Alasca é um retrato do aquecimento global

Elizabeth Weise
em Fairbanks, Alasca

Para o observador não acostumado, a floresta de Bonanza Creek é um local vibrante e de tirar o fôlego, cheio de borboletas e pássaros, onde se vêem sinais de alces e ursos a cada curva do caminho.

Mas quem vê este cenário sob a ótica do ecologista florestal Glenn Juday enxerga uma paisagem moribunda. Desde a década de 1970, a alteração climática dobrou a duração das estações quentes em algumas localidades, e elevou as temperaturas do Estado em 3,3ºC no inverno e, em média, em 1,9ºC anualmente desde 1950, de acordo com Juday, professor da Universidade de Alasca-Fairbanks. A seca está estressando e matando abetos, aspens (árvore das regiões frias do hemisfério norte) e bétulas.

O Alasca se transformou no Estado que é o retrato do aquecimento global, o efeito climático de dimensões planetárias atribuído às altas concentrações de gases causadores do efeito estufa - em sua maioria, dióxido de carbono criado pela queima de combustíveis fósseis - que aprisionam o calor do sol na atmosfera.

O aquecimento global é um assunto muito discutido, especialmente nos dias de hoje. A temporada dos furacões tem início na próxima quinta-feira, e os pesquisadores do clima alertam que a elevação das temperaturas do oceano pode gerar tempestades mais intensas.

O ex-vice-presidente Al Gore voltou a ser notícia com o lançamento do seu aclamado documentário sobre o aquecimento do planeta, "An Incovenient Truth" ("Uma Verdade Inconveniente"). E o presidente Bush - que foi criticado pelos grupos ambientalistas que afirmam que ele demorou muito para reconhecer as ameaças representadas pelo aquecimento - disse na semana passada: "As pessoas no nosso país estão justificadamente preocupadas com os gases causadores do efeito estufa e o meio-ambiente".

O Alasca é importante para a mensuração do impacto do aquecimento global sobre os Estados Unidos, porque o que acontece aqui em breve será sentido nos outros 48 Estados continentais, dizem especialistas como Robert Corell, membro da Sociedade Meteorológica Americana.

O verme do botão do abeto, o escavador da folha do aspen e o besouro da casca do abeto, pragas que costumavam ser contidas pelo frio do inverno, estão prosperando no Alasca. Em todo o Estado, proliferações de insetos já mataram mais de 16 milhões de hectares de florestas em uma década e meia, garante John Morton, biólogo do Refúgio Nacional Kenai da Vida Selvagem, em Soldotna.

Os incêndios, há muito tempo uma parte integral da ecologia florestal do Estado, estão queimando milhões de hectares à medida que os verões se tornam mais longos e quentes, alerta Scott Rupp, professor de gerenciamento florestal da Universidade do Alasca-Fairbanks. E com cada onda de incêndios as árvores têm maior dificuldade para se recuperar neste cenário cada vez mais quente e seco.

Esta grande floresta boreal poderá se transformar em um capinzal. "Em breve as pessoas visitarão as grandes pradarias do Alasca", afirma Juday.

O Alasca está à frente na curva da mudança climática porque as regiões polares se aquecem mais rapidamente. Elas foram mantidas frígidas devido às suas vastas regiões de neve e gelo, que refletem 70% da energia solar de volta ao espaço.

Mas as temperaturas mais altas estão fazendo com que essa cobertura de neve e gelo encolha. No Ártico, o gelo marítimo no verão diminuiu entre 15% e 20% nos últimos 30 anos, segundo o relatório Avaliação de Impacto Climático no Ártico de 2005.

E, à medida que a neve e o gelo diminuem, os raios solares atingem mais solo e água, que absorvem a maior parte do calor, refletindo apenas 20% da energia, explica Matthew Sturm, cientista do Laboratório de Engenharia e Pesquisa das Regiões Frias do Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos, em Fairbanks.

Lagoas e lagos estão desaparecendo à medida que a permafrost - a camada de terra que fica permanentemente congelada e que cobre grande parte do Alasca ao norte de Fairbanks - é derretida. "É como retirar o tampão de uma banheira", diz Peter Schweitzer, um antropólogo que trabalha com os povos do Ártico no Alasca e na Rússia. "Em certas áreas, até 40% da água da superfície desapareceu, levando consigo o habitat vital para patos e outras aves aquáticas", lamenta Juday.

