Novos roqueiros britânicos fazem sucesso nos EUA

Edna Gundersen

Os britânicos continuam vindo, tocando e bombando, então por que os ianques continuam resistindo?

Nenhum ataque do rock desde a invasão britânica dos anos 60 superou os Beatles ou bateu o Cream, apesar do influxo constante de talento britânico que conquista as paradas em seu país. O Oasis liderou uma onda nos anos 90 antes de decair. Os fãs americanos também sintonizaram o Radiohead e, em menor grau, Blur, Elastica e The Verve.

As baladas mais melosas se saíram melhor. O pop puxado a piano do Coldplay seduziu a corrente dominante nos EUA, e o disco do cantor James Blunt, atualmente em segundo lugar, marca outro salto de sucesso através do Atlântico.

Na esfera crescente do rock cerebral e rebelde, Franz Ferdinand fez um movimento considerável, e Kasabian e Kaiser Chiefs tiveram ganhos modestos aqui.

Agora está rolando uma nova incursão do rock, liderada pelos Arctic Monkeys, um quarteto frenético da cinzenta região industrial de Yorkshire, no norte da Inglaterra. Precedidos por muita badalação, os Monkeys parecem destinados a sofrer os mesmos reveses de outras bandas que tropeçaram no capacho nas portas americanas. Mas a formação realmente fria do Arctic teve aceitação nas ondas aéreas com o single "I Bet You Look Good on the Dancefloor", e os fãs americanos pareceram se ligar às canções habilmente artesanais de "Whatever People Say I Am, That's What I'm Not". O álbum entrou na Billboard em 24º lugar e vendeu 98 mil cópias. É também o nº 10 na nova lista de "álbuns garagem mais bacanas" da Billboard, elaborada pelo locutor de rádio Steven Van Zandt, do Underground Garage.

Duas importações que mostram uma promessa semelhante de sucesso nos EUA são Hard-Fi e The Subways, ambos já astros em sua terra.

The Subways

Um incentivo manteve The Subways nos trilhos. Ensaiando no estéril subúrbio londrino de Welwyn Garden City, o trio acalentou seu rock ensolarado, cheio de refrões, com um único objetivo em mente: sair dali.

"É uma área muito chata", diz o cantor-guitarrista Billy Lunn, que tem seu irmão Josh Morgan na bateria e a namorada Charlotte Cooper no baixo. "As perspectivas, em termos de emprego ou sociais, são limitadas e suponho que sempre tivemos esse fogo na barriga para sair e ter uma voz. Por isso escolhemos a música. Não havia mais nada para pessoas da nossa idade fazer, além de ficar bêbado, assistir TV ou jogar futebol na rua. É o território das 'Esposas de Stepford', onde todo mundo tem uma fachada social. Fomos os primeiros a romper e dizer que nem tudo é legal aqui."

Os elogios realmente legais foram para as canções dos Subways. Depois de uma série de demos e EPs feitos em casa, a banda lançou "Young for Eternity", um estouro pop-punk de energia e confiança que atraiu multidões no último verão no Reino Unido. O trio teve um reforço inesperado nos EUA quando "The O.C." escolheu "Rock & Roll Queen" para um episódio em novembro passado. A canção mais tarde passou três meses entre os top 40 da Modern Rock.

"Somos vira-latas aqui", diz Lunn, 21. "Temos de trabalhar duro."

Com esse fim, The Subways estão em turnê pelos EUA e, exceto pelas seis semanas que passaram gravando "Eternity", não saíram da estrada desde que ganharam a competição no Festival de Glastonbury em 2004.

"Estamos instalados nos sofás de amigos e em nossos antigos quartos na casa de nossos pais", diz Cooper, 19. "O que temos em comum é que nossos pais adoravam viajar, por isso é natural para nós. Somos uma banda de ciganos."

Enquanto os Subways recorreram a influências apropriadas como The Pixies, The Jam e Nirvana, Jimi Hendrix também tem um grande lugar em sua formação.

