Aquário de Nova Orleans reflete dificuldades do turismo

Elliot Blair Smith
Nova Orleans

Os tubarões não sobreviveram. Os pingüins sim.

Por quase nove meses, o Aquário das Américas ficou fechado ao público, depois que o furacão Katrina varreu a cidade em agosto.

O aquário é a jóia da coroa das atrações turísticas de Nova Orleans, ao longo do Rio Mississippi, onde o distrito empresarial dá lugar ao bairro francês. É o destino mais popular de Louisiana e recebeu 730.000 visitantes no ano passado, mais do que para o Mardi Gras.

No entanto, o sol do final de agosto transformou o interior do aquário em um inferno tropical de 60 graus. A falta de energia devido à tempestade deixou os enormes tanques de peixes sem oxigênio.

Nos dias depois da tempestade, foi possível recuperar as cacatuas, papagaios, pingüins e lontras marinhas bufando no calor asfixiante. O tarpão prateado sobreviveu respirando ar da superfície do gigantesco tanque de Coral do Caribe. Mas a maior parte da vida aquática, inclusive os tubarões, morreu. Entre os sobreviventes: Spots, o jacaré branco; King Mydas, a tartaruga marinha gigante verde; e Paciência, matriarca de 27 anos de uma colônia de pingüins africanos de pés pretos.

Agora, o Instituto Audubon Nature, que opera o zoológico e o aquário da cidade, está sob imensa pressão financeira. Os desafios que enfrenta são sintomáticos da indústria turística do Estado de US$ 9,9 bilhões (em torno de R$ 20 bilhões). Em nenhum lugar isso é tão evidente quanto em Nova Orleans, que historicamente recebe anualmente US$ 5,5 bilhões (aproximadamente R$ 11 bilhões) dos visitantes, que geram 85.000 empregos. O turismo é a principal fonte de renda de Nova Orleans e é a segunda do Estado, depois do petróleo e gás. Gera US$ 600 milhões (em torno de R$ 1,2 bilhão) por ano em impostos estaduais e municipais.

Angele Davis, secretária de cultura, recreação e turismo de Louisiana, estima que o furacão tenha custado ao Estado US$ 2 bilhões (aproximadamente R$ 4 bilhões) em gastos de visitantes. Davis diz que os danos não terminam aí. Em recente pesquisa de mercado, seu departamento descobriu que 34% dos possíveis turistas estão menos interessados em visitar a Louisiana do que antes do Katrina; 62% vêem o Estado como menos atraente hoje; e apenas um em cada cinco turistas marcaria uma viagem durante a época de furacões, que começa em 1º de junho.

Na periferia de New Orleans, no local onde a Guarda Nacional acampou depois do furacão, o Parque e o Zoológico Audubon reabriram no dia de Ação de Graças. Mas o zoológico em geral perde dinheiro, sendo que no ano passado ficou no vermelho em US$ 3,9 milhões (aproximadamente R$ 8 milhões). Por outro lado, o aquário e seu cinema Imax, no centro de Nova Orleans, ganhavam o suficiente -US$ 4,9 milhões (em torno de R$ 10 milhões) em 2005- para patrocinar as exibições de animais da cidade, o centro da natureza e o centro de pesquisa que foi destruído na tempestade.

Agora, a administração da Audubon precisa trazer animais para o aquário, recontratar pessoal -depois de demitir quase dois terços de seus 700 funcionários no dia 1º de outubro- e financiar o serviço de dívida de US$ 42 milhões (em torno de R$ 84 milhões) em bônus nas mãos de investidores de Wall Street, sem ter um único cliente pagante. A instituição também está se apressando para terminar reparos de US$ 3,5 milhões (cerca de R$ 7 milhões) relativos à tempestade.

Um final feliz?

Talvez haja um final feliz para a história, porém. As vozes das crianças estão aumentando em Vieux Carre, em uma escola católica cujos alunos visitam o aquário a cada ano. Antes da Páscoa, eles levantaram US$ 600 (cerca de R$ 1.200) em um movimento de coleta de moedas para o aquário. Crianças, pais e professores em torno dos EUA coletaram milhares de dólares com vendas de biscoitos, lavagens de carros e apresentações. E vários aquários importantes contribuíram para Nova Orleans, inclusive enviando novos tubarões, raias e um cardume de carapau.

E mais, pingüins não voam. Na semana que vem, os 19 pingüins do Aquário das Américas e duas lontras marinhas -resgatados dias depois da tempestade, com fome e com calor, e evacuados para o Aquário de Monterey Bay, na Califórnia- voltarão para casa em um jato especialmente equipado, doado pela FedEx.

O aquário da cidade deve reabrir no dia 26 de maio, em meio a sinais de que os visitantes estão prontos para considerar Nova Orleans como destino de lazer, em vez de ponto de fuga.

As festividades do Mardi Gras em fevereiro e o festival de jazz em abril superaram as expectativas dos organizadores, apesar de não baterem os resultados dos anos anteriores. Em junho, o centro de convenções da cidade hospedará a primeira grande conferência desde o furacão. Em setembro, o Superdome voltará à atividade, abrigando o jogo "Espn Monday Night Football".

"Os visitantes voltarão a Nova Orleans", disse Stephen Perry, diretor executivo do Escritório de visitantes e Convenções da Metrópole de Nova Orleans. "A verdadeira questão é qual será o ritmo do retorno?" Essa é uma grande incógnita. A resposta fará toda a diferença para a capacidade de sobrevivência da indústria e liderará a recuperação do Estado.

A Autoridade de Recuperação de Louisiana, nomeada pelo governador, está dirigindo os esforços de recuperação. Ela planeja gastar cerca de 10% de um total de US$ 332 milhões (em torno de R$ 664 milhões) em assistência econômica federal para promover o turismo.

Campanhas desse tipo, no passado, deram um retorno de US$ 16 por cada US$ 1 gasto, de acordo com Davis, secretário de turismo do Estado. Além disso, o governo pretende investir cerca de US$ 7 milhões (R$ 14 milhões) em uma campanha nos jornais e televisão que chama de "Apaixone-se novamente por Louisiana". A campanha é endossada por celebridades como John Goodman, Wynton Marsalis e Allen Toussaint.

Cicatrizes do Katrina

O distrito empresarial central de Nova Orleans parece igual ao que era antes da tempestade. Bancos, corretoras, restaurantes e lojas cheios durante o dia. A vida noturna no bairro francês continua agitada até quase de manhã.

Mas as cicatrizes do Katrina estão em toda parte:

Somente 41% dos restaurantes famosos de Nova Orleans estão abertos, de acordo com Tom Weatherly, porta-voz da Associação de Restaurantes de Louisiana. "Os que conseguiram voltar à atividade foram principalmente os restaurantes independentes, os que basicamente tinham que voltar. Esse é seu único mercado", disse Weatherly.

O escritório de convenção espera hospedar um terço do número de grandes exibições e apenas metade seu número normal de participantes neste ano, de acordo com Steve Murray, analista de finanças públicas da Fitch Ratings.

Com 75% dos quartos de hotéis disponíveis, a ocupação chegou a 80% durante o inverno. Mas os funcionários do governo que ocuparam os quartos estão se preparando para sair, o que significa que a taxa de ocupação cairá novamente. Historicamente, viajantes a negócios na cidade representavam apenas 10% do setor turístico da cidade. Desde o Katrina, eles constituem 90% dos visitantes.

E apesar da celebração de Mardi Gras ter sido considerada um triunfo para uma cidade que enfrentou tamanha tragédia recentemente, a multidão deste ano foi dois terços do que antes do Katrina, e portanto os gastos dos turistas caíram pela metade, para US$ 200 milhões (em torno de R$ 400 milhões). Muitos hotéis e restaurantes têm dificuldades até para encontrar funcionários.

Oak Alley Plantation, em Vacherie, Louisiana, uma hora a oeste de Nova Orleans, estava preparada para receber um recorde de 250.000 visitantes no ano passado, mas terminou com 181.000, diz o proprietário Zeb Mayhew Jr. A freqüência neste ano é um quarto do nível anterior à tempestade.
"Definitivamente estamos em modo de sobrevivência", diz ele.

Mayhew acredita que Nova Orleans está melhor do que muitos turistas imaginam e que a indústria de turismo está se recuperando "mais lentamente do que precisa". "Por um lado, você não pode pintar um retrato cor de rosa, porque realmente temos problemas. Por outro lado, a parte da cidade que os turistas buscam está bem, e eles podem aproveitar. De alguma forma, há que haver uma separação dessas duas realidades."

O aquário vai trazer de volta alguns dos turistas necessários para sustentar o que Perry chama de "classe média trabalhadora de Nova Orleans: os chefes de cozinha, os porteiros dos hotéis, os músicos de jazz, realmente toda a economia cultura."

Mas será um aquário em maiores dificuldades que antes. Uma das principais preocupações do Audubon Nature Institute é como saldar sua dívida, que a Fitch Ratings rebaixou para status de junk. Uma moratória em seus bônus, prejudicaria profundamente a capacidade da cidade e do Estado de pegarem empréstimos em Wall Street.

