Antipsicóticos para adultos podem agravar problemas de crianças

Marilyn Elias

Evan Kitchens, um garoto alegre que cursava a quarta série, adorava basquete e idolatrava o seu irmão de 16 anos, foi hospitalizado devido a uma doença mental quando tinha oito anos de idade.

O garoto, de Banderas, no Estado do Texas, era agressivo e hiper-ativo, tendo sido diagnosticado como portador de vários outros problemas, incluindo desordem obsessiva-compulsiva e uma outra doença classificada como uma forma de autismo.

Há dois anos, Evans estava tomando cinco remédios psiquiátricos, conta a sua mãe, Mary Kitchens. Dois deles eram da família dos chamados antipsicóticos atípicos, um grupo de drogas relativamente novas aprovadas pela Administração de Alimentos e Remédios (FDA, na sigla em inglês) para o tratamento de adultos com esquizofrenia ou desordem bipolar.

"Tomando todos esses medicamentos, Evan era um zumbi ambulante", conta Kitchens. No apogeu dessa situação angustiante, há dois anos, ela não sabia se o filho sobreviveria, e muito menos se levaria uma vida normal.

Evan era acometido por graves tremores corporais e mal falava. Ele era vesgo, tinha o número de células brancas no sangue perigosamente baixo e sofria de uma desordem da tireóide. "Todos esses sintomas que emergiram depois que ele passou a tomar os remédios antipsicóticos atípicos", diz Kitchens. Agora, ele deixou de tomar esses medicamentos, e usa apenas um remédio para distúrbio do déficit de atenção. E o garoto está mentalmente mais saudável do que nunca.

Essas seis novas drogas antipsicóticas - Clorazil, Risperdal, Zyprexa, Seroquel, Abilify e Geodon - não foram aprovadas para serem usadas por crianças, mas os médicos podem prescrevê-las aos pacientes infantis utilizando receitas oficialmente fornecidas para outras finalidades. E, segundo uma nova análise de uma pesquisa federal feita por cientistas da Escola de Medicina Vanderbilt, a prescrição de medicamentos antipsicóticos atípicos para crianças agressivas como Evan está conduzido a área de psiquiatria infantil rumo a um crescente mercado da pediatria.

As receitas desses remédios para crianças que não estão internadas na faixa etária de dois a 18 anos praticamente quintuplicaram - passando de pouco menos de meio milhão para cerca de 2,5 milhões - de 1995 a 2002, conforme demonstra a pesquisa.

Ao mesmo tempo, relatos de mortes e de perigosos efeitos colaterais potencialmente vinculados a esses medicamentos têm aumentado. Uma análise feita pelo "USA TODAY" de dados da FDA revela que houve pelo menos 45 casos de mortes de crianças de 2000 a 2004 nas quais um antipsicótico atípico foi considerado "o principal suspeito". Mais de 1.300 casos disseram respeito a efeitos colaterais sérios, incluindo alguns que podem colocar a vida em risco, tais como convulsões e uma baixa contagem de células brancas.

Tratamentos sem remédios

O tratamento com pílulas de crianças que apresentam comportamento problemático é algo complicado, sendo objeto de debates entre os especialistas.

"Segundo a minha experiência, e a de vários psiquiatras, os antipsicóticos são, com freqüência, utilizados de maneira excessiva nos casos de jovens pacientes agressivos", afirma Ronald Pies, professor de medicina da Universidade Tufts e autor do livro "Handbook of Essential Psychopharmacology" ("Manual de Psicofarmacologia Essencial").

Ele acrescenta que isso não significa que seja necessariamente errado prescrever as pílulas.

Ninguém duvida de que as vidas de crianças esquizofrênicas ou gravemente maníacas possam ser salvas pelos antipsicóticos. Mas vários tratamentos que não se baseiam em remédios podem ajudar a fazer com que as crianças agressivas e problemáticas não tenham que tomar os atípicos, afirma John March, diretor de psiquiatria de crianças e adolescentes da Escola de Medicina da Universidade Duke.

Muita coisa depende dos tratamentos mais seguros serem eficazes para crianças.

As crianças que tomam antipsicóticos para contenção da agressividade muitas vezes podem parar de tomar esses remédios caso haja mudanças familiares, afirma o pediatra comportamental Lawrence Diller, de Walnut Creek, na Califórnia. Por exemplo, os adolescentes podem reagir raivosamente caso os seus pais briguem ou a disciplina seja inconsistente, afirma Diller. Após um divórcio, o filho muitas vezes acaba ficando com o pai menos efetivo.

No ano passado, Diller atendeu a um garoto de oito anos que tomava quatro drogas psiquiátricas, incluindo uma atípica. Ele morava com a mãe, "que era altamente ansiosa e incompetente para exercer o papel materno". Quando ele foi morar com o pai, os seus sintomas praticamente desapareceram, e ele não precisou de nenhum medicamento.

O psiquiatra infantil George Stewart diz que viu dezenas de crianças agressivas deixarem de tomar os medicamentos antipsicóticos atípicos durante o seu trabalho no consultório particular ou como diretor médico de um centro de tratamento residencial em Concord, no Estado da Califórnia. Segundo ele, com muita freqüência os médicos prescrevem os remédios sem levar em conta as condições familiares ou as experiências de vida que causam um comportamento agressivo, fatores que podem ser modificados com um aconselhamento intensivo. Eis três exemplos apresentados por ele:

- Um garoto com menos de três anos de idade tomava dois antipsicóticos em uma pré-escola terapêutica para crianças com sérios problemas comportamentais. Stewart se deparou com uma complexa história familiar, descobrindo que a mãe adolescente teve vários namorados que exibiam um comportamento abusivo. "Ele se comportava daquela forma devido a esse problema, mas ninguém se deu ao trabalho de descobrir o que estava ocorrendo na casa", diz Stewart, que trabalhou com a mãe da criança no sentido de melhorar as condições domésticas. "Ela adotou um estilo de vida mais tranqüilo". O garoto parou de tomar os antipsicóticos atípicos e está bem.

- Um garoto de 12 anos com surtos descontrolados de cólera - "estou
falando de uma criança que espalhava fezes pelo banheiro" - foi tratado no centro de Stewart. A terapia intensiva identificou as fontes da sua ira e ensinou o garoto a lidar com o problema. Ele retornou para casa, sem tomar mais nenhum medicamento.

- Uma adolescente parecia ser dona de uma violência intratável. "Ela
tentava furar os olhos dos outros com um lápis", conta Stewart. O psiquiatra descobriu que ela havia sido estuprada e que passara por outro trauma sério. A garota deixou de tomar os antipsicóticos e passou a receber aconselhamentos. Agora, com cerca de 18 anos, ela vive de forma independente, e está se saindo bem sem tomar drogas psiquiátricas.

Umas das tendências mais preocupantes e potencialmente perigosas associadas aos antipsicóticos atípicos é a chamada "polifarmácia": fornecer rotineiramente às crianças várias drogas psiquiátricas, afirma o psiquiatra infantil Joseph Penn, do Hospital Bradley e da Escola de Medicina da Universidade Brown, em Providence, no Estado de Rhode Island. "Sabemos muito pouco sobre a interação dessas drogas e sobre os efeitos que elas podem estar causando nas crianças", diz ele.

Em certos casos, os benefícios associados à prescrição de múltiplos medicamentos podem compensar os riscos, mas Penn diz estar perplexo por ter constatado a freqüência com que poderosíssimos antipsicóticos atípicos são prescritos a crianças que sofrem de insônia, quando estas estão tomando outros medicamentos.

"Vi centenas de casos desse tipo", afirma Penn. "E muitas vezes os pais não parecem ter sido informados sobre as várias opções bem menos arriscadas, medicamentosas ou não".

Às vezes problemas de saúde ou medicamentos para a desordem da hiper-atividade ou do déficit de atenção causam insônia. Segundo Penn, em vez de combaterem as causas, muitos médicos acrescentam um antipsicótico atípico a uma salada de remédios.

Mais pesquisa é necessária

Houve poucas pesquisas de longo prazo e cuidadosamente controladas sobre o efeito da maior parte das drogas psiquiatras sobre as crianças, incluindo os antipsicóticos atípicos. A FDA está procurando fomentar mais pesquisas pediátricas sobre os atípicos, diz Thomas Laughren, diretor da divisão de produtos psiquiátricos da agência.

A FDA pediu a cinco companhias farmacêuticas que fabricam os medicamentos que os testassem em crianças que sofrem de esquizofrenia e desordem bipolar, as doenças para cujo tratamento em adultos esses remédios foram aprovados. Segundo a lei, essa companhias podem obter uma extensão de seis meses das suas patentes por realizarem tais estudos.

Além disso, as empresas farmacêuticas estão realizando os seus próprios estudos pediátricos em crianças que padecem das mais diversas desordens, como a desordem do déficit de atenção por hiper-atividade, o autismo, a desordem de conduta e a síndrome de Tourette.

A Janssen LP solicitou à FDA a aprovação do uso do seu antipsicótico atípico, o Risperdal, para o tratamento de sintomas de autismo, diz Ramy Mahmoud, vice-presidente de questões médicas da Janssen.

O Instituto Nacional de Saúde Mental também está conduzindo estudos pediátricos, mas as pesquisas são preponderantemente custeadas e supervisionadas pelas companhias farmacêuticas.

Mesmo se as companhias obtiverem aprovação, isso não garantirá a segurança ou a eficácia do uso dos medicamentos pelas crianças, diz David Graham, do Departamento de Segurança de Medicamentos da FDA, que enfatiza que não responde pela agência. "Você sabe basicamente que a droga não é nenhum cianureto. Mas não sabe muita coisa mais", critica Graham, que foi quem primeiro chamou a atenção para o problema no escândalo das doenças cardíacas vinculadas ao Vioxx, em 2004. De acordo com ele, os testes financiados pela indústria têm uma probabilidade quatro ou cinco vezes maior que os estudos independentes de revelar a eficiência de uma droga.

