Certas pessoas gostariam de construir um muro em torno da economia dos EUA

David J. Lynch

Será que os Estados Unidos poderiam administrar simultaneamente uma guerra e uma economia aberta?

Depois da confusão relativa à empresa portuária de Dubai, alguns parlamentares estão dizendo que os Estados Unidos precisam repensar a questão da abertura econômica. O deputado Duncan Hunter, republicano da Califórnia, e presidente do Comitê da Câmara para as Forças Armadas, por exemplo, está exigindo que somente cidadãos norte-americanos possam ser proprietários e administradores de toda a "infraestrutura crítica" dos Estados Unidos.

Embora anda não exista nenhuma medida generalizada no sentido de erigir
muros em torno da economia dos Estados Unidos, alguns analistas temem que a combinação de segurança nacional e restrições à administração e posse de certos setores possa sair de controle.

A legislação proposta por Hunter exigiria que as companhias estrangeiras que atualmente são donas de qualquer coisa considerada "crítica" para a
segurança nacional, a segurança econômica ou a saúde pública vendessem o seu patrimônio dentro de cinco anos. O senador Charles Schumer, democrata por Nova York, reagindo ao crescente déficit comercial dos Estados Unidos, propôs que seja imposta uma tarifa de 27,5% sobre as importações chinesas, caso Pequim não permita que a sua moeda sofra valorização.

"Hoje, é o Oriente Médio. No verão passado... era a China. Da próxima vez
poderá ser a Rússia", afirma, preocupado, Nouriel Roubini, um economista que opera o site de economia global rgemonitor.com.

Uma mistura inflamável de ameaças de segurança e riscos econômicos fez com que os norte-americanos passassem a sentir maior desconforto nas suas relações com o resto do mundo. Os alertas de terrorismo com códigos de cores e a persistência da rede global Al Qaeda significam que o perigo físico é um fato da vida cotidiana. Para aumentar o mal-estar público há a incansável ascensão da China e da Índia, algo que parece ameaçar o futuro de várias estruturas financeiras norte-americanas.

De 1994 até o ano passado, era maior o número de norte-americanos encarava o comércio internacional como uma oportunidade, em vez de uma ameaça, segundo uma pesquisa do "USA TODAY". Mas em uma pesquisa feita em dezembro último, 46% viam no comércio internacional uma ameaça, e 44% uma oportunidade.

"A globalização cria vulnerabilidades. Não há dúvidas quanto a isso", afirma Mira Wilkins, especialista em investimento estrangeiro da Universidade Internacional da Flórida, em Miami.

Os Estados Unidos não estão sozinhos na sua frieza quanto à globalização. A Europa, também, está testemunhando uma preocupação renovada quanto à soberania econômica. Na França, na Espanha e na Polônia, os governos estão impedindo que as firmas estrangeiras adquiram empresas, até mesmo aquelas relativas a setores de produtos de consumo, aparentemente benignos.

Crescem os laços globais

Se as preocupações se tornarem subitamente intensas, isso poderá se dever ao fato de, recentemente, a era da globalização, que teve início com o colapso do comunismo, em 1989, ter se intensificado dramaticamente. Exemplo: as fusões e aquisições transnacionais totalizaram o estonteante valor de US$ 3,2 trilhões no ano passado, quase três vezes o nível de cinco anos atrás, segundo o Banco Internacional de Pagamentos, em Basiléia, na Suíça.

Os Estados Unidos certamente estão mais entrelaçados do que nunca com outras economias. Em 1971, quando o presidente Nixon acabou com o vínculo entre o dólar e o ouro, as importações dos Estados Unidos eram equivalentes a 5,5% da economia. No ano passado, elas chegaram a 16,2%.

O furor quanto ao episódio envolvendo a empresa portuária DP World pode ter surpreendido a Casa Branca. Mas não foi algo que surgiu do nada. No verão passado, foi necessário um esforço político enorme para que se obtivesse junto ao Congresso a aprovação de um acordo comercial bastante modesto com a América Central. Depois, no outono, uma empresa chinesa foi obrigada a abandonar a sua planejada aquisição da Unocal, uma companhia petrolífera norte-americana, depois que o Congresso se opôs energicamente à proposta. E agora uma empresa árabe foi informada de que não goza da confiança para operar terminais de cargas em portos norte-americanos.

"Creio que estamos presenciando uma onda de xenofobia", adverte William
Reinsch, presidente do Conselho Nacional de Comércio Exterior.

Mesmo assim, a reação contra os investimentos estrangeiros até o momento - seja por razões econômicas ou de segurança nacional - tem sido limitada. Tanto a polêmica quanto aos portos quanto à querela do ano passado em torno da Unocal envolveram companhias estrangeiras controladas por governos. As medidas para limitar as importações chinesas têm ficado restritas a indústrias específicas, especialmente à de têxteis e vestuários.

"Não são preocupações de ordem competitiva como ocorria na década de 1980. A GM e a Ford estão em má forma, mas não há muita simpatia quanto à idéia de auxiliá-las, com a imposição de limites de importação", diz Todd Malan, presidente da Organização de Investimento Internacional.

O furor em torno da Dubai Ports World catalisou o debate sobre segurança e globalização, embora a perspectiva imediata de que se tenha uma companhia árabe operando terminais em vários portos dos Estados Unidos pareça ter desaparecido. Em 9 de março, a companhia anunciou que iria abrir mão das suas recém-obtidas operações norte-americanas, contanto que isso não lhe causasse prejuízos financeiros.

Mais tempos complicados

Esta não é a primeira vez que os Estados Unidos encaram tal problema. Uma era anterior de integração econômica global nas décadas anteriores à Primeira Guerra Mundial terminou com os canhões de agosto de 1914. Após a guerra, o comércio se recuperou de forma intermitente. Mas, depois, a Tarifa Smoot-Hawley de 1930 gerou um frenesi protecionista que, em 1934, já havia reduzido em dois terços o comércio internacional.

Durante a Guerra Fria, a relação entre segurança nacional e comércio parecia clara. O apoio às economias da Europa Ocidental ajudou a costurar uma aliança anti-soviética. Não havia dúvidas com relação a quem era o inimigo, e tampouco questões relativas a com quem negociar.

Hoje em dia a vida não é tão simples. Em vez de um governo organizado como o da União Soviética, o inimigo na guerra contra o terrorismo é uma rede não estatal de extremistas islâmicos.

"Atualmente estamos em uma era na qual os interesses de segurança nacional dos Estados Unidos são bem mais ambíguos, e há bem mais desacordo quanto a eles", afirma Jeffry Frieden, da Universidade Harvard. "Mesmo se houver um acordo para o combate ao terrorismo, não está claro quais serão as implicações disso".

Aqueles que querem uma mudança das atuais regras do jogo atacam o Comitê de Investimentos Estrangeiros dos Estados Unidos (CFIUS, na sigla em inglês), que aprovou o fracassado acordo portuário. O comitê aglutina representantes de 12 agências para encontrar um equilíbrio entre ganhos com investimentos estrangeiros e ameaças potenciais à segurança.

Hunter, que ajudou a acabar com o negócio dos portos, quer tornar mais rigoroso o método governamental de revisar as propostas de aquisições estrangeiras de companhias dos Estados Unidos. "Atualmente, os interesses econômicos e comerciais aparentemente colocam em segundo plano as considerações relativas à segurança nacional", escreveu o parlamentar em 6 de março último, em uma carta endereçada aos seus colegas.

Uma investigação conduzida pelo Departamento Governamental de Responsabilidades no ano passado também concluiu que o comitê "define de forma vaga o que se constitui em uma ameaça à segurança nacional". Desde 1988, o CFIUS rejeitou apenas uma dentre mais de 1.500 propostas de aquisição estrangeira de companhias dos Estados Unidos: a da China National Aero-Technology Import e Export, em 1990, no sentido de comprar uma fabricante de peças aeronáuticas de Seattle.

