Resistentes aos antibióticos, superbactérias causam medo nos EUA

Anita Manning

Na noite de Natal do ano passado, Bryce Smith, de 14 meses de idade, apresentou um quadro de pneumonia provocado por uma infecção causada por um tipo de estafilococo chamado MSRA, resistente a medicamentos. O seu pai, Scott Smith, conta que o pediatra de Bryce disse a ele e a sua mulher, Katie, que o bebê tinha um resfriado, e que eles não deveriam se preocupar.

Quando eles levaram Bryce ao hospital, uma semana depois, a infecção tinha aberto um buraco no seu pulmão, e os médicos avisaram aos pais que não sabiam se a criança sobreviveria.

Bryce, de volta ao lar e novamente saudável, após ter passado 55 dias no hospital, é um dentre milhares de crianças e adultos que foram infectados pelo MSRA (sigla em inglês para Staphylococcus aureus resistente a meticilina), uma bactéria que só costumava ser encontrada em hospitais ou asilos. Eles são vítimas de uma nova e perigosa variedade de MRSA presente em todos os Estados Unidos, e que se dissemina pelas comunidades.

A bactéria causa infecções, de abscessos a septicemias fatais, de infecções ósseas a pneumonias, muitas vezes em indivíduos jovens e em boa forma física, incluindo jogadores profissionais de futebol americano, atletas de escolas de segundo grau e crianças saudáveis.

"Ninguém sabe se a bactéria se espalhou do hospital para a comunidade, ou se se transformou em uma nova variedade fora do ambiente hospitalar. Isso é um mistério", afirma John McGowan, professor de epidemiologia da Universidade Emory. Mas estudos recentes do genoma sugerem que a variedade MRSA que circula na comunidade é bem diferente daquelas tipicamente encontradas em hospitais. "Existem diferenças na seqüência do genoma da variedade encontrada na comunidade que a tornam mais virulenta, mais capaz de afetar pessoas com sistemas imunológicos saudáveis e dotada de diferenças biológicas que possibilitam que se alastre rapidamente", diz ele.

O MRSA se tornou tão comum que em muitos hospitais mais de metade de todas as infecções causadas por estafilococo é resistente às drogas, e isso está fazendo com que os médicos modifiquem a maneira como tratam essas infecções comuns.

"Quando recebemos um paciente com infecção por estafilococo, assumimos que a bactéria seja resistente, até prova em contrário", explica o pediatra Sheldon Kaplan, do Hospital Infantil do Texas, em Houston, no qual a taxa de infecção por MRSA saltou de 33% em 2000 para os atuais 75%.

Bactérias resistentes aos medicamentos, incluindo o MRSA e várias outras que têm surgido nos hospitais, são mais difíceis de serem combatidas, exigindo antibióticos mais fortes que são mais caros e que muitas vezes precisam ser administrados por via intravenosa.

Poucas medicações novas à vista

"Poucas das grandes companhias farmacêuticas contam com novas medicações prestes a serem lançadas no mercado, e que combatam especificamente esses organismos resistentes às drogas", alerta George Talbot, da força-tarefa de disponibilidade de drogas antimicrobianas da Sociedade de Doenças Infecciosas da América.

"Várias dessas companhias tomaram decisões baseadas na conclusão de que a pesquisa com antibióticos não seria suficientemente lucrativa para possibilitar que elas atendessem às suas obrigações para com os acionistas", diz Talbot, especialista em doenças infecciosas e consultor de empresas farmacêuticas. "Assim, eles decidiram desenvolver medicamentos que seriam usados durante a vida inteira - drogas para combater o diabetes ou a hipertensão arterial - em vem de remédios para serem tomados por apenas uma semana".

Ele afirma que companhias menores de biotecnologia estão preenchendo esta lacuna, fazendo pesquisas básicas a fim de identificar novas drogas promissoras. "Mas não se sabe se essas empresas de menor porte contarão com a capacidade técnica ou os recursos financeiros para colocarem tais medicamentos no mercado", adverte Talbot.

"Em alguns casos, as pequenas companhias formam parcerias com empresas maiores e mais ricas que arcam com os custos dos estudos e do marketing em grande escala, mas tais acordos precisam ser firmados em áreas nas quais as grandes companhias percebam que há um benefício econômico", diz o especialista.

O MRSA, por exemplo, proporciona um grande mercado para essas empresas, porque está afetando muita gente e vários antibióticos podem ser utilizados contra ele. Já no caso de micróbios menos conhecidos resistentes a drogas, as opções de tratamento são mais reduzidas.

O MRSA é conhecido nos hospitais desde a década de 1970, mas nos últimos anos, novas variedades, que os médicos chamam de MRSA adquiridos na comunidade, infectaram pessoas fora dos centros de saúde. Uma dessas variedades, a USA300, foi identificada em 2000, já tendo sido encontrada em pelo menos 21 Estados.

"O que estamos presenciando é a emergência de uma nova cepa epidêmica do MRSA na comunidade", avisa Daniel Jernigan, médico epidemiologista do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês).

O CDC vem emitindo relatórios sobre a nova cepa adquirida na comunidade desde 2000, e a instituição anunciou em março passado que esta variedade causou surtos infecciosos em berçários de hospitais em Chicago e Los Angeles. Nove dos 22 bebês infectados precisaram ser hospitalizados. Outros estudos mencionaram períodos mais longos de internação e índices de mortalidade mais elevados nos pacientes infectados pelo MRSA.

"O Staphylococcus Aureus é a causa mais comum das cerca de 12 milhões de infecções de pele registradas todos os anos nos Estados Unidos", afirma Jernigan. Um estudo conduzido em 2003 revelou que cerca de um terço das pessoas possuem esta bactéria nas suas narinas e que um pouco menos de 1% delas é portadora do MRSA. A maioria não fica doente.

"Acreditamos que o número de indivíduos portadores do MRSA está aumentando", diz Jernigan, mas os novos estudos ainda não foram concluídos.

Não se sabe até que ponto as infecções por MRSA são comuns. Segundo um estudo do CDC com base em dados relativos a internações de pacientes em 1999 e 2000, quase 126 mil pessoas foram hospitalizadas em cada um daqueles anos devido a infecções causadas pelo MRSA, o que representa um índice de quase quatro pacientes infectados pela bactéria por mil internações hospitalares.
Um outro estudo efetuado em 11 salas de emergência por todo o país revelou que quase 60% dos abscessos cutâneos examinados foram causados pelo MRSA.

A nova supervariedade de MRSA tem se concentrado em certas regiões geográficas, incluindo a Califórnia, o Texas e a Georgia, mas Kaplan diz que este quadro está mudando. "A bactéria está presente em Pittsburgh, Memphis, Saint Louis e Omaha. Ela agora está se tornando mais comum na Costa Leste.
Ou seja, o MRSA está espalhado por praticamente todo o país".

Pesquisadores da Universidade da Califórnia que fizeram o seqüenciamento do genoma do USA300 anunciaram na edição de 4 de março último do periódico "The Lancet" que esta cepa contém gentes que o tornam resistente, e capaz de causar "doenças inusualmente invasivas", tais como graves infecções sangüíneas e pneumonia necrosante, que provoca a destruição do tecido pulmonar.

O MRSA adquirido na comunidade infectou atletas, incluindo jogadores dos times de futebol americano Washington Redskins, Saint Louis Rams e San Francisco 49ers, bem como dezenas de jogadores deste esporte em escolas de segundo grau e universidades, e ainda lutadores e jogadores de basquete. Ele provocou infecções em prisões, bases militares e creches, e em quaisquer outros lugares nos quais existissem aglomerações, má higiene e indivíduos com ferimentos na pele.

Você não precisa estar em um ginásio de esportes ou em uma cadeia para correr risco. "Para ser infectado, basta estar vivo", alerta Kaplan. "Esta não é uma superbactéria de vestiários de ginásios de esporte. Ela está presente em toda a comunidade. Cerca de 1.700 crianças deram entrada no nosso hospital com infecções por estafilococo. Elas não jogam futebol. São bebês. A razão para que isto esteja acontecendo nos últimos dez anos é desconhecida".

Barreiras se rompendo

Cepas do MRSA que são conhecidas há décadas nos hospitais ainda são as responsáveis pela maioria dos casos. "Até uns poucos anos atrás, o MRSA estava quase que exclusivamente associado aos hospitais", afirma o epidemiologista do CDC John Jernigan (que não tem parentesco com Daniel Jernigan). "Os tipos encontrados na comunidade são geneticamente diferente daqueles existentes nos hospitais, mas a linha de distinção é difusa. Antes havia uma distinção bem nítida. Porém, temos sentido que um número cada vez maior dessas variedades associadas à comunidade está chegando até os hospitais e causando infecções hospitalares".