De acordo com uma análise de pesquisa publicada em fevereiro deste ano, 90% dos estudos financiados pela indústria farmacêutica geram resultados favoráveis aos medicamentos fabricados pela companhia financiadora.

Em pesquisas comparativas que testam mais de uma droga antipsicótica atípica, os resultados são contraditórios, favorecendo os medicamentos fabricados pelas companhias que estão financiando tais pesquisas (essas pesquisas incluíram estudos sobre os medicamentos Risperdal, Zyprexa, Clozaril e Geodon, mas nenhum sobre o Seroquel ou o Abilify).

"Parece que a companhia que patrocina os testes é aquela que produz o melhor medicamento antipsicótico", escreveu o pesquisador Stephan Heres, da Universidade Técnica de Munique, no "American Journal of Psychiatry".

E os estudos de menor dimensão e de curto prazo exigidos das companhias raramente detectam problemas mais sérios, afirma Graham.

"O povo norte-americano está acreditando que um remédio é seguro apenas porque foi aprovado pela FDA", adverte Jeffrey Lieberman, diretor de psiquiatria da Faculdade Columbia de Médicos e Cirurgiões, em Nova York. Segundo ele, estudos cuja duração é de poucas semanas ou alguns meses, feitos com um total de dois mil pacientes, são incapazes de revelar tudo o que há de errado com um medicamento.

"É muito difícil responder a cada pergunta, conforme gostaríamos, com esses estudos, porque é óbvio que eles não são extensos. Às vezes, efeitos negativos só serão descobertos quando o medicamento for utilizado de maneira mais disseminada", afirma Laughren.

Ele diz que também se preocupa com o fato de os antipsicóticos serem prescritos a crianças sem que haja comprovação de segurança ou eficiência. Segundo Laughren, maiores informações pediátricas sobre os atípicos estarão disponíveis dentro de cinco anos.

Mudanças recomendadas

Outros apóiam mudanças fundamentais a fim de que se descubram os fatos necessários a respeito da segurança dos medicamentos. Lieberman acredita que uma solução seria que a FDA passasse a contar com uma nova autoridade legal: o direito de exigir que as companhias farmacêuticas que desejam obter a aprovação de um medicamento contribuam para um fundo coletivo no Instituto Nacional de Saúde. O instituto poderia supervisionar estudos mais amplos sobre a segurança e a eficácia dos remédios depois que estes estivessem no mercado.

Um banco de dados eletrônico nacional com registros médicos, que registraria todos os efeitos colaterais perniciosos dos medicamentos, e que exigiria a especificação de idades e diagnósticos, poderia contribuir bastante para proteger as crianças das prescrições descuidadas e revelar os efeitos dos antipsicóticos, afirma March, da Universidade Duke.

"Sabemos muito pouco sobre o que está ocorrendo com todas as crianças que estão tomando esses poderosos antipsicóticos", diz ele.

March também acha que se deveria insistir em que as crianças agressivas experimentassem as terapias sem o uso de medicamentos, com a eficácia já comprovada, antes que os seus médicos lhes prescrevessem antipsicóticos. Segundo March, essas pílulas podem soar como uma atraente "solução rápida", e por isso são tão populares.

"Para as crianças adotadas que sofrem de problemas mentais, a medicação é a principal forma de tratamento", diz Ira Burnim, diretor do Centro Bazelon de Legislação sobre Saúde Mental, um grupo de direitos humanos especializado nas pessoas com problemas mentais. "Está provado que o tratamento mais eficaz é o polivalente, o que significa que envolve a escola da criança, o médico, e as famílias adotivas ou biológicas, além de garantir o fornecimento de terapia ou de medicamentos, conforme necessário".

"Atualmente os profissionais estão medicando demais as crianças, em vez de fornecer-lhes os serviços das quais elas necessitam. O tempo que elas passam com os psiquiatras é muito curto, e não se presta muita atenção nos efeitos colaterais desses medicamentos pesados", alerta Burnim.

"A quantidade de tratamento polivalente fornecido a crianças adotadas varia de um Estado para outro, mas o padrão típico é a aplicação de medidas isoladas", diz Burnim. "Eles se baseiam fortemente em medicamentos como os antipsicóticos. No longo prazo, isso custa mais do que o tratamento polivalente, além de ser menos seguro para as crianças".

March acha que o uso disseminado de antipsicóticos em crianças sem que haja comprovação de segurança ou de eficácia se constitui em "uma experiência muito grande". Muitas crianças estão ficando com o lado mais fraco da corda, diz ele. "Não estamos sequer coletando bons dados sobre os resultados dos experimentos. E esta é a pior situação possível". Danilo Fonseca

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