Rainha faz 80 anos e britânicos questionam se monarquia está ultrapassada

Jeffrey Stinson
em Londres

A rainha Elizabeth 2ª, cujo tempo de ocupação do trono só é inferior ao de três monarcas britânicos, faz 80 anos nesta sexta-feira (20/04).

Ela passará o seu aniversário da mesma forma que passou os seus 54 anos como símbolo do governo britânico: na quarta-feira passada, ela deu um almoço para 99 britânicos que fazem anos na mesma data. Na quinta-feira, visitou o Real Instituto de Questões Internacionais e a BBC. As duas instituições também estão fazendo 80 anos. Nesta sexta-feira, ela fará as suas "perambuladas reais" para falar com os seus súditos na cidade de Windsor. Elizabeth finalizará o dia com um jantar organizado pelo seu filho e herdeiro do trono, o príncipe Charles, e a sua mulher, Camilla.

Embora ela já tenha ultrapassado em 15 anos a idade normal de aposentadoria no Reino Unido, Elizabeth não desiste do trono. "Ela sempre deixou claro que não vai abdicar", afirma a porta-voz do Palácio de Buckingham, Ailsa Anderson. E, segundo Anderson, ela tampouco delegará quaisquer das suas tarefas a Charles, apesar da sua idade avançada.

Enquanto a popular Elizabeth entra nos seus anos de crepúsculo, alguns britânicos se perguntam se a monarquia britânica de mil anos deve acabar junto com a rainha - especialmente ao considerarem que o próximo na linha sucessória é o impopular Charles, de 57 anos.

Os defensores da monarquia dizem que a manutenção de Elizabeth como chefe simbólica de uma grande nação, realizando tarefas cerimoniais, vale os US$ 65 milhões que a instituição monárquica custa anualmente aos contribuintes britânicos. "Praticamente a partir do dia do seu nascimento ela vem cumprindo os seus deveres sem hesitação ou queixa", afirma o historiador Robert Lacey, que escreveu duas biografias de Elizabeth. "Este é um dos motivos pelos quais há uma afeição profunda e permanente por ela".

Os oponentes, entretanto, vêem a monarquia e o seu direito de nascença ao privilégio e à riqueza como anacronismos no século 21. "As pessoas querem decidir quem as lidera", afirma Graham Smith, coordenador de campanha do República, o principal grupo antimonárquico do país. Smith e o seu grupo dizem que a monarquia deveria ser substituída por alguém que fosse eleito para representar a nação de maneira cerimonial. Eles alegam que uma liderança cerimonial desse tipo custaria à nação menos do que a realeza.

Smith acredita que a impopularidade de Charles se constitui em um fator para o início de um debate sério sobre a abolição da família real. Somente 37% dos britânicos acham que Charles deveria suceder a sua mãe, segundo uma pesquisa de opinião publicada em 5 de abril último no "The Times", de Londres.

Na verdade, a pesquisa, baseada em entrevistas feitas com 1.503 pessoas entre 31 de março e 2 de abril, e conduzida pelo instituto Populus, revelou que 39% dos britânicos prefeririam que o filho mais velho de Charles, o príncipe William, pulasse a vez do pai e fosse coroado rei.

"Isso é algo que certamente nos ajuda", afirma Smith. "A popularidade do príncipe Charles é mínima. Existe com certeza um problema com relação a ele, e tiraremos vantagem disso".

As aflições de Charles

O aparentemente azarado Charles - retratado como o vilão no seu divórcio da popular princesa Diana, após admitir ter um caso com Camila, o seu verdadeiro amor, com quem se casou no ano passado - não parece contar com nenhuma trégua.

No mês passado, Charles foi acusado por alguns membros do Parlamento de ter ultrapassado os tradicionais limites impostos à família real no sentido de não interferir nas questões políticas.

A crítica ocorreu depois que Charles foi a um tribunal para reclamar de infração de direitos autorais quando o jornal londrino "Mail on Sunday"
publicou diários que ele escreveu durante a sua visita a Hong Kong, em 1997, para a transferência da ex-colônia britânica à China. Nos diários, Charles se referiu à devolução do território como "a grande garfada chinesa".

Ele chamou os líderes chineses de "velhos e apavorantes bonecos de cera" e desprezou o discurso feito pelo presidente chinês, chamando-o de "propaganda".

O ex-secretário de Charles, Mark Bolland, revelou no tribunal que o príncipe com freqüência envia missivas a Tony Blair, e a membros do Gabinete e do Parlamento, sobre as mais diversas questões, como meio-ambiente e arquitetura.

Segundo Bolland, Charles se autodefine como "um dissidente trabalhando contra o consenso político prevalecente".

Charles ganhou a sua causa na Justiça, mas foi crucificado no tribunal da opinião popular. Embora Blair tenha defendido Charles e o seu direito de se manifestar sobre as questões atuais, outros não o defenderam. Paul Flynn foi um dos vários membros do Parlamento que advertiram que a monarquia entrará em colapso caso o príncipe continue a interferir na política.

Flynn, um membro do Partido Trabalhista de Newport West, no País de Gales, disse à Associação de Imprensa: "Se Charles não resistir ao desejo de interferir na política, a monarquia correrá grave perigo tendo ele como chefe de Estado".