Entre as propostas aprovadas está um acordo que possibilitou que uma outra firma chinesa produzisse 80% dos magnetos utilizados nas "bombas
inteligentes" do Pentágono, segundo o senador Evan Bayh, democrata por
Indiana.

Se qualquer dúvida quanto a questões de segurança surgir durante os 30 dias de revisão do comitê, poderá se dar início a uma outra investigação com prazo de conclusão de 45 dias. Mas o relatório do Departamento Governamental de Responsabilidades disse que o comitê, que é presidido pelo Departamento do Tesouro, está relutando em ordenar tais investigações, por temer que tal medida desencoraje o investimento estrangeiro. No que diz respeito aos 470 negócios propostos entre 1997 e 2004, o CFIUS deu início a apenas oito investigações, afirma o relatório.

A legislação proposta por Hunter implicaria em investigações de 45 dias nos casos de "transações que possam ter implicações para a segurança nacional".

Críticas exageradas?

Outros dizem que as críticas são exageradas. Phillip Swagel, que foi chefe de equipe do Conselho de Assessoria Econômica da Casa Branca durante o primeiro mandato do presidente Bush, diz que representantes do Pentágono no comitê têm uma visão míope da questão da segurança. "Eles simplesmente não entendem o valor do investimento estrangeiro nos Estados Unidos", afirma Swagel, atualmente membro do Instituto Americano de Empresas. "Eles simplesmente prefeririam que não houvesse nenhum estrangeiro aqui".

Edward Graham, do Instituto de Economia Internacional, e autor de um livro a ser lançado sobre segurança nacional e investimento estrangeiro, diz que o CFIUS tem sido mais efetivo do que sugerem as estatísticas. Embora o comitê tenha rejeitado formalmente apenas um acordo, ele bloqueou efetivamente 20 outros, garante Graham. Vários outros foram modificados ao se obrigar o comprador estrangeiro a aceitar mudanças na forma como operaria o patrimônio norte-americano em questão. "Que grande falha de segurança ocorreu nos Estados Unidos? Ao que eu saiba, nenhuma", diz Graham.

Enquanto o Congresso reavalia o investimento estrangeiro, Clyde Prestowitz, presidente do Instituto de Estratégia Econômica, acredita que o novo foco na segurança ignora a dependência econômica dos Estados Unidos dos investimentos estrangeiros. Os Estados Unidos necessitam diariamente de cerca de US$ 3 bilhões em capital estrangeiro para financiarem a grande lacuna entre o seu consumo de bens estrangeiros e as suas exportações. O país simplesmente não pode se dar ao luxo de desprezar esta cifra. "Estamos dando um tiro no pé. As pessoas não percebem isso, mas a nossa economia está recebendo auxílio para sobreviver dos credores e investidores estrangeiros", alerta Prestowitz.

As questões relativas ao investimento estrangeiro não desaparecerão de cena. No mês que vem, o presidente chinês Hu Jintao deverá se reunir com o presidente Bush na Casa Branca, ainda que o Departamento do Tesouro esteja prestes a declarar formalmente que a China manipula o valor da sua moeda para obter vantagens comerciais.

Da mesma forma, graças aos altos preços do petróleo, o acordo com a Dubai Ports não será o último investimento árabe nos Estados Unidos. Desde 1998, membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) faturaram US$ 1,3 trilhão em petrodólares, segundo o Banco de Pagamentos Internacionais. Grande parte deste dinheiro está permanecendo nesses países, contribuindo para alimentar enormes aumentos nas bolsas de valores regionais. Mas dezenas de bilhões de petrodólares foram canalizados em títulos corporativos, ações e investimentos diretos nos Estados Unidos. E provavelmente há mais petrodólares vindo por aí.

"Os estrangeiros têm uma pilha enorme de dólares", afirma Reinsch. "Não sei o que esperamos que eles façam com esse dinheiro". Danilo Fonseca

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