Dale Stastny, principal operador do instituto, diz que o aquário tem cerca de US$ 2 milhões em dinheiro e um fundo de US$ 25 milhões (aproximadamente R$ 50 milhões), que não quer tocar, para cumprir suas obrigações imediatas. Ele também receberá uma porção dos impostos sobre propriedade da cidade, apesar das cobranças deste ano não terem sido emitidas.

"Tudo o que precisamos é que antes de outubro um pouco menos do que 20% das coletas normais (de Iptu) tenham sido recebidas. Assim teremos o suficiente para cobrir o serviço da dívida", disse Stastny. Ele acrescentou que o aquário provavelmente terá que reestruturar sua dívida para reconstruir seu colchão de dinheiro e pagar o que será um grande déficit em recibos de impostos.

É aí que as crianças estão entrando.

No bairro francês, a St. Louis Cathedral Academy, que educa crianças desde 1718, tornou-se a primeira escola a reabrir, no dia 17 de outubro.

A irmã Mary Rose Bingham, diretora, disse que não sabia quantas crianças esperar. Mas a escola recebeu o dobro de inscrições ao número anterior à tempestade. A instituição inchou e acolheu 237 alunos, entre eles filhos de policiais que moraram temporariamente em um navio cruzeiro no rio Mississippi. Na última contagem, havia alunos de 28 escolas diferentes da área na academia.

A cada dia, Bingham e as crianças caminham pelo bairro francês. Ela diz que acompanhou a luta de reconstrução da cidade.

"Os adultos que estão morando aqui e administram pequenos negócios e grandes empresas realmente precisam que os turistas voltem", disse Bingham. "Digo aos meus amigos e familiares: quiserem doar, entrem em um avião e venham gastar em Nova Orleans. Porque então você não estará apenas ajudando esta escola, mas os hotéis e restaurantes e todas as atrações turísticas."

Para ajudar o aquário, os alunos da escola começaram a trazer as moedas que colecionavam em seus cofrinhos. Algumas crianças doaram seu dinheiro do lanche. Rapidamente o bolo cresceu.

"Todo mundo pode fazer alguma coisa, e era isso que eu queria que nossas crianças soubessem. Mesmo que você esteja sem casa, ainda pode fazer alguma coisa", disse Bingham. "Esperávamos que talvez outros ouvissem falar sobre o que essas crianças fizeram e ajudassem."

Ajuda de crianças em todo o país.

As crianças ajudaram em todo o país, de acordo com a porta-voz do aquário, Melissa Lee:

No Kansas, Wichita High School East e Robinson Middle School fizeram um show, uma rifa e um leilão e levantaram US$ 5.000 (em torno de R$ 10.000) para o aquário e o zoológico.

Em Plano, Texas, os pais de Nick Epstein, de 12 anos, um amante de pingüins que morreu de ataque cardíaco, enviaram doações para o Dallas World Aquarium, que repassou o dinheiro para Nova Orleans. Total US$ 1.753 (aproximadamente R$ 3.500).

Em Culver City, Califórnia, a segunda série em Willows Community School fez e vendeu cartões escritos à mão, levantando US$ 1.600 (em torno de R$ 3.200).

Em Montgomery, Alabama, gêmeos de 6 anos, Wylie e Spanler Edwards, pediram a seus amigos que doassem para os animais de New Orleans em vez de comprarem presentes de aniversário. Total: US$ 805 (cerca de R$ 1.600).

Em Trumbull, Connecticut, a terceira série da Nichols United Methodist Church School organizou uma venda de biscoitos e limonada que levantou US$ 410 (em torno de R$ 820).

E em Nova Orleans, uma dúzia de jovens mães cujos filhos brincam juntos uma vez por semana doou US$ 400. Leila Garnard, uma das mães, disse: "Partiu meu coração saber que minha filha Whitney, apesar de ter um ano e não conhecer o aquário ou o zoológico, talvez nunca os conhecesse."

Com a volta de Patience e dos outros pingüins e lontras-marinhas do aquário, a cidade está reconquistando outra parte de sua vida, como fez quando as primeiras crianças voltaram em outubro. Segundo Bingham: "Até os idosos se aproximavam de nós e disseram: 'Obrigado por trazer as crianças de volta. Estava tão silencioso sem elas.'"

Os pingüins acrescentam seu caminhar balançado e mau humor.

Christina Slager, curadora do aquário de Monterey Bay, que trabalhava antes em Nova Orleans e conhece Patience há quase 20 anos, diz: "Eles reconhecem seres humanos. Eles reconhecem indivíduos. E formam opiniões. Eles gostam de alguns de seus tratadores. De outros, nem tanto. Tenho certeza que vão se lembrar das pessoas quando voltarem para Nova Orleans. Será uma ótima recepção." Deborah Weinberg

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