"Eu tive pais rebeldes", diz Lunn. "Os pais de todos os outros eram tão dóceis e certinhos. Meus pais eram meio hippies e nos tiravam da escola para ir a um concerto de rock ou um bom filme. Sua coleção de discos foi realmente importante para mim. Aprendi cada palavra e cada nota dos CDs dos meus pais -- Smokey Robinson, Deep Purple, Donovan, ELO, Bob Dylan, The Carpenters. Era muito eclética."

Mas foi só quando Lunn encheu os ouvidos de Oasis que encontrou uma identidade própria.

"A música dos meus pais me moldou como pessoa, mas Oasis parecia a minha banda, um CD que eu poderia passar para os meus filhos", ele diz. "Foi quando eu quis tocar guitarra. Eu queria uma maneira de esculpir minhas idéias, e com a música senti que podia ser articulado. A mesma coisa com o Josh, uma alma frustrada que finalmente encontrou seu canal."

Como adolescente, Morgan, atingido desde a infância pela doença do desenvolvimento dispraxia, e Lunn apresentavam improvisações de Hendrix de 30 minutos.

"Eu fui um garoto ativo e sempre escutei música interessante", diz Morgan, 19. "Meu pai gostava de Hendrix. Eu de T. Rex. Meu pai me comprou uma bateria para facilitar a vida deles. Ela me acalmava e me dava uma maneira de extravasar minha agresividade. Aprendi sozinho."

No início, Cooper só ficava por perto. Um dia Lunn lhe deu uma guitarra e lhe ensinou "About a Girl", do Nirvana. Uma semana depois o trio tocou num show de calouros local.

"Quando Billy me convidou para tocar, fiquei realmente animada com o desafio musical", ela diz. "Eu tocava flauta e piano desde criança. Só tinha tocado música clássica em orquestras, por isso demorei um pouco a ganhar confiança."

A banda gravou demos numa cozinha com um mixer emprestado. Em 2004, Lunn pagou a seu pai 10 libras por dia para levar a banda para 35 locais de apresentação. A banda formou uma base de fãs viajando sem parar e com um website (thesubways.net, mais uma página em MySpace com 35 mil amigos). Um segundo álbum está meio terminado, e The Subways prevêem um longo futuro, mesmo enquanto os cínicos se perguntam como eles vão superar a maldição das bandas de rock com irmãos (The Kinks) ou casais (Fleetwood Mac).

"Nunca pensei que fosse uma perspectiva perigosa até que os jornalistas mencionaram", diz Lunn. "A coisa fica intensa, porque conhecemos os mapas da cabeça dos outros, e sabemos onde estão os botões de autodestruição. Mas me sinto mais aberto com eles. Posso confiar neles. Quanto a Charlotte, temos visão de túnel. Queremos ficar juntos para sempre."

Morgan aceita a química volátil como um risco natural da família.

"Tenho mudanças de humor malucas, passo de simpático para horrível com muita facilidade", ele diz. "Gosto de ter um espaço onde possa sentar e ler meus livros. Em vez de dar socos quando Bill me perturba, eu guardo isso para o show e jogo tudo na bateria. Nesta banda, o negativo se transforma em positivo."

Hard-Fi

Richard Archer já trabalhou como comissário de bordo, auxiliar de fotocópias e fantasiado de indiano num parque temático. "Qualquer coisa para arrumar um trocado para comprar discos", ele diz.

Agora gostaria de servir ao público amante de música como astro do rock global. Como cantor da Hard-Fi, ele está num bom caminho. "Queremos fazer sucesso", diz Archer, 28. "Queremos tocar no mundo inteiro. Esqueça a mentalidade de banda indie britânica, onde não é legal dizer que você quer se dar bem. Eles simplesmente têm medo de dizer isso e falhar, e ouvir as pessoas dizerem: 'E então, como é?' Se você for assim, nunca vai a lugar nenhum. Eu falhei, e posso enfrentar isso."

Parece que não vai precisar. A Q elegeu a Hard-Fi "a próxima grande banda britânica". A estréia do grupo, "Stars of CCTV", esteve no topo das paradas no Reino Unido, onde vendeu mais de 500 mil cópias e foi indicado álbum do ano pela NME. Lançado nos EUA na semana passada, "Stars" "é aquela rara importação britânica que compensa o pagamento antecipado", afirma a Billboard. Elton John a declarou uma guardiã. "Lembra-me de 'Hot Fuss' da The Killers", ele disse. "Todas as faixas são ótimas."

Archer sente-se vingado.

"Fizemos isso em nossos próprios termos", ele diz, telefonando de um ônibus durante uma viagem de dez horas pela Alemanha para uma apresentação em Dresden. "Trabalhamos duro, e nos orgulhamos disso. Algumas pessoas disseram: 'Vocês não são bons o suficiente, não vai dar'. Agora estão engasgadas."

Essa negatividade havia prejudicado Archer e sua banda anterior, a Contempo, que acabou. Archer voltou para sua cidadezinha pacata de Staines, a oeste de Londres, e formou a Hard-Fi com o guitarrista Ross Philips, o baixista Kai Stephens e o baterista Steve Kemp. Eles gravaram um miniálbum num computador usado em um escritório alugado por hora, por cerca de US$ 500, e imprimiram mil cópias para vender em shows e pela internet.

"Por que aceitar ser manipualdo por uma grande gravadora?", diz Archer. "Existem outras maneiras de lidar com isso. As pessoas pensam que um contrato de gravação é a melhor das coisas, que uma gravadora vai gastar muito dinheiro. Mas nem sempre é nos lugares certos. Eu já gravei em um estúdio caro, e muitas vezes as gravações que fiz em casa tinham mais personalidade."

Foi em casa que Archer cultivou seu talento e filosofia musicais, a partir dos 5 anos, quando uma prima mais velha o deixava martelar seu teclado e sua guitarra. Avesso aos esportes, ele começou a tocar instrumentos seriamente aos 8, a compor aos 12 e a formar bandas "terríveis" aos 13. Seu irmão mais velho o apresentou a sons selecionados, e ele cresceu com uma dieta sônica que incluía reggae, punk, disco, retro soul e rock -- tudo isso foi filtrado mais tarde no Hard-Fi.

"A banda escutava Happy Mondays e The Ramones, depois The Streets, Run-DMC, Nirvana, Nina Simone e Freda Payne", diz Archer. "Desde que seja uma boa faixa, não nos importamos com o que os outros pensem."

Buscando inspiração para compor novas canções, ele não a encontrou nas rádios de rock alternativo de Londres.

"Muitos de meus contemporâneos pareciam estar tentando ser profundos, mas na verdade não diziam nada", ele lembra. "Estavam fazendo música para grupos de moda na cidade. Foi preciso Morrissey, que estava abalando aos 50, cantando 'First of the Gang to Die', para me fazer pensar. Comecei a escrever sobre o meu ambiente."

Isso significou o sucesso "Cash Machine" e canções propulsoras sobre adolescentes entediados e duros, em empregos sem graça e no purgatório do colarinho-azul. "Existem cidades como Staines no mundo inteiro", diz Archer. "Quando ouvi 'Nebraska', entendi o que Bruce Springsteen estava falando."

O disco auto-financiado do Hard-Fi provocou uma guerra de ofertas, atraindo todos os selos do Reino Unido e várias companhias americanas. A banda se fixou na Atlantic e relançou "Stars of CCTV" com mais cinco faixas. Animados pelo dance-rock cheio de ritmo da banda, os críticos criaram o estilo "diska", uma mistura de disco e ska. "Nós gostamos de chamá-lo de Hard-Fi", diz Archer. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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