Desastre a caminho de San Francisco; a única pergunta é quando

John Ritter
em San Francisco

O furacão Katrina foi ruim o bastante. Mas pense no que um terremoto como o monstro que devastou a cidade há 100 anos faria hoje.

Mais de 300 mil pessoas desabrigadas. O colapso de milhares de prédios ou danificados sem condições de reparo. Até US$ 200 bilhões em prejuízos econômicos. Dois grandes aeroportos inutilizados. Destruição de vias expressas. Interrupção em massa do trânsito. Destruição de canos de abastecimento de água. Um número incontável de incêndios alimentados por canos de gás rompidos.

Imagine uma das maiores cidades americanas, empoleirada em uma península, isolada quando for impossível chegar a ela por pontes. A interrupção de todo transporte coletivo. Apenas aeronaves e navios militares como únicos fornecedores de suprimentos e alimentos de emergência. Cidades formadas por barracas e estacionamentos de trailers improvisados perdurando por meses enquanto uma região já cronicamente carente de moradias luta para ser reconstruída.

Este é um cenário apocalíptico que a Cruz Vermelha, o Levantamento Geológico dos Estados Unidos, agências municipais e estaduais de desastres e empresas privadas de engenharia acreditam que não é apenas possível, mas provável. "Minha posição? Não será bonito", disse Kevin Kellenberger, diretor de serviços de desastre da Cruz Vermelha Americana, Divisão da Área da Baía. "Nós teremos problemas significativos com abrigo, estoque de água, estoque de alimentos. Será tudo muito difícil."

O terremoto de magnitude 7.8 de 18 de abril de 1906 e os incêndios e doenças subseqüentes mataram cerca de 3 mil pessoas por toda uma área cuja população é 10 vezes maior hoje. Em caso da repetição daquele terremoto, uma das piores catástrofes dos Estados Unidos, vários milhares morreriam, estimou o Levantamento Geológico.

Supostamente nenhum outro local propenso a terremotos no mundo está melhor preparado para o "Grandão" do que a Área da Baía de San Francisco, nove condados e as 6,7 milhões de pessoas que vivem sobre sete falhas sísmicas ativas.

Dezenas de bilhões de dólares foram gastos para fortificar prédios, pontes, estradas, represas e usinas de força, grande parte desde o último grande terremoto na Área da Baía, o Loma Prieta, em outubro de 1989. Trinta anos de obras sob um código de construção sísmica mais severo criaram um inventário de estruturas mais capazes de suportar um abalo violento.

Mas milhares de prédios antigos ainda precisam de reforço, disse Chris
Poland, presidente da Degenkolb Engineers em San Francisco. Atualizações sísmicas em infra-estrutura crítica continuam inacabadas: um trecho da Bay Bridge danificado em 1989, os túneis envelhecidos e os canos do sistema de distribuição de água que atendem 2,5 milhões de pessoas, US$ 1 bilhão em reformas nas linhas do metrô Bay Area Rapid Transit (Bart), incluindo uma linha que se encontra sobre solo macio de lama da baía.

Muitos hospitais e escolas não suportariam um grande terremoto, mostram
estudos estaduais, e poucos dispõem de dinheiro para reforço sísmico.
Prédios de concreto mais velhos -prédios de apartamento e torres de
condomínios entre eles- foram construídos com reforço de aço inadequado e correm risco de colapso em um grande terremoto, disse Poland.

Ele está chegando

Não é uma questão de se, mas sim quando o próximo ocorrerá. O Levantamento Geológico, a principal agência do governo para pesquisa de terremotos, coloca as chances de uma repetição de 1906 em 1 em 25 nos próximos 25 anos.

A notória Falha de San Andreas que provocou o terremoto de 1906 tem sofrido rupturas contínuas ao longo de milênios. O estresse se acumula
gradativamente ao longo da falha na crosta da Terra, então ele é liberado em um instante como uma estilingada. Os cientistas podem observar o acúmulo de estresse mas não podem prever quando e onde a liberação ocorrerá.