Ingrid Seward, editora da revista "Majesty", afirma que algo que Elizabeth não faria seria manifestar publicamente opiniões sobre questões políticas.

"Ela está acima da política", diz Seward. "Os seus súditos sabem que, em seu coração, ela se preocupa com o bem-estar deles. E Charles não poderá mais se aventurar nas questões de natureza política caso se torne rei".

Duas semanas atrás, Charles teve que ler nos jornais que o seu segundo filho, o príncipe Harry, 21, participou de uma festa com dançarinas de strip-tease quando ele e a sua turma concluíram o treinamento no Colégio Militar Sandhurst. E no primeiro aniversário do seu casamento com Camilla, ele viu a pesquisa do "The Times", que também indicou que 56% dos britânicos não desejam que a sua nova mulher se torne rainha.

Seward, que acha que Charles será um bom rei, diz que o Príncipe de Gales é uma vítima da imprensa marrom. Segundo ela, como resultado, é fácil de entender por que ele é menos popular que o seu filho William, de 23 anos.

"As pessoas lêem a respeito da sua vida pessoal esquisita e dos seus comentários, e isso as deixa nervosas", diz ela, referindo-se a Charles. "Acho que os indivíduos olham para o príncipe e dizem: 'Ele não conseguiu controlar Diana, então, o que o faz pensar que poderia ser rei?'".

Já o príncipe Williams, alto e louro como a mãe, Diana, fica longe de confusões, é discreto e bem comportado. "Quem não gostaria de um monarca jovem e bonito?", diz Seward. "Ele faz lembrar a imagem glamorosa, divulgada por Hollywood, que temos de um monarca".

A idade pode ser um problema

Como a rainha não abdicará, a idade poderá de fato ser um problema para Charles. Embora a rainha tenha 80 anos, ela parece estar bem robusta. A sua genitora, a rainha-mãe Elizabeth, viveu até os 102 anos, tendo morrido em 2002.

O historiador Lacey despreza grande parte dessas conjecturas. Ele afirma que Charles se tornará rei, e garante que a monarquia britânica e a mística que a rodeia são maiores que as personalidades envolvidas, incluindo o Príncipe de Gales.

"William pode ser jovem e glamoroso agora, mas dentro de 15 anos estará a caminho da meia-idade e perdendo os cabelos", diz Lacey. "As pessoas o enxergarão da maneira como atualmente enxergam Charles".

Ele também repele os argumentos dos inimigos da monarquia, como Smith, que vêem na ascensão de Charles ao trono a rota para o fim da realeza e o prenúncio do dia em que os britânicos elegerão um chefe de Estado cerimonial.

"Não creio que muitos britânicos acreditem que precisamos de um outro político, de uma personalidade esportiva ou de uma celebridade para sentar-se no Palácio de Buckingham", diz ele.

David Culver, 67, um oficial da reserva da Real Força Aérea, diz que não quer que a monarquia seja substituída por ninguém, especialmente por um político, já que não confia na classe política.

"Sou bastante conservador quanto a isso", afirma Culver, que passava pelo Palácio de Buckingham na última terça-feira quando os turistas se aglomeravam para ver a troca da guarda. "Como membro das forças armadas, jurei lealdade à rainha. Sim, são os políticos no governo que decidem se vamos à guerra. Mas, em última instância, a lealdade é para com a rainha".

Lacey observa que a popularidade da família real sobe e desce no decorrer dos anos. Ela é maior quando o amor está no ar, ou quando nasce um novo bebê. E decresce durante períodos de dificuldade econômica, quando o povo questiona por que está pagando milhões de libras esterlinas para financiar os gastos com o estilo de vida, as viagens e os serviçais da realeza.

Apesar da ambivalência, os britânicos e a realeza parecem caminhar de mãos dadas. Como escreveu Shakespeare: "Este trono real de reis, este lote abençoado, esta terra, este reino, esta Inglaterra".



A rainha é mais popular que o rosbife

Em uma pesquisa feita em dezembro pelo instituto GfK NOP, solicitou-se a mil indivíduos na Inglaterra, na Escócia, no País de Gales e na Irlanda do Norte que citassem um ícone que representasse a Inglaterra tradicional. A monarquia foi a escolha mais popular, com 48% das respostas. Em segundo lugar ficou o rosbife, com 42%.

"Ela é parte da nossa história. É algo do qual temos orgulho. É uma instituição maior do que as personalidades", afirma a psicóloga Jessica Walker, 23, referindo-se à monarquia.

Walker está se mudando de Londres para a Nova Zelândia, onde a rainha Elizabeth ainda será a sua chefe de Estado cerimonial porque aquela nação faz parte da Comunidade de Nações Britânicas. Segundo ela, isso lhe dá uma sensação de conforto e continuidade. "A monarquia ainda é um símbolo, aqui e na Nova Zelândia. Se a abolirmos, removeremos esses vínculos".

Devido ao fato de a monarquia existir há tanto tempo e ter abrigado tantas personalidades, Lacey não consegue vislumbrar um dia em que a instituição desaparecerá - enquanto monarcas, como Elizabeth, cumprirem as suas obrigações e colocarem o país acima de si próprios.

"A monarquia é sempre melhor quando está cumprindo as suas funções", diz ele. "Se não tivéssemos uma família real e as ladies com os seus chapéus, quem visitaria os hospitais, os hospícios e receberia as saudações dos soldados?". Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos