Vince Vaughn por dentro

Susan Wloszczyna
em Santa Mônica, Califórnia

Ouvir Vince Vaughn falar é como ouvir jazz. As palavras se tornam notas musicais, sons staccato ou sons alongados (quando aqueles lábios carnudos formam "movie", torna-se "m-ooo-vie"). As frases tornam-se padrões rítmicos, com picos, vales e curvas sinuosas.

Quem mais pegaria uma oração simples como "Por que alguém ia querer lavar a louça?", como ele faz em "Até Que o Casamento Nos Separe", que estréia dia 2 de julho, e a transformaria em um anúncio de uma guerra entre os sexos?

Phil McCarten/Reuters - 22.mai.2006 
Vince Vaughn concede entrevista na estréia de seu novo filme, a comédia 'The Break Up'

O que o ator alto, sombrio e intenso fala para vender seu novo filme entretém tanto quanto, digamos, suas objeções ao namoro no filme do ano passado "Penetras Bons de Bico" ("Você fica sentado lá, se perguntando:
'estou com comida na cara, falando demais, ou será que estamos falando o suficiente, será que estou interessado, ou não estou de fato interessado...").

Esta comédia "anti-romântica" que deixa de lado a fórmula de encontro bonitinho e vai direto para quando as coisas ficam feias, é baseado em sua própria idéia original, uma reação aos roteiros melosos que recebia.

"Eles sempre têm essa história realmente ridícula", diz ele. "Tipo, você sabe, 'se você casar com a garota, vai herdar a empresa'. Se não, vou dar para este cara realmente maldoso que trabalha para mim. Sou mais fã de comédia que tem alguma realidade, que dê para acreditar."

Sua escolha de comédia romântica? "Gosto muito de 'Laços de Ternura'", diz o ator. Você quer dizer, quando Debra Winger morre de câncer, todo mundo vai ao funeral e o público chora incontrolavelmente?

"Acho um grande moooovie (filme)", diz ele, ligeiramente na defensiva.

Fique tranqüilo que as risadas abundam em "Até Que o Casamento Nos Separe", e a única coisa que expira é o relacionamento principal quando Vaughn e Jennifer Aniston se recusam a deixar o apartamento que é dos dois. Ainda assim, os que gostaram da frivolidade solta de "Penetras Bons de Bico", a comédia que mais arrecadou no ano passado (US$ 109 milhões, em torno de R$ 220 milhões) e que foi o convite adiado de Vaughn à classe A de Hollywood, devem se preparar para uma jornada emocional atribulada.

O que é mais surpreendente sobre o ator, 36, não é sua escolha de uma história de amor engraçada. É quanto tempo ele levou para se tornar um rei da comédia.

Vaughn entrou na cena com uma pretensão viril de homem moderno e atraente que falava rápido em "Swingers - Curtindo a Noite" de 1996. Ele era quente.Ele era esperto. E dizia uma frase que o persegue até hoje: "You're so money!" ("Você é tão dinheiro!")

As damas imediatamente o notaram (e também diretores como Steven Spielberg). Mas os rapazes também ficaram impressionados, especialmente quando seu Trent aspirou em "fazer a cabeça de Gretzky sangrar", enquanto jogava um videogame de hockey.

Jay Lavender, 31, um dos autores do roteiro de "Até Que o Casamento Nos Separe", foi um dos muitos jovens admiradores de Vaughn depois de ver "Swingers". "Não tirava os olhos dele. Ele tinha tamanha energia e sagacidade. Na minha cabeça, ele era um astro. Não havia questão que sua hora chegaria."

Mas Vaughn rapidamente caiu na armadilha do grande sucesso, confundindo um papel mal escrito em 1997 em "O Mundo Perdido: Jurassic Park" com um impulso na carreira. Mesmo com 1,95m de mito masculino, descrito como filho imaginário de Ann-Margret e Elvis, ele não podia competir com um T.rex enlouquecido.

Então se acomodou em ser um talento em dramas esquecíveis que usavam seu físico, mas muitas vezes não tiravam vantagem de sua destreza verbal. Como observou Salon sobre seu ridículo assassino em série e caubói sedutor de "Clay Pigeons", de 1998: "Vaughn está oficialmente correndo o perigo de pegar a síndrome de Dennis Quaid -quando você começa com uma incrível aparência e talento e nunca faz um filme de sucesso e acaba fazendo o papel do pai de alguém em um filme especial para a TNT".

Aniston, que é parceira de luta de Vaughn na tela e de carícias fora da
tela: "Eu conhecia ele mais como ator de drama do que de comédia. Conhecia de 'Clay Pigeons', de 'Um Lugar Seguro', de 'Swingers' e de todos esses filmes que você sabia que Vince Vaughn tinha trabalhado mas não necessariamente..." Ela interrompe educadamente, mas a palavra não dita- assistiu- continua estranhamente no ar.

Vaughn diz que foi sua escolha pegar tarefas como exumar Norman Bates na refilmagem de "Psycho" de 1998. "Tive muitas oportunidades, mas realmente não gostava da maior parte das comédias", explica.

Jon Favreau, amigo antigo de Vaughn que escreveu "Swingers" e faz seu melhor amigo em "Até Que o Casamento Nos Separe" tem outra teoria. "Quando você olha para ele, é o ator principal, ou o inimigo do ator principal que está tentando levar sua garota. Mas o que as pessoas não percebem é que ele é realmente um ator de personagem. É por isso que o coloco junto com Walter Matthau e Jack Nicholson."