Quanto maior a ruptura, mais forte o terremoto. Em segundos, a uma
velocidade de até 21.700 km/h, quase 480 quilômetros de San Andreas se
romperam em 1906 -o máximo que a falha é capaz, disse o Levantamento
Geológico. O epicentro foi a 3 quilômetros no mar, na altura do Golden Gate Park em San Francisco, mas Santa Rosa, a 100 quilômetros ao norte, foi arrasada e teve o maior número de mortes per capita, 117. A 65 quilômetros ao sul, o então novo campus da Universidade de Stanford ficou em ruínas.

Em 1989, apenas 40 quilômetros da falha ruíram, o suficiente para produzir um terremoto de 6.9 graus de magnitude que matou 63 pessoas e deixou US$ 6 bilhões em danos. Cada pequeno acréscimo na magnitude aumenta a violência da pancada: o terremoto de 7.8 em 1906 foi 30 vezes mais potente que o de 6.9 em 1989.

Do outro lado da baía se encontra outro desastre à espera: a Falha Hayward, que atravessa uma densa paisagem urbana incluindo Oakland e Berkeley.

A Hayward é muito menor e não pode gerar um terremoto tão grande quanto a de San Andreas. Mas uma ruptura em Hayward poderia ser quase tão destrutiva porque 400 mil pessoas vivem sobre a falha, muitas em terras artificiais criadas ao longo de décadas de aterramento das margens da baía. "Solo feito", como era chamado em 1906, sofre abalos piores em um terremoto.

"Estas áreas geralmente estão no nível do mar, água saturada, cheias de
material arenoso", disse Mary Lou Zoback, uma cientista do Levantamento
Geológico, em Menlo Park. "Elas se comportam como areia movediça e perdem sua força. Casas e prédios de apartamento inteiros poderiam tombar."

O processo, chamado liquefação, atingiu o ancoradouro de San Francisco e os distritos financeiros em 1989. Ele fez com que uma seção de uma via expressa elevada ruísse em Oakland. Em uma repetição de 1906, quase todo o perímetro de San Francisco e grandes áreas da Baía Leste se liquefariam. Bem mais ao sul, áreas de Alameda, San Leandro, Hayward e Fremont são construídas sobre um aterro. O Levantamento Geológico classifica como "muita alta" as chances de que toda a terra sob Foster City, população de 29.500, se liquefaria.

O Norte da Califórnia sofreu um forte terremoto em intervalos de poucos anos nos anos 1800, mas nenhum grande o suficiente para atrapalhar a brusca ascensão de San Francisco como a cidade mais populosa e sofisticada do Oeste. A ciência de terremotos era primitiva, os códigos de construção sísmica inexistentes.

Sessenta segundos apavorantes pouco antes do amanhecer mudaram tudo.

O abalo foi violento e destrutivo, mas os incêndios que se seguiram,
atiçados pelos ventos e superquentes, foram responsáveis por pelo menos 80% dos danos. Quase 500 quarteirões queimaram. Mais da metade dos 400 mil habitantes da cidade ficaram desabrigados em meios aos escombros. O sistema de água falhou, a deixando sem água para beber, muito menos para combater incêndios. O serviço só foi restaurado três meses depois. Lotados, campos e abrigos sem saneamento provocaram peste bubônica.

A reconstrução teve início tão logo os incêndios acabaram. Trechos imensos de florestas de sequóias de Santa Cruz ao Oregon foram desmatados em busca de madeira. A pressa atrapalhou o planejamento e apenas nove anos depois, quando a cidade reconstruída deu uma festa -a Exposição Internacional Panamá-Pacífico- 18 milhões apareceram.

