades artísticas Danilo Fonseca

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