Só o que foi preciso para Vaughn vencer foram alguns amigos em altas posições e uma série de três anos de comédias, grandes e pequenas: o estudante universitário mais velho de "Dias Incríveis", o barão das drogas de "Starsky & Hutch - Justiça em Dobro", o proprietário de uma academia em "Com a Bola Toda", o jornalista rival em "O Âncora - a Lenda de Ron Burgundy", o agente em "Get Cool" ("Twinkle twinkle, baby, twinkle twinkle"), o chefe de Brad Pitt em "Sr. & Sra. Smith" e o arrombador de festas em "Penetras Bons de Bico".

Finalmente, depois de uma década da comédia dominada por bobos maníacos (Jim Carrey), palhaços (Adam Sandler) e imbecis românticos (Hugh Grant), o macho Vaughn é de fato dinheiro. Ele recebeu US$ 12 milhões (em torno de R$ 24 milhões) para fazer "Até Que o Casamento Nos Separe", e US$ 2 milhões (aproximadamente R$ 4 milhões) para produzir e ajudar a escrever. A Premiere estima seu cachê em US$ 20 milhões (cerca de R$ 40 milhões) para fazer o irmão ressentido do Papai Noel no filme do ano que vem "Joe Claus".

Christine Spidell, 41, mãe de dois em Anaheim, Califórnia, dirige o site vince-vaughn.com, um altar da Web erigido em 2004 que recebe entre 25.000 a 50.000 visitantes por mês. Ela sabe qual é o charme de Vaughn.

"Ele tem uma qualidade de 'bad boy'. Bebida, cigarro, festas. Ele veste as roupas de quer -muito xadrez- dirige um modesto carro americano e não liga para o que as pessoas pensam dele", diz ela. "Mas por baixo da imagem de festeiro, é um sujeito bom e trabalhador do Centro-oeste, com bons valores. Ele tem apoiado nossas tropas no Iraque. E é bonito de doer. Aqueles olhos turvos, aquela barba mal feita e o cabelo cacheado despenteado."

A influência recente de Vaughn se estende para o elenco de "Até Que o Casamento Nos Separe". Não só ele sempre quis Aniston, mas foi capaz de livrar o grupo de muitos que compartilham sua queda por furar o roteiro com improvisos.

O time de Vince inclui a ex-namorada Joey Lauren Adams, Jason Bateman, Cole Hauser, Vincent D'Onofrio e Peter Billingsley (Ralphie de "Uma História de Natal"). Ele deu até um presente a seu pai, Vernon, que faz o pai de Aniston -Ann-Margret como sua esposa no filme.

O ator também está recebendo mais atenção da mídia -do tipo que em geral não se quer. Chame-os de Vinnifer ou Vaughniston, só não os chamem de casal na sua frente. Nem a poderosa Oprah conseguiu convencer Vaughn ou Aniston a revelar qualquer detalhe sobre sua conexão no ar.

No entanto, elogiam um ao outro com prazer. Aniston diz de Vaughn: "Ele é realmente carismático na tela. Ele é um ser humano muito interessante e isso faz dele um ator mais interessante."

Vaughn retorna o favor: "Ela trabalha tão bem. As cenas que se tornam dramáticas são simples e realmente verdadeiras, nada exageradas.
Simplesmente cruas e honestas."

Ele não fica muito irritado com a invasão da mídia. "Neste momento, estamos realmente em uma situação em que todo mundo está fascinado. Mas isso vai passar."

Além do que, diz ele, "entendo que as pessoas estão fazendo seu trabalho. Eu acho tudo um pouco ridículo. Como no colégio. Tal e tal ficaram com tal e tal. Quando eu era mais moço, o foco de todo mundo era tentar ser ator. Agora acho que tem mais pessoas querendo ser celebridade."

Como seu personagem, ou quase todo homem que tem medo de compromisso em uma comédia romântica, Vaughn passou a vida fugindo do altar. "Já tive relacionamentos realmente sérios, com pessoas por quem eu me apaixonei", diz ele. "O casamento foi falado, mas nunca planejado. Nunca cheguei ao ponto de dizer: 'Ok'".

Parte de sua relutância vem de ver os sacrifícios feitos por seus pais por ele e suas duas irmãs. Eles se divorciaram quando Vaughn tinha 21 anos."Eles tiveram filhos tão jovens e os dois trabalhavam. Os filhos eram o foco de suas vidas. O que fazemos como atores é uma espécie de busca egoísta. Então você sempre coloca essas coisas para depois. E quando você fica mais velho, suas prioridades começam a mudar e você diz: 'Talvez eu esteja pronto para que minha vida seja sobre outra pessoa'".

Neste momento, o trabalho está em primeiro lugar. "Ele está no topo do mundo", diz Favreau. Ninguém que trabalhou em "Até que o Casamento nos Separe" especula se o possível namoro de Vaughn e Aniston atrairá mais público, como foi o caso do seu ex, Brad Pitt, e seu novo amor Angelina Jolie, em "Sr. &šSra. Smith", ou o contrário.

"Este filme vai determinar sua carreira", prevê Favreau. "Ele pode ser um ator bem pago ou, se o filme tiver sucesso, pode chegar a criar seu próprio material e decidir quem e onde e como vai trabalhar. Certamente é isso que quer fazer." Deborah Weinberg

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