Mais importante, as lições foram aprendidas. A cidade projetou um sistema de apoio para distribuição de água para combate a incêndios que, muitas reformas depois, existe até hoje. O sistema Hetch Hetchy de diques, dutos e reservatórios foi aprovado para trazer água de Sierra Nevada, no Parque Nacional Yosemite, para a Área da Baía.

Surgiu a pesquisa de riscos de terremotos e os cientistas mapearam pela
primeira vez, montados a cavalo, a Falha de San Andreas, 1.280 quilômetros de perto de Salton Sea, no Deserto de Mojave, até Cabo Mendocino, ao sul de Eureka. Eles descobriram que ela sofria rupturas repetidas e que os terremotos pareciam ser cíclicos.

Investigação posterior revelou outras seis grandes falhas correndo
paralelamente em intervalos de 16 a 32 quilômetros pelo Norte da Califórnia. "Elas todas podem provocar terremotos devastadores", disse Zoback. "O abalo muito forte que mais tememos pode ocorrer por toda a região."

Códigos de construção mais severos só surgiram depois que 67 pessoas
morreram no terremoto de San Fernando de 1971, no Sul da Califórnia. Agora estacarias penetram profundamente abaixo de camadas de aterro artificial para sustentar prédios altos como o Transamerica Pyramid de San Francisco. A torre de 48 andares oscilou mais de 30 centímetros durante o Loma Prieta, alarmando os trabalhadores mas escapando de danos. Outras estruturas com estacaria profunda: o AT&T Park, o estádio de beisebol dos Giants, e o terminal internacional do Aeroporto de San Francisco.

A vida não segue normalmente

Designar um prédio como "resistente a terremoto" -o padrão moderno-
significa que ele não ruirá. Isto não significa que a vida seguirá
normalmente. "O público pensa que significa nenhum dano", disse Richard
McCarthy, diretor executivo da Comissão de Segurança Sísmica da Califórnia. "Isto significa que eu e você sairemos vivos do prédio, mas no dia seguinte eles darão início à demolição."

A maioria dos prédios mais antigos de alvenaria -as principais pilhas de escombros nos grandes terremotos- foi reforçada. Mas ainda vulneráveis estão as casas no estilo característico de San Francisco: apartamentos de estrutura de madeira com vários andares acima de garagens no térreo e as fachadas comerciais de vidro.

"Nós não sabemos quantos ruiriam, certamente centenas, talvez milhares", disse Laurence Kornfield, um dos principais inspetores de construção de San Francisco. "Há prédios muitos importantes para a cidade -visualmente e culturalmente." Muitos são imóveis de aluguel e os proprietários têm pouco incentivo para reformá-los segundo os novos códigos porque não poderiam repassar os custos para os inquilinos.

Quanto aos prédios de concreto pré-1970, incluindo muitos arranha-céus, a cidade está "apenas começando a entender o tamanho do risco", disse
Kornfield. Adaptá-los poderia custar três quartos do custo de substituir tal prédio, mas a alternativa é sombria. "Em um colapso de concreto, praticamente todo mundo em seu interior acabaria sob a pilha de escombros", ele disse.

Em obras públicas o tempo é tudo. Uma reforma de US$ 4,5 bilhões da Hetch Hetchy só será concluída em 2015. Um grande terremoto hoje poderia significar a perda do serviço, racionamento, ordens para que água seja fervida, talvez até reservatórios vazios. Após 2015, "nós seremos capazes de restaurar o serviço em 24 horas", disse Tony Winnicker, porta-voz da Comissões de Serviços Públicos de San Francisco.

Grandes pontes, exceto a Bay Bridge, foram reforçadas, mas as rampas de
acesso poderiam ficar intransitáveis. Trechos de duas importantes vias
norte-sul construídas sobre aterros, a US 101 no lado oeste da baía e a
Interestadual 880 no lado leste, provavelmente rachariam, ruiriam ou
afundariam. Se um terremoto ocorresse durante as chuvas de inverno, os
deslizamentos de terra poderiam enterrar as estradas leste-oeste que cortam as montanhas costeiras, disse Zoback.

