Com a disseminação da gripe das aves, EUA devem expandir seus exames

Anita Manning

O governo americano, preparando-se para a possibilidade de aves migratórias carregarem a linhagem mortífera da gripe das aves para a América do Norte, planeja testar quase oito vezes mais aves selvagens neste ano do que fez na última década.

A partir de abril, amostras de 75.000 a 100.000 aves serão examinadas, principalmente no Alasca, como parte de um esforço conjunto dos departamentos de Agricultura e do Interior, junto com as agências de Peixes e Vida Selvagem. Isso representa um salto das 12.000 aves testadas desde 1996, diz Angela Harless do Departamento de Agricultura.

O programa, que incluirá aves das ilhas do Pacífico e da Costa Oeste, reflete crescente preocupação que o vírus altamente patogênico A (H5N1), que se espalhou pela Ásia e Europa, alcance a América do Norte nesta primavera e o Oeste dos EUA no outono.

"Eu tenho a expectativa" que o vírus chegará na América do Norte, disse o secretário do departamento Mike Johanns. A doença pode entrar no país de outras formas, diz ele, inclusive pelo contrabando de aves infectadas como animais de estimação ou galos de briga, mas a chance de que possa ser trazida com a migração da primavera é "definitivamente uma possibilidade".

Uma doença de aves, não de humanos

Se os exames detectarem o vírus em aves na América do Norte, isso não significará o início de uma pandemia humana, porque ainda é primariamente uma doença de aves, diz ele. O vírus foi encontrado pela primeira vez em aves na China em 1996. Ele foi transmitido para seres humanos pela primeira vez em Hong Kong, um ano depois, e já chegou a 39 países.

Desde dezembro de 2003, ao menos 175 pessoas foram infectadas e 95 morreram, a maior parte delas depois de ter contato íntimo com galinhas infectadas, mas não aves selvagens. Os cientistas dizem que o vírus não desenvolveu a capacidade de se transmitir facilmente de pessoa a pessoa. Se isso acontecer, pode gerar uma pandemia.

De quatro importantes padrões migratórios de aves, ou vias migratórias nos EUA -Pacífica, Central, Mississsippi e Atlântica- a Pacífica é a de maior interesse agora, diz Frank Quimby, do Departamento do Interior. "A via Pacífica é a rota mais provável, porque as aves que passam o inverno na Ásia migram na primavera para o Alasca". O Estado, com seus pântanos e áreas costeiras, é uma espécie de Estação Central para as aves.

"O Alasca é um entroncamento de vias migratórias das aves", diz Rick Kearney, coordenador de programa de vida selvagem do Instituto Geológico dos EUA. "Com a temporada migratória da primavera, estamos aumentando a vigilância", em parceria com agências federais, estaduais e locais. "Vamos coletar amostras de aves migratórias vivas e de caçadores."

As aves da via migratória Asiática podem chegar ao Alasca em abril e maio, diz Nicholas Throckmorton do Serviço de Peixes e vida Selvagem. "Nesse momento podem trazer a gripe das aves para o Alasca. Como essas aves passam o verão procriando no Alasca, elas podem transmitir a doença para espécies que migram para o Sul no outono", disse ele. Chegando ao Alasca, a agência acredita que o vírus só alcançaria o Sul entre agosto e novembro.

Para testar as aves, os cientistas vão capturá-las com redes, tirar lâminas da garganta ou da cloaca e enviar as amostras para o Centro de Vida Selvagem Nacional do Instituto Geológico em Madison. Se alguma der resultado positivo para o H5N1, exames de confirmação serão feitos nos Laboratórios de Serviços Veterinários Nacionais do Departamento de Agricultura em Ames, Iowa. A porta-voz do departamento, Angela Harless, disse que podem ser examinadas até 18.000 amostras por dia. Os testes também serão feitos em pássaros mortos por caçadores no Alasca na primavera e no Oregon, Washington e Califórnia no outono, disse Throckmorton.

Para os especialistas, a gripe aviária não é nova. Há ao menos 144 tipos de vírus de gripe aviária. No entanto, a maior parte deles não é letal. Somente dois tipos, H7 e H5, tornaram-se altamente patogênicos, matando três de cada cinco galinhas infectadas, diz Throckmorton. Na Ásia, o vírus H5N1 "foi transmitido de aves selvagens para aves domésticas. Então evoluíram e reinfectaram as aves selvagens", diz ele. Agora, mais letal, mata algumas aves selvagens, mas não todas. "Está provado que aves selvagens podem ser portadoras do vírus sem desenvolverem a doença."

E se for encontrado nos EUA?

Se o vírus for encontrado em aves selvagens na América do Norte, elas não serão exterminadas em massa como forma de contenção. Os especialistas, inclusive da Organização Mundial de Saúde, da Organização Mundial de Saúde Animal e do Departamento de Agricultura, concordam que destruir as aves não é um método de controle eficaz. Segundo Kearney, especialistas e pessoas envolvidas na agricultura deverão entrar em alerta e separar suas aves domésticas das selvagens.

Alguns cientistas discordam do foco voltado para os pássaros selvagens. "As aves migratórias são provavelmente a forma menos provável que a gripe vai entrar no hemisfério Ocidental", disse Peter Marra, ecologista do Instituto Smithsonian em Washington, D.C.

Segundo Marra, é mais provável que o vírus entre pelo comércio de bichos de estimação e de galinhas, legal ou ilegal. "As aves migratórias são transeuntes inocentes", diz Marra. "Não duvido que estejam carregando o vírus. Só não acho que sejam as principais transportadoras."

Granjas em alerta

O Departamento de Agricultura americano proibiu a importação de aves vivas ou produtos de aves de países em que o vírus foi detectado. As aves legalmente trazidas ao país são examinadas para detectar a presença de H5N1 ou outros agentes infecciosos e são mantidas em quarentena por 30 dias. No entanto, os especialistas advertem que o comércio ilegal de aves e o contrabando de pássaros selvagens ou galos de briga podem ser uma porta de entrada.

Richard Lobb, do Conselho Nacional da Galinha, diz que as granjas foram advertidas que "se contratarem ajudantes, estes não devem ter aves de briga em casa. Essa é a única forma que poderia chegar às criações comerciais."

Se o vírus se espalhar para as criações, poderá ameaçar a indústria de US$ 43 bilhões (em torno de R$ 95 bilhões) por ano. Segundo Lobb, porém, existem medidas de precaução, desde exames de rotina até extensivas medidas de bio-seguranca nas granjas. Um surto em uma granja seria rapidamente detectado, contido e extinto, disse ele.

"Não somos complacentes, de forma alguma", diz ele. "É a questão número um da indústria." Deborah Weinberg

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