Doação de óvulos vira negócio em universidades dos EUA

Jim Hopkins
em Berkeley, Califórnia

Cinco anos após um grupo comercial ter procurado contê-los, as clínicas de fertilidade e os intermediários do setor estão inflacionando os preços de óvulos vendidos por estudantes universitárias necessitadas de dinheiro que tenham notas altas e boa aparência.

Nos jornais dos campi e em sites da Internet podem ser vistas propagandas diárias. "Precisa-se de doadoras de óvulos. US$ 10 mil", diz uma dessas propagandas no "The Daily Californian", o jornal estudantil da Universidade da Califórnia, em Berkeley. O anúncio, de uma corretora de San Diego chamada A Perfect Match (O Casal Perfeito), procura mulheres que sejam "atraentes, com menos de 29 anos", e que tenham notas no SAT (acrônimo de Scholarship Achievement Test, teste de avaliação de conhecimentos exigido para o ingresso em um curso superior nos EUA) acima de 1.300 pontos.

Existe comercialização de óvulos quase desde o início da indústria da
fertilidade, há 30 anos. Mas agora, novas tecnologias vinculadas à Internet transformaram o negócio em um bazar global de mercadores de óvulos, com pouca fiscalização reguladora.

O site de classificados Craigslist publica 150 anúncios em um dia típico. Uma pesquisa por uma "egg donor" (doadora de óvulos) no Google resulta em dezenas de links de propagandas relativas a essa atividade. E, como outras nações proíbem tal prática - o Canadá tomou tal medida em 2004 -, os Estados Unidos estão se transformando no último reduto dessa indústria.

"Estamos vendendo crianças", diz a professora da Escola de Negócios da
Universidade Harvard, Debora Spar, no seu novo livro "The Baby Business" ("O Negócio de Bebês"). Spar deseja que haja um debate de âmbito nacional em torno da proposta de trazer ordem e segurança para uma indústria na qual a venda de tudo, de medicamentos para fertilidade a óvulos, disparou, movimentando anualmente um total de US$ 3 bilhões.

As doadoras geralmente têm entre 18 e pouco mais de 30 anos, o período no qual as mulheres são mais férteis e os seus óvulos são mais saudáveis. As jovens precisam passar por exames médicos e psicológicos antes que os corretores e as clínicas de fertilidade proponham a venda dos óvulos delas aos candidatos a pais.

As doadoras recebem injeções para a produção de hormônios por cerca de um mês, a fim de que seja estimulada a produção de óvulos. Algo entre dez e 15 óvulos são extraídos da doadora, sob sedação, com uma agulha. Depois se juntam espermatozóides ao óvulo para que se forme um embrião, que mais tarde é inserido no útero da futura mãe.

A pressão sobre as estudantes universitárias - as doadoras mais cobiçadas - deverá aumentar. Um grande aumento do número de programas de pesquisa com células-tronco embrionárias por todos os Estados Unidos no ano passado criou um novo mercado para mais doadoras, já que os cientistas utilizam os óvulos para encontrar curas para doenças.

Os Estados entram em cena

Os legisladores estaduais, citando preocupações de ordem de saúde e éticas, estão agora entrando nesse cenário. No Arizona, a Assembléia Legislativa aprovou leis que proibirão o pagamento a doadoras, e exigirão que os médicos informem as mulheres sobre os riscos às suas saúdes, que em alguns casos raros incluem o risco de morte. No momento essas legislações estão sendo avaliadas por um comitê do Senado Estadual. O deputado estadual Bob Stump, republicano do Arizona, que foi o redator dos projetos de lei, diz estar preocupado com a possibilidade de a indústria se aproveitar de mulheres jovens e vulneráveis, que arcam com dívidas pesadas para custear sua educação superior.

A senadora estadual Deborah Ortiz, democrata da Califórnia, está patrocinando uma legislação, apresentada no mês passado, que limitaria os pagamentos a doadoras para o incipiente programa estadual de células-tronco embrionárias. A legislação também exigirá que os médicos informem às mulheres sobre os riscos.

Stump e grupos como a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM, na sigla em inglês) - uma associação composta em sua maioria por médicos do setor de fertilidade - dizem não ter conhecimento de qualquer legislação similar pendente em outros Estados ou no nível federal.

Mesmo assim, o porta-voz da ASRM, Sean Tipton, diz: "Eu suspeito que esse será um tópico popular para discussão".

A ASRM e outras organizações de fertilidade dizem que a doação é segura quando as mulheres são examinadas e tratadas de maneira apropriada. Elas explicam que as doadoras fornecem um serviço vital para as mulheres incapazes de produzir uma quantidade suficiente de óvulos por conta própria.

Mas a ASRM admite que há riscos potenciais, incluindo náusea e diarréia,
devido a um problema conhecido como "síndrome da hiperestimulação ovariana". Os casos mais graves podem resultar em falta de ar e inchações. E, segundo o grupo, nos casos mais sérios existe um risco "remoto" de morte. A doação também pode gerar futuros problemas de fertilidade para as doadoras. E existe a possibilidade de ocorrência de problemas emocionais após a doadora ceder os direitos de maternidade relativos às crianças concebidas com os seus óvulos.

O número de doadoras pagas é desconhecido, já que ninguém registra
estatísticas nesta indústria pouco regulamentada. Spar calcula que o total pago anualmente às doadoras de óvulos seja atualmente de US$ 38 milhões. A ASRM, em Birmingham, Alabama, declara que a cada ano nascem cerca de 10 mil bebês oriundos de óvulos doados.

As doadoras são em sua maioria mulheres norte-americanas, já que a maioria das nações industrializadas proíbe as doações pagas, afirma Spar. O Canadá entrou para a lista de países cujos moradores - chamados de "turistas da reprodução" - atualmente correm aos Estados Unidos para a obtenção de óvulos.

A doação comercial de óvulos, que antigamente era incomum, passou a ser mais rotineira na década de 1990, quando empresários criaram agências de corretagem especializadas na área de fertilidade, a maioria delas online.

A expressão "doadora" não é rigorosamente correta, já que as mulheres que contribuem com os óvulos são quase sempre pagas. As taxas são para o pagamento do tempo das mulheres - e não dos seus óvulos. É por este motivo que os anúncios nos jornais de universidades e na Craiglist aparecem freqüentemente na seção de empregos.

"Praticamente todas são pagas", afirma David Adamson, um proeminente médico do setor de fertilidade de San Jose, Califórnia. Adamson concorda com as taxas recomendadas pela ASRM em agosto de 2000: pagamentos acima de US$ 5.000 dólares exigem uma justificativa, e aqueles superiores a US$ 10 mil ultrapassam o limite apropriado, afirmou em um relatório o comitê de ética do grupo.

Os críticos reclamam de problemas de ordem ética em uma indústria que se autofiscaliza, e que não reúne dados suficientes para expor problemas emergentes. "Tudo está em mãos de particulares", critica Jesse Reynolds, do Centro de Genética e Sociedade, próximo a São Francisco. O centro tem criticado o programa de pesquisas com células embrionárias da Califórnia, que segundo ele aumentará a demanda por doadoras de óvulos. Entre os apoiadores do centro estão pequenas fundações voltadas para a família e a Fundação Ford.

A indústria da fertilidade é regulamentada pelo Centro de Controle e
Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), segundo uma lei federal de 1992 que exige que as clínicas revelem os índices de sucesso dos
tratamentos, incluindo o de nascimentos de bebês concebidos com óvulos
doados. O CDC não controla os preços pagos aos doadores.

Reynolds diz que à medida que sobem os preços pagos pelos óvulos, mais
estudantes e outras mulheres que atravessam problemas financeiros podem se sentir tentadas a se submeter a um procedimento que em outra circunstância rejeitariam. Ela se preocupa com a situação de mulheres como Kristen, graduada por Berkeley, de 24 anos, que espera receber US$ 8.000 da próxima vez que fizer uma doação de óvulos. Um casal com o qual trabalhou já conseguiu uma gravidez.

Kristen só falou sobre a sua experiência com a condição de que o seu nome não fosse publicado, por temer que o seu patrão desaprovasse o fato. Ela já fez uma doação desde que viu pela primeira vez, três anos atrás, um anúncio no "Californian" quando era aluna de Berkeley. Kristen ouviu falar de mulheres que receberam até US$ 65 mil - algo de tentador, já que as suas dívidas para o pagamento do curso superior eram de cerca de US$ 5.000.

Fazendo uma busca na Internet, Kristen chegou à corretora Fertility
Alternatives, em Murrieta, Califórnia. Assim como outras firmas de
recrutamento de doadoras criadas nos últimos dez anos, a Fertility
Alternatives faz a intermediação entre as doadoras e as clínicas que tratam dos casais inférteis. A companhia do sul da Califórnia não retornou as ligações telefônicas da reportagem para tecer comentários sobre o assunto.

Kristen não está preocupada com riscos de saúde e não tem nenhum
arrependimento moral. "O que torna uma criança o seu filho é o fato de você criá-lo", diz ela. "Os óvulos são apenas DNA".

As doadoras são pagas, quer a gravidez ocorra ou não. Os pagamentos são geralmente mais elevados para aquelas doadoras com um histórico de produção de vários óvulos que resultam em nascimentos. Kristen, por exemplo, diz que espera receber US$ 10 mil por uma terceira doação bem sucedida.

As mulheres geralmente recebem das clínicas e das corretoras a orientação para que não doem mais do que seis vezes. Mas, segundo Spar, a indústria se baseia em um sistema de compromissos informais, de forma que não há nada que impeça uma mulher de exceder o limite sugerido.

Ferramentas de marketing

A demanda por doadoras é intensa, o que dá margem a um marketing mais
elaborado por parte de corretoras e de clínicas de fertilização in-vitro que fazem a maior parte do trabalho. Os candidatos a pais também publicam
anúncios diretamente nos jornais das universidades.

Cifras de cinco dígitos - e, raramente, de seis dígitos - são às vezes
tiradas de marketing para chamar a atenção de potenciais doadoras, explica Adamson, o médico especializado em fertilidade.

Uma das maiores clinicas é o Instituto Genetics & IVF, próximo a Washington D.C. Ela oferece aos candidatos a pais que consultam a Internet um catálogo de cem doadoras em um banco de dados no qual a busca pode ser feita segundo critérios de raça, altura, cor dos olhos, tipo sangüíneo e nível educacional. Os perfis trazem fotos das doadoras quando estas eram crianças, a fim de que possa ser mais bem visualizada a possível aparência dos bebês gerados a partir dos seus óvulos.

E há também arquivos de áudio que podem ser baixados do site: gravações de doadoras entrevistadas a respeito de, por exemplo, um presente favorito. A doadora número 583 - uma supervisora pública de 1,62, formada em justiça criminal - recorda-se de um par de prendedores de cabelos que o seu filho lhe deu de presente no Dia das Mães. "Tive que usá-los o tempo todo", diz ela, rindo, durante a sua entrevista digital.

"Sites adornados com fotos e estatísticas vitais criam uma sensação de que você está escolhendo uma pessoa, em vez de material genético", afirma Spar. "A impressão que se tem é de algo muito parecido com as paqueras online".

Os candidatos a pais querem doadores que tenham a aparência e o comportamento semelhantes aos do bebê dos seus sonhos, mesmo que não haja garantias de que tal bebê se materialize. O resultado: um aumento dos preços pagos por doadoras bonitas e com boas notas - uma tendência "moralmente preocupante", semelhante à eugenia, adverte a ASRM.

A Genetics & IVF informa que as mulheres geralmente recebem US$ 5.000 por cada doação. Mas em um reflexo do clima de leilão, o site da clínica chama atenção para o fato de que doadoras com "características especiais" podem obter mais dinheiro. O diretor de medicina Stephen Lincoln diz que a clínica evita as guerras de preços. "Isso é algo nauseante", afirma.

Na corretora Baby Steps, em Raleigh, Carolina do Norte, as doadoras são
advertidas sobre as diretrizes que limitam as quantias pagas. Mas o site da firma informa que doadoras experientes podem receber até US$ 8.000 - e
possivelmente mais. "As doadoras estão livres para pedirem qualquer
compensação que considerem razoável", diz o site.

A firma não respondeu a ligações a fim de fazer comentários.

Segundo Spar e outros especialistas da indústria, há uma demanda especial por mulheres asiáticas, em parte porque este grupo demográfico é pequeno. No site da Craiglist, em Los Angeles, um casal ofereceu US$ 10 mil a doadoras asiáticas de 21 a 25 anos de idade, com uma altura mínima de 1,57 metros, e que fossem "altamente inteligentes". O casal - ele com 37 anos, ela com 42 - afirmou no anúncio: "De preferência uma doadora que tenha habilidades artísticas, já que a candidata a mãe é uma talentosa pintora e pianista".

Cabelos louros e olhos azuis são produtos pelos quais há alta demanda. Uma advogada de 28 anos que mora próximo a Washington e que possui esses atributos físicos, além de um alto nível educacional, diz que recebeu US$ 7.500 da Genetics & IVF no outono passado por 15 óvulos. Ela concordou em falar à reportagem contanto que o seu nome não fosse publicado, já que o seu contrato exige o anonimato.

Ela deu início a um novo ciclo de doações, e espera receber mais US$ 7.500. Os pagamentos ajudarão a saldar a sua dívida de US$ 175 mil junto à universidade, diz ela. A jovem disse que doaria os seus óvulos gratuitamente para uma amiga ou parente. Mas não para desconhecidos. "Tenho que tomar injeções diárias e ingerir todo tipo de medicação", conta ela. "Preciso receber uma compensação por isso". Danilo Fonseca

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