A permafrost, presente em grande parte das regiões norte e central do Estado, é uma relíquia da última Era Glacial. Alguns solos congelados sob Fairbanks têm 100 mil anos de idade, diz Vladimir Romanovsky, um especialista em permafrost de Fairbanks. E agora este solo está ficando "esponjoso".

Para Ruth Macchione, isto significou um projeto mais caro para a sua nova casa, depois que o chalé que o seu marido construiu na década de 1950 afundou no solo. A permafrost sob o chalé derreteu porque este não foi construído de forma a manter a terra fria - uma medida fundamental quando se constroem casas nas regiões geladas.

A sua nova casa possui pilastras para permitir que o ar frio circule sob ela. "Os engenheiros locais estão ficando preocupados com as elevadas temperaturas do solo, de forma que têm feito mais aterros para combater este problema", diz Billy Connor, diretor do Centro de Transportes da Universidade do Alasca. Segundo Sturm, isso significa construções mais caras.

Verões longos, primaveras prematuras

Mais calor significa verões mais longos. A temporada quente em Fairbanks passou de 80 para 120 dias desde que tal período passou a ser monitorado no início do século passado, diz John Walsh, diretor do Centro de Mudança Global e Pesquisa do Sistema Ártico da Universidade do Alasca-Fairbanks.

Mas estes dias de verão não foram acompanhados de mais chuvas, de forma que as plantas e árvores adaptadas aos verões curtos e frescos crescem rapidamente, mas, a seguir, secam quando ainda faz calor. Segundo Walsh, este é um dos motivos pelos quais os incêndios florestais se transformaram em um problema de tal magnitude.

Os verões mais quentes não são um problema apenas aqui. No Meio-Oeste e no Leste dos Estados Unidos alguns graus extras podem elevar o preço do leite.
Isso porque as vacas não gostam do calor. Quando a coluna de mercúrio ultrapassa os 27ºC, a produção de leite cai.

"No ano passado, tivemos casos de manadas nas quais foram registradas quedas de dois a sete quilos de leite por vaca, e elas geralmente produzem entre 30 e 34 quilos de leite diariamente", diz Larry Chase, professor de ciência animal da Universidade Cornell, em Ithaca, no Estado de Nova York.

No Meio-Oeste, o Corn Belt (região produtora de milho nos EUA) está encolhendo, alerta S. Elwynn Taylor, professor de meteorologia agrícola da Universidade do Estado de Iowa, em Ames. Especialmente nas fronteiras ocidentais de Nebraska, Dakota do Norte e Dakota do Sul, as áreas nas quais se produzia milho e soja agora não se prestam mais ao cultivo dessas culturas.

David Lobell, um cientista ambiental do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, em Livermore, na Califórnia, diz que para cada aumento de 1,8ºC os fazendeiros podem esperar um decréscimo de 17% nas colheitas de milho e soja.

Taylor não está convencido de que o aquecimento não seja simplesmente parte de um padrão climático mais amplo que é presenciado no Meio-Oeste desde aproximadamente 1850. E ele não está sozinho nesta suposição. Outros cientistas vêem o aquecimento como uma mudança climática cíclica, mas o grupo dos que pensam desta forma é muito menor do que o daqueles que afirmam que o planeta está sendo aquecido progressivamente porque a atividade humana está aumentado a emissão de gases criadores do efeito estufa.

Um relatório marcante de 2001, feito pela Reunião Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudança Climática, previu que até 2100 a temperatura média da superfície do planeta subirá de 1,4ºC a 5,5ºC acima dos índices registrados em 1990.

Em White Mountain, uma vila de 200 habitantes na costa oeste do Alasca, próxima à cidade de Nome, o abastecimento da dispensa ficou mais difícil para Rita Buck, integrante da tribo Inupiaq e funcionária do centro médico local.

O ano de Buck costumava ser preenchido por trabalho. Primeiro vinha a pescaria do salmão, e depois a colheita de frutas. A salmonberry, um tipo de framboesa, chegava primeiro, e a ela se seguia o mirtilo, a amora silvestre e, finalmente, a groselha. Essas frutas compõem uma parte importante da dieta de subsistência.

Mas, segundo ela, agora as frutas estão surgindo prematuramente, quando as geadas ainda são um perigo. "A geada congela todos os frutos imaturos e impede que eles cresçam", explica Buck.

Os plantadores de Michigan, o principal produtor de tart cherry (espécie de framboesa) para a fabricação de tortas, estão passando pelo mesmo problema. Atualmente a primavera chega entre sete e dez dias mais cedo do que costumava chegar na década de 1970, mas as ondas de frio ainda ocorrem nas épocas tradicionais.