Os trens Bart de Oakland-San Francisco ficariam isolados em cada lado da baía em caso de inundação da linha. Os passageiros, se ainda tiverem
empregos para os quais ir, teriam que usar balsas.

A atividade comercial no Porto de Oakland, o quarto maior do país, poderia ser atrapalhada caso alguns de seus 37 guindastes gigantes que descarregam carga saíssem dos trilhos ou se o desembarque de alimentos e suprimentos de emergência se tornasse uma prioridade. As pistas dos aeroportos de San Francisco e Oakland poderiam se partir ou afundar na baía. O cancelamento ou desvio dos 1.000 vôos diários de San Francisco causaria o caos no tráfego aéreo nacional.

A Cruz Vermelha já escolheu escolas, igrejas e prédios públicos para uso como abrigos, disse Kellenberger, "mas nós não temos idéia em que condições eles estarão após um terremoto".

O programa de US$ 2,5 bilhões da Pacific Gas and Electric para substituir 800 quilômetros de linhas de gás vulneráveis e reforçar as instalações de transmissão e fornecimento está 90% completo. "Mas não significa que não teremos nenhum incêndio", disse Lloyd Cluff, diretor do departamento de geociências da empresa.

Uma pesquisa de 2002 do arquiteto do Estado revelou que um forte terremoto poderia danificar seriamente as 7.500 escolas construídas antes de 1978. Os distritos escolares não têm dinheiro para adaptá-las e apenas uma em cada 10 requisitou os resultados da pesquisa. As escolas particulares, freqüentadas por um terço das crianças de San Francisco, não foram pesquisadas.

Após o terremoto de 1994 em Northridge, perto de Los Angeles -magnitude 6.7, 60 mortos- o Estado deu a seus 430 hospitais até 2008 para transformarem os prédios inseguros em à prova de colapso. Metade deles pediu mais tempo, enquanto outros esperam que o Estado não cobrará o prazo, disse Jan Emerson, um porta-voz da Associação dos Hospitais da Califórnia.

Os hospitais têm até 2030 para serem capazes de continuar funcionando após um terremoto. O San Francisco General, cujo centro de traumas seria crucial em um desastre, optou pela reconstrução em vez da reforma, mas ainda levará sete anos para sua conclusão.

Fatores econômicos

Políticas e recursos escassos inevitavelmente afetam os preparativos para um terremoto. "Quando você está cortando serviços para a comunidade diariamente por limitações orçamentárias, não há muita vontade política para gastar dinheiro em algo que poderá nunca acontecer", disse Frances Edwards, uma ex-diretora de serviços de emergência de San Jose.

Quatro anos atrás, a comissão de construção de San Francisco encerrou um estudo após as conclusões preliminares terem previsto que um terço das moradias da cidade ruiriam ou ficariam seriamente danificadas em caso de um grande terremoto. O estudo revelou que 83% das moradias da cidade foram construídas antes dos códigos modernos de construção. Sob pressão, a comissão retomou o estudo no ano passado.

As empresas precisam de incentivos fiscais para construir prédios que não apenas sobrevivam a um terremoto, mas que permaneçam operacionais após ele, disse McCarthy, da comissão de segurança sísmica.

Quanto mais empresas permanecerem em atividade, mais cedo as comunidades retomariam a normalidade, ele disse. E o Estado perderia menos receita de impostos. A idéia não encontrou apoio no Legislativo.

Para os planejadores de desastre da Área da Baía que contavam com uma rápida resposta federal, o Katrina foi uma revelação. Isto levou as agências e governos locais a uma parceria mais estreita, disse McCarthy.

"Antes nós achávamos que a Fema (a agência federal para o gerenciamento de emergências) chegaria aqui e faria algo logo a seguir", ele disse. "Agora isto é duvidoso. Nós estaríamos por nossa própria conta por um longo tempo." George El Khouri Andolfato

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