Idéia de vida simples pega

Elizabeth Weise
em São Francisco

Começou como um voto simples, ou simplesmente aterrorizante, de um pequeno grupo de amigos sentindo-se afogados com tantas coisas em suas vidas. Em um jantar há dois anos, eles fizeram um pacto: não iam comprar nada novo, exceto comida, remédios e artigos de toalete por seis meses.

O esforço durou um ano, antes de ser vitimado pelas demandas da vida moderna. Mas a loucura comercial do Natal fez o grupo reunir-se há poucos meses.

No entanto, agora não está mais em relativo anonimato. Uma onda de interesse da mídia no último mês tornou o grupo um fenômeno cultural, com mais de 700 membros em seu site no Yahoo. Eles compartilham ferramentas, vão à biblioteca e compram em lojas de artigos usados. Há associados em Maine, Alabama, Texas, Oregon e Wisconsin e consumidores saciados no Japão e Brasil estão interessados.

O grupo original denominou-se Compact, pelo Mayflower Compact, um acordo civil que atava os Peregrinos a um propósito de vida mais elevado, quando atracaram em Plymouth Rock, em 1620.

O objetivo dos membros não era tanto economizar dinheiro ou salvar o meio-ambiente, e sim simplificar suas vidas, diz Rob Picciotto, professor de francês de ensino médio que participou do primeiro jantar. "Acabamos economizando o tempo que era passado no shopping. Ainda compramos alimentos e remédios, mas não vamos à Target no sábado, que antes era um ritual, só para ver as liquidações", diz ele.

Foi o sócio de Picciotto, John Perry, que trabalha com marketing de alta tecnologia, que iniciou a reencarnação do Compact, um esforço que atraiu a atenção do San Francisco Chronicle. Quando o artigo chegou ao site do jornal, no dia 13 de fevereiro, ficou claro que o Compact tinha atingido um veio profundo de descontentamento do consumidor.

Hoje o Compact existe na forma de vários grupos locais que se reúnem em jantares comunitários para celebrar seus sucessos (uma máquina de costura gratuita da Lista de Craig on-line) e dilemas (chaves contam? E maquiagem?). Há vários grupos de discussão na Web que servem o mesmo propósito eletronicamente.

Para entrar é fácil, diz Julie Fitzpatrick, professora de terceira série em Madison, Wisconsin, que ingressou no grupo pelo site no dia em que ouviu falar do movimento no noticiário. Não há cerimônias envolvidas. "Você simplesmente diz: 'Eu vou fazer'", diz ela.

Fazer parte do Compact ajudou-a a ter uma desculpa quando é convidada para eventos de venda direta, como festas de Tupperware. "Posso dizer: 'Desculpe-me, fiz uma promessa.' Então, agora estou fora desse círculo."

Mesmo assim, não é fácil refrear o grande passa-tempo americano. O desejo por novos óculos escuros foi a queda de Sarah Pelmas, professora de inglês do ensino médio, quando entrou para o grupo, há dois anos.

"Estava me matando", diz ela. Finalmente, cedeu e comprou um par, entrando na "rampa escorregadia" que a levou de volta ao consumismo. "Era como um vegetariano e o bacon", diz ela: não deu para parar de uma vez. Ela se realistou em dezembro.

Os parentes ficam chocados

Não que a idéia tenha a adesão de todos. Em Chilliwack, British Columbia, Tira Brandon-Evans diz que, quando ela e seu marido disseram aos amigos que não iam trocar presentes de Natal e aniversário, eles agiram como se tivessem subitamente desenvolvido uma doença mental.

Ela diz que, pelas reações de seus amigos, parecia que ela tinha anunciado que ia trocar de sexo ou entrar para um culto satânico.

O maior desafio para Rachel Kesel, de San Francisco, foi uma viagem de camping, que "envolve muita parafernália". Para uma saída no outono, porém, a estudante de 25 anos ligou para os amigos e pegou emprestado o que precisava. Funcionou muito bem, "porque é tão raro todo mundo usar a aparelhagem de camping ao mesmo tempo."

Dorice Baty de Monett, Montana, diz que sua família foi forçada à "simplicidade involuntária" quando seu marido perdeu o emprego, há dois anos. O casal agora vive com o salário dela como professora substituta. Ela gosta de compartilhar com as pessoas do Compact, ricas ou pobres, idéias sobre como se virar sem comprar.

"Se os ricos fazem isso, que Deus os abençoe", diz ela. "Se assumiram o desafio, então os admiro tanto quanto pessoas como eu, que estão passando por dificuldades."

Mas para muitos, a noção parece estranha, até pouco americana. Os membros do Compact entrevistados na rádio foram acusados de querer destruir o país. Bloggers atacaram a idéia como "anti-consumismo exagerado" e "pretensioso".