As frutas deste tipo que são comumente cultivadas na região não são resistentes ao frio, de forma que, assim que saem do período de dormência, não contam com resistência à temperatura gélida, explica Jeffrey Andresen, meteorologista agrícola da Universidade do Estado de Michigan, em East Lansing. "Em 2002, o aquecimento prematuro tirou a cultura de tart cherry do seu estado de dormência em a seguir, uma geada de dois dias em abril provocou a perda quase total da colheita daquele ano", conta Andresen.

Os agricultores poderão ter que plantar variedades mais resistentes ao frio, algo que, segundo andresen, não sairá barato. "Não dá para apenas retirar as árvores e plantá-las em algum outro lugar".

Os invernos mais moderados são um problema. No Alasca, o mar de gelo que protege a costa das tempestades de inverno está se formando uma semana mais tarde do que costumava acontecer, diz David Atkinson, professor de ciência atmosférica em Fairbanks.

O Departamento de Contabilidade do Estado, preocupado com o custo da transferência de comunidades em risco, calcula que mais de cem vilas costeiras correm risco potencial, já que as tempestades de inverno erodem as suas costas, que costumavam ficar protegidas. As águas sem a cobertura de gelo permitem que esses locais sejam atingidos por tempestades mais intensas. Algumas áreas perderam de 10 a 12 metros de praia durante uma única tempestade, afirma Atkinson.

Os invernos mais moderados também estão criando problemas para os fazendeiros californianos que cultivam culturas valiosas como pêssegos, nectarinas, amêndoas, pistaches e nozes, que necessitam de um período de frio para que floresçam de maneira apropriada.

Uma série de invernos quentes prejudicou a produção de frutas, afirma Theodore deJong, professor de botânica da Universidade da Califórnia-Davis. Os fazendeiros poderão ser obrigados a substituir as suas plantas por variedades mais resistentes ao calor, o que é uma solução cara.

Mas para árvores como a ameixeira, esta pode simplesmente não ser uma opção. Seriam necessários de dez a vinte anos para a criação de variedades destas árvores que fossem resistentes ao calor, garante DeJong. Os processadores já estão transferindo parte das suas unidades de produção para o Chile. Em breve poderá chegar o dia no qual a Califórnia, que atualmente produz entre 95% e 98% de todas as ameixas dos Estados Unidos, saia totalmente do ramo.

Os impactos sobre a saúde

Os grandes incêndios que atingiram o Alasca nos últimos verões encheram o ar de tanta fumaça e cinza que a população de Fairbanks precisou em determinados momentos usar máscaras contra poeira, e os médicos recomendaram aos pacientes asmáticos que abandonassem a cidade até que o fogo fosse extinto.

Mas não é necessário um incêndio para tornar o ar prejudicial à saúde, diz Paul Epstein, diretor do Centro de Saúde e Meio-ambiente Global da Escola de Medicina da Universidade Harvard.

O número de casos de asma e alergias nos Estados Unidos está aumentando em parte porque o excesso de dióxido de carbono na atmosfera está superestimulando a produção de pólen, que desencadeia esses problemas, alerta Epstein. Quando o nível de dióxido de carbono dobra, os caules das gramíneas crescem 10% a mais. Mas a quantidade de pólen aumenta em 60%. "Contagens de pólen de 120 costumavam ser motivo de alerta. Mas agora estamos presenciando contagens de 6.000", afirma Epstein.

Os invernos mais quentes também significam que os insetos são capazes de se multiplicar em locais onde o frio costumava contê-los. A doença de Lyme está se disseminando para além das antigas regiões nas quais habita o carrapato transmissor da doença. E o vírus do oeste do Nilo está se alastrando porque as secas de primavera amplificam o ciclo do mosquito que pica as aves portadoras da doença, diz Epstein.

Olhando para o futuro

De acordo com Corell, da Sociedade Meteorológica Americana, dez anos de mudança na região ártica se constituem em um quadro prévio da mudança que ocorrerá no resto do mundo em um período de 25 anos.

Mas isto não quer dizer que tal cenário seja inevitável. Até mesmo pesquisadores como o professor de ciências da Terra da Universidade de New Hampshire, Cameron Wake, que estudam fenômenos como a chegada prematura da primavera, conseguem enxergar um fio de esperança. "Este país dá o melhor de si quando se depara com um grande desafio, seja a Segunda Guerra Mundial, seja a viagem à Lua", afirma Wake. "Este é o próximo grande desafio dos Estados Unidos". Danilo Fonseca

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