A bactéria se alastra pelo contato cutâneo entre indivíduos infectados, e ela pode ser transmitida por meio do compartilhamento de objetos, como lâminas de barbear e toalhas. Ela freqüentemente atinge mais de uma pessoa em determinada família, e pesquisadores no Canadá descobriram que animais de estimação e seus donos podem transmitir a bactéria uns para os outros.

"Estamos presenciando a transmissão do MRSA de pessoas para animais de estimação, e destes para as pessoas", diz o pesquisador Scott Weese, da Escola de Veterinária da Universidade de Guelph, em Ontário. "Isso faz com que surja a questão: os animais poderiam ser um reservatório da bactéria, e atuar como um vetor de transmissão nas residências?".

Ele afirma que as pesquisas revelaram que cães, gatos, coelhos e furões podem ser portadores da variedade USA300. Assim como ocorre com os humanos, a bactéria pode causar sérias infecções de pele e outras doenças nos animais.

"O que está acontecendo com os animais de estimação reproduz a situação entre os seres humanos", diz Weese. "Temos presenciado mais transmissões do micróbio em residências do que no passado".

Um simples resfriado se torna fatal

Até o seu filho ser diagnosticado, os pais de Bryce nunca tinham ouvido falar do MRSA.

"Nunca ouvi falar disso, e sequer achei que uma pequena bactéria pudesse causar algo desse tipo", diz Scott Smith, dono de uma loja de máquinas em Santee, na Califórnia, perto de San Diego.

Não se sabe como Bryce contraiu a bactéria, mas os seus pais acreditam que a criança possa ter sido infectada quando eles saíram para fazer as compras de Natal.

O tormento da família começou com um simples resfriado. Bryce apresentava congestionamento nasal uns dois dias antes do feriado, mas, na noite de Natal, os pais perceberam que a sua respiração estava acelerada, e temeram que ele pudesse estar sofrendo de asma.

Eles ligaram para o pediatra do garoto, que o atendeu dois dias depois, garantiu que a enfermidade era uma simples virose e disse aos pais: "Já vi isso um milhão de vezes".

Mas os dias se passaram, e o estado do bebê piorou. Os pais ligaram mais duas vezes para o médico. Este disse que o problema é que eles eram "pais novos", e que não deveriam se preocupar tanto.

"Finalmente, nas primeiras horas do Ano Novo, olhamos para ele e ficamos com medo de que, se dormíssemos, não estivesse vivo no dia seguinte", conta Smith. "Levamos o bebê às pressas para o hospital".

"No Hospital Infantil de San Diego, as coisas se passaram quase que segundo o roteiro de um filme", conta o pai. "Uma enfermeira mediu o índice de oxigênio no sangue de Bryce, e dentro de 30 segundos ele estava rodeado por uns dez profissionais".

Os médicos disseram que a infecção solidificara o pulmão direito de Bryce, e que seria necessária uma cirurgia para limpar o órgão. "Eles inseriram cinco tubos torácicos no bebê, porque a infecção estava localizada não só no interior do pulmão, mas também nas paredes externas do órgão, e estava devorando o seu peito".

Durante 12 dias os Smith não souberam se Bryce sobreviveria.

A seguir, ele foi colocado em um respirador artificial. Os médicos colocaram Bryce em um estado de coma induzido e administram-lhe vancomicina por via intravenosa, uma droga que é conhecida como a última linha de defesa contra o MRSA.

"Quando este medicamento é administrado, é como se o paciente tivesse fogo injetado em suas veias", diz Smith. "Naquele momento Bryce estava dormindo, e permaneceu dormindo por seis semanas, de forma que nos sentimos com sorte porque ele não teve que passar pela dor da vancomicina".

Atualmente, Bryce voltou quase que totalmente ao normal, mas Smith diz que ele e sua mulher não deixam ninguém mais tocar no garoto sem primeiro lavar as mãos.

"Me sinto muito culpado", confessa o pai. "O que não sai da minha cabeça é a imagem do meu filho deitado na nossa casa, e nós literalmente vendo-o morrer sem sabermos o que estava acontecendo". Danilo Fonseca

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