James Glines, de Copperas Cove, Texas, diz que os parentes perguntaram: "Como você pode fazer isso? Você vai roubar?"

Mas há uma forte história de frugalidade nos EUA, diz David Shi, presidente da Universidade Furman em Greenville, Carolina do Sul, e autor de "The Simple Life: Plain Living and High Thinking in American Culture" (A vida simples e o pensamento elevado na cultura americana) . Grupos religiosos como os Shakers, os Mennonitas, os Amish e alguns Quakers há muito adotaram o conceito da vida simples. O autor e filósofo Henry David Thoreau idealizava-o.

Shi diz que, na última década, os americanos têm se voltado para a "simplicidade terapêutica".

"São indivíduos começando a sentir uma sensação de crise em suas vidas", diz Shi. "O ritmo frenético de nossa sociedade de alta tecnologia, acoplado à enxurrada de mensagens sedutoras de nossa cultura de consumo, alcançou um ponto em que muitas pessoas simplesmente sentem que estão a ponto de se auto-destruir."

Para Pelmas, é sobre "evitar a histeria que parece governar grande parte de nossa consciência em torno do consumismo. O tipo de loucura que leva pais a brigarem para comprar o mais recente modelo de Nintendo para seus filhos. Parece-me uma espécie estranha de lacuna espiritual do século 21."

Não é só ela. Segundo uma pesquisa desenvolvida por Juliet Schor, socióloga em Boston College que estuda a sociedade de consumo, 81% dos americanos dizem que o país é muito concentrado em comprar e gastar e 88% acham que é materialista demais.

Os membros do Compact são simplesmente a mais recente manifestação de um tipo de movimento de massa subterrâneo, diz Schor.

Ela estuda o "movimento de redução", que começou nos anos 80 quando algumas pessoas escolheram ganhar menos e gastar menos para se concentrarem na qualidade de suas vidas e de suas famílias, trabalhando menos horas ou mudando de emprego.

Uma linha comum

O Compact não uma idéia nova.

Em 2003, o colunista do USA Today Craig Wilson prometeu não comprar nada além de comida, artigos de toalete e presentes por um ano. A coluna teve "uma das maiores respostas dos leitores. Milhares e milhares escreveram-me", disse Wilson.

Neste mês, um livro foi publicado sobre um ano sem compras: Judith Levine teve seu momento de "basta" em 2004 e escreveu: "Not Buying It: My Year Without Shopping" (Não vou comprar: meu ano sem compras).

Há inclusive uma revista chamada Real Simple, que explora a tendência, apesar de se concentrar mais na aquisição de coisas que tornam a vida mais simples em vez da não aquisição de coisas.

Essas pessoas estão tocando em um ponto importante, diz James Roberts, professor de marketing da Universidade de Baylor em Waco, Texas. "A pesquisa é muito clara", diz ele. "Quanto mais materialista, menos feliz. Podemos tirar felicidade com o amor dos outros ou de um sentido de comunidade. Mas Madison Avenue nos disse que a felicidade pode vir do shopping."

Para Glines, entrar no Compact significava domar a necessidade do novo. "Eu queria formas de ser frugal sem cortar a alegria de meus filhos", diz ele.

Mas é mais difícil no Texas do que em San Francisco, onde as lojas de segunda mão são elegantes e as pessoas fazem feiras no parque de artigos usados gratuitos uma vez por mês, chamadas "Really Really Free Market". No piquenique urbano, as pessoas deixam o que não precisam e levam o que precisam.

É difícil, mas não é impossível, descobriu Glines. Ele quis montar um canteiro na horta e ficou atrapalhado com a falta de pregos. Mas como há novas casas subindo em toda parte em Copperas Cove, ele conseguiu o que precisava. "Conversei com alguns construtores e eles tinham pedaços de pregos das furadeiras que estavam jogando fora, e disseram que poderiam me dar."

Para Pelmas, o Compact manteve muitas coisas fora de sua vida, mas trouxe algo muito importante -um marido.

Ela conheceu Matt Eddy, professor de ciências do ensino médio, por meio de amigos, muitos anos antes. Mas quando o convidou para sair, ele disse não.

"Um ano depois, ele estava jantando com nossos amigos e eles disseram: "Ah, a Sarah, ela entrou para esse grupo Compact e não compra mais nada novo."

Eddy, com seu grande amor pelas ciências ambientais, instantaneamente repensou sua rejeição. Ele ligou para Pelmas e, como ela diz, "o resto é história".

Eles se casaram 18 meses depois. O casal acaba de comprar uma casa dos anos 20 e planeja reformá-la usando apenas materiais reciclados.

Afinal, diz ela, "é uma casa usada". Deborah